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Artigo

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A ironia do tráfico

Por Vitor Santos

Foto: Acervo pessoal

A Bahia é muito conhecida, no imaginário popular, por ser uma terra de tradições, povo alegre e axé. Considerando essas qualidades, a Bahia atrai muitos visitantes, turistas, ávidos em conhecer os seus encantos. Não por caso, vez por outra, o território baiano serve de inspiração para produções culturais. Ocorre que, na última década, um novo fenômeno, infelizmente, surgiu nesse cenário: a guerra de facções. 

 

Na virada do milênio, Hollywood produziu o longa Traffic (2000), filme que conta a complexa engrenagem do mercado de drogas norte-americano. Num roteiro cercado de nuances, destaca-se a figura de um obstinado juiz, empenhado em combater o narcotráfico, porém tem de lidar com a filha adolescente, viciada em heroína. No contexto baiano, as nuances se encontram nas políticas públicas.

 

Recentemente, a audiência de custódia, procedimento judicial, que visa avaliar a legalidade da prisão, bem como garantir a defesa do preso, recebeu críticas de parte do establishment baiano. Por outro lado, esse mesmo grupo, tem enaltecido o fato da Bahia ter muitos destinatários de programas de transferência de renda, tal como, o Bolsa Família. Até que ponto, esse tipo de política funciona? Meu bem, meu mal. A Bahia tem uma taxa de desemprego, considerada alta. O desemprego aumenta o crime.

 

A dignidade da pessoa humana e a cidadania se aperfeiçoam através da política de geração de emprego. Não convém, para a sociedade, a diretriz de transferência de renda, em larga escala. Nessa lógica, a tendência é aumentar a tributação. Ademais, o trabalho e a livre iniciativa são a base da sociedade, princípios fundamentais, na forma do art. 1º, inciso IV, da CF.  

 

Segundo o Instituto Fogo Cruzado, organização que monitora a violência armada, no ano de 2024, apenas em Salvador, foram contabilizados 1.335 tiroteios, que resultaram em 949 mortos e 279 feridos. Considerando as cidades do seu entorno, esse levantamento sugere que os tiroteios mataram mais de três pessoas por dia em Salvador e Região Metropolitana (RMS). Em comparação com o ano de 2023, quando foram registrados 1.783 tiroteios, nessa área, houve uma redução desses confrontos. Ainda assim, a realidade atual é alarmante e perigosa. Em breve, será divulgado os dados referentes ao primeiro semestre do corrente ano.

 

O noticiário policial tem trazido evidências de que a violência na Bahia chegou a níveis, até então, nunca vistos anteriormente. Os especialistas em segurança pública concordam que a causa é a disputa de espaços, entre as organizações criminosas. No combate a essa desordem, ainda pesam sobre a polícia, acusações de genocídio contra o povo negro que vive nas comunidades.

 

Em resumo, o grande vilão, não é o tráfico. É a traficância. Nessa “feira” de vaidades, a grande vítima, é, a juventude negra da periferia. Gilberto Braga, conhecido autor de folhetins globais, já falecido, teria farto material pra criar um enredo, baseado nesse drama. A sua fina ironia revelava, sutilmente, os bastidores. O estado baiano precisa rever suas políticas públicas. A baianidade está em xeque.
 

*Vitor Santos é advogado

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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