Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
/
Artigo

Artigo

Sesquicentenário de Cosme de Farias (O maior funeral da história)

Por Nelson Cadena

Foto: Acervo pessoal

As 18:35 minutos, de 03 de abril de 1972, já anoitecendo, horário fora do protocolo, o corpo do parlamentar mais antigo do mundo e do homem mais caridoso da Bahia, foi sepultado no cemitério Quinta dos Lázaros. Durante duas horas e meia uma multidão, que os jornais estimaram entre 20 e 30 mil pessoas, carregou o caixão, braços se revezando, por ruas estreitas, da Igreja de São Domingos, Terreiro de Jesus, onde foi velado, até Quintas na Cidade Nova. Foi o maior funeral da história até a data referida. A população de Salvador, segundo o IBGE, então, era de 1,02 milhões de habitantes.

 

O previsto e convencional era transportar o corpo num carro fúnebre, porém o povo se insurgiu e arrancou o caixão do carro e aos gritos de “Cosme é nosso”, percorreu a pé os seis quilômetros, entre a igreja e o cemitério. Foi o maior funeral da história, superando os do ex-governador Otávio Mangabeira (1956) e o da Mãe de Santo Aninha, do terreiro do Axé Apó Ofunjá, em São Gonçalo do Retiro (1938). Antes do funeral, o corpo permaneceu no meio da nave da Igreja de São Domingos, templo onde durante anos atendeu ao público, os pobres e desfavorecidos, num cantinho improvisado.

 

No seu testamento público o rabula pedira um caixão de terceira classe, não foi atendido. Colocaram-no num caixão de primeira, vestiram-na com um terno cinza e cobriram-no com angélicas e palmas de Santa Rita e na altura do coração, uma cartilha do ABC, no meio de pétalas, simbolizando a campanha que sustentou por décadas e foi o seu maior legado: a campanha contra o analfabetismo. Durante o velório o arcebispo primaz do Brasil, Dom Avelar Brandão Vilela, enfatizou “Este homem por seu idealismo, por seu amor aos pobres e humildes, merece o apreço da alma baiana”.

 

No percurso até o Cemitério de Quintas, por prévio consenso, referendado pela imprensa, o comércio deveria fechar as portas e liberar seus funcionários para acompanhar o cortejo fúnebre. O comércio em peso atendeu, com exceção das “Lojas Brasileiras” da Baixa dos Sapateiros, que visou a oportunidade de lucro e pagou caro pela ganância. A loja foi parcialmente depredada, as portas fechadas às pressas, para evitar maiores danos.

 

No cemitério, uma multidão aguardava a chegada do corpo que seria depositado na quadra Nossa Senhora do Pilar. Alunos da Escolas de Polícia Militar, em torno de 60, perfilados 30 de cada lado, formaram uma guarda de honra, na entrada do necrotério. Passaram-se 14 anos para a Bahia assistir outro grande cortejo fúnebre, o de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, Mãe Menininha do Gantois.

 

A lembrança de Cosme de Farias foi se diluindo com o tempo, hoje algumas das entidades que deveriam celebrar o seu sesquicentenário, incluindo a Igreja de São Domingos, revelam um quadro de septiomissão generalizada, “falência” total dos ditos órgãos.

 

*Nelson Cadena é escritor e jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Compartilhar