Trump 2: Cooperação ou Confronto com a América Latina?
A reeleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2024 marca o início de uma nova fase na relação entre os EUA e a América Latina. Diferentemente de seu primeiro mandato e do governo Biden, caracterizados por uma certa negligência em relação à região, o segundo governo Trump promete uma política externa mais intervencionista e assertiva. Guiado por prioridades domésticas como controle migratório, combate ao narcotráfico e contenção da influência chinesa, Trump buscará redirecionar o foco norte-americano para seu entorno imediato.
O controle da imigração ilegal será uma das prioridades centrais do governo Trump. O México, como principal parceiro e alvo, enfrentará uma pressão sem precedentes. Estão em discussão políticas como deportações em massa e a imposição de tarifas comerciais punitivas, caso o país não atenda às demandas de Washington para reforçar a segurança na fronteira e combater o tráfico de drogas. Tarifas de até 25% sobre exportações mexicanas já foram mencionadas, o que ameaça a economia do país, altamente dependente do comércio com os Estados Unidos, que responde por mais de 80% de suas exportações. Essa postura pode gerar tensões significativas, mas Trump aposta na força de sua posição para obter resultados imediatos.
Outro tema prioritário será o combate ao narcotráfico, especialmente no que se refere ao fentanil, uma droga que causa milhares de mortes por overdose nos EUA todos os anos. A administração Trump avalia a possibilidade de ações militares limitadas, como ataques com drones contra cartéis mexicanos, e maior pressão sobre governos de países produtores ou de trânsito, como México, Colômbia e nações da América Central. Contudo, essas ações podem provocar tensões diplomáticas severas, especialmente se desrespeitarem a soberania dos países envolvidos.
Na esfera econômica, o segundo governo Trump também buscará conter a crescente influência da China na América Latina. Nos últimos anos, a China se consolidou como um dos principais parceiros comerciais da região, com um volume de comércio que saltou de US$ 18 bilhões em 2002 para US$ 480 bilhões em 2023. Washington vê esse avanço como uma ameaça estratégica e pretende pressionar os países latino-americanos a limitarem os investimentos chineses em setores críticos, como portos, telecomunicações e infraestrutura. Trump cogita medidas como tarifas sobre produtos que utilizem infraestruturas financiadas pela China, como o porto de Chancay, no Peru, construído com capital chinês. Além disso, sua equipe considera reforçar restrições ao uso de tecnologias chinesas, como 5G, e ao controle de ativos estratégicos, buscando preservar a influência dos EUA na região.
Em termos políticos, Trump deverá encontrar maior alinhamento com líderes de direita da região, como Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. Esse alinhamento pode fortalecer laços bilaterais e garantir maior apoio às políticas norte-americanas. No entanto, países liderados por governos progressistas, como o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, poderão enfrentar um cenário mais desafiador, especialmente se optarem por manter ou aprofundar suas relações com a China e blocos independentes como o BRICS. Essa divisão ideológica pode intensificar a polarização na América Latina, com alguns países se aproximando de Washington e outros buscando alternativas para preservar sua autonomia.
As políticas econômicas protecionistas de Trump também prometem gerar impactos significativos na região. A revisão do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) prevista para 2026 pode levar a mudanças desfavoráveis ao México e ao Canadá, enquanto tarifas adicionais sobre produtos manufaturados na América Latina são avaliadas como forma de proteger a indústria norte-americana. Por outro lado, Trump pode incentivar investimentos estratégicos na região por meio do “nearshoring”, promovendo a relocação de cadeias de produção para países vizinhos e reduzindo a dependência dos EUA em relação à Ásia. Essa estratégia oferece uma oportunidade para economias latino-americanas, mas dependerá do alinhamento político dos governos locais com Washington.
As implicações sociais dessas políticas são profundas. Medidas mais rígidas de deportação podem impactar severamente as comunidades migrantes nos EUA e as economias de seus países de origem, que frequentemente dependem de remessas enviadas por essas populações. No campo ambiental, a postura cética de Trump em relação às mudanças climáticas pode levar ao desmantelamento de projetos financiados pelos EUA na região, prejudicando esforços de preservação ambiental em países como Brasil e Colômbia.
No cenário geopolítico, a América Latina se tornará palco de uma disputa cada vez mais acirrada entre EUA e China. Enquanto Washington intensifica a pressão para conter a influência chinesa, países como Brasil, Argentina e México terão de adotar estratégias pragmáticas para equilibrar as relações com as duas potências. A reconfiguração de alianças e a possibilidade de fortalecimento de blocos regionais, como o Mercosul e a Aliança do Pacífico, podem emergir como respostas às novas pressões externas.
A relação EUA-América Latina no segundo mandato de Trump apresenta três possíveis cenários. No primeiro, países como Argentina e El Salvador se alinham aos interesses norte-americanos, buscando vantagens econômicas e maior integração. No segundo, nações progressistas resistem às pressões, aprofundando suas relações com a China e outros blocos independentes. No terceiro, países tentam adotar uma postura pragmática, equilibrando as relações com ambas as potências para maximizar os benefícios econômicos e políticos.
Assim, o segundo governo Trump promete transformar profundamente as relações entre os EUA e a América Latina, com foco em segurança, controle migratório e contenção da influência chinesa. Para os países da região, o sucesso dependerá de sua capacidade de navegar habilmente entre as pressões externas, mantendo sua soberania e promovendo o crescimento econômico e social. A América Latina, mais uma vez, se encontra no centro de uma disputa de poder que definirá seu papel no cenário global nas próximas décadas.
*Zilan Costa e Silva é advogado e professor
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