O Declínio da Globalização e o Fim da Ordem Liberal de Comércio Internacional: Uma Perspectiva Geopolítica
Nos últimos 75 anos, a globalização, impulsionada por instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC), fomentou a integração econômica e política entre as nações, promovendo prosperidade e estabilidade. No entanto, essa era de interdependência global está em risco. Tanto Kristen Hopewell, no seu artigo “The World Is Abandoning the WTO,” quanto Peter Zeihan, analista geopolítico e autor conhecido por prever o fim da globalização, destacam sinais claros de um colapso iminente da ordem liberal de comércio.
A OMC, outrora a guardiã das regras que governam o comércio global, está perdendo relevância. As falhas nas negociações multilaterais, como as da Rodada de Doha e os bloqueios em áreas críticas como subsídios à pesca e investimento estrangeiro, revelam um sistema fragmentado e disfuncional. Segundo Hopewell, a paralisia do mecanismo de solução de disputas da OMC, causada principalmente pelos Estados Unidos, está incentivando um ambiente de desrespeito generalizado às normas de comércio, enfraquecendo a estrutura que mantinha as relações comerciais ordenadas.
A Geopolítica do Colapso: Estados Unidos e China na Vanguarda
Nos últimos anos, a geopolítica se tornou uma força motriz no declínio da globalização. A rivalidade entre os Estados Unidos e a China, duas das maiores potências econômicas, levou ao uso de tarifas, subsídios e sanções que minam diretamente as regras estabelecidas pela OMC. Peter Zeihan argumenta que o sistema global baseado em cadeias de suprimentos internacionais e fluxos comerciais interdependentes está perdendo terreno, à medida que os países procuram formas de garantir sua própria segurança econômica, em detrimento da cooperação multilateral.
Os Estados Unidos, antes defensores do livre comércio, têm adotado políticas protecionistas agressivas. Desde a administração de Donald Trump, o país impôs tarifas sobre uma série de produtos chineses e ignorou as decisões da OMC ao paralisar o Appellate Body, uma manobra que permite a Washington evitar a responsabilização por suas violações das regras de comércio. O governo de Joe Biden, embora mais voltado para o multilateralismo em outros campos, manteve as práticas protecionistas, reforçando uma tendência de desglobalização.
A China, por sua vez, continua a subsidiar fortemente setores estratégicos e a utilizar o comércio como ferramenta de coerção econômica. Sua estratégia de criar dependência de produtos essenciais, como minerais raros e produtos manufaturados, representa um desafio direto à ordem estabelecida. O bloqueio de reformas na OMC, combinado com a resistência a negociações multilaterais, demonstra que Pequim está mais focada em proteger seus próprios interesses do que em apoiar a continuidade do sistema de comércio global.
Fragmentação Global: O Impacto sobre as Economias Emergentes
O fim da globalização afeta diretamente as economias emergentes, que foram beneficiárias dos fluxos de comércio internacional e dos investimentos estrangeiros promovidos pelo sistema multilateral. O bloqueio de acordos no âmbito da OMC, como o recente fracasso nas negociações sobre subsídios à pesca, exemplifica a divisão crescente entre países em desenvolvimento. Nações como Índia, Indonésia e África do Sul estão impedindo consensos globais em nome de suas próprias agendas, resultando em um sistema de comércio internacional cada vez mais fragmentado.
A falta de um mecanismo de arbitragem funcional dentro da OMC está levando muitos países a optarem por acordos comerciais bilaterais ou regionais, enfraquecendo ainda mais o sistema multilateral. Os exemplos citados por Hopewell, como o caso da Indonésia, que ignorou a decisão da OMC sobre restrições à exportação de níquel, mostram que as economias emergentes estão dispostas a desafiar as normas estabelecidas quando isso atende a seus interesses geopolíticos.
O Futuro da Ordem Internacional: Um Mundo de Fragmentação e Conflito?
Zeihan argumenta que o fim da globalização levará a um mundo mais regionalizado, onde blocos de poder econômico e militar competirão por influência e recursos. As tensões entre Estados Unidos e China, bem como entre outras grandes economias, já estão desencadeando uma nova era de protecionismo e competição econômica, com consequências globais. O resultado, segundo Zeihan, será um retrocesso em relação à ordem liberal, com economias mais fechadas e políticas comerciais mais nacionalistas.
O risco de um colapso completo da ordem liberal de comércio, como alertado por Hopewell, está relacionado à crescente desordem nas relações comerciais. Com a queda da OMC e o aumento das disputas comerciais não resolvidas, o mundo pode ver um retorno a práticas mercantilistas que precederam a Segunda Guerra Mundial, caracterizadas por políticas econômicas protecionistas e uma queda significativa no comércio global.
Um Sistema em Colapso
O declínio da globalização e o colapso da OMC representam um dos maiores desafios para a estabilidade econômica global. À medida que Estados Unidos e China lideram o desmantelamento das normas de comércio, outros países seguem o exemplo, priorizando interesses nacionais sobre a cooperação multilateral. A incapacidade de resolver disputas e alcançar novos consensos globais marca um ponto de virada na economia mundial, que pode levar a uma fragmentação ainda maior e a conflitos comerciais intensificados.
Se o mundo não encontrar uma maneira de restaurar o respeito às regras do comércio internacional, a perspectiva de uma nova era de desordem econômica e conflitos geopolíticos será inevitável. Assim, os apelos por reforma e revitalização da OMC, como Hopewell sugere, são mais urgentes do que nunca, mas exigem uma mudança fundamental nas atitudes das principais potências econômicas.
*Zilan Costa e Silva é advogado e professor
* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
