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Artigo

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Caruru de São Cosme e Damião: O banquete afro-brasileiro que alimenta a comunidade e considera a infância sagrada

Por Tobias Muniz

Foto: Acervo pessoal

Tradicional e popular em toda a Bahia, o caruru em devoção aos “santos gêmeos” oferecido essencialmente nos meses de setembro e outubro é um rito familiar de agradecimento, seja a São Cosme e São Damião, ou aos Ibeji — orixás gêmeos associados a saúde, sucesso nos negócios, boa gestação, prosperidade e vida longa. 

 

Ibeji vem do iorubá “bí” (nascer/nascido) e “eji” (dois), palavra que remete aos nascidos em dois, a dualidade, aos gêmeos. Para os povos iorubá o nascimento de uma, duas, ou mais crianças é um acontecimento muito importante, que marca a inclusão de um novo membro à família carnal e espiritual, sendo celebrados em comunhão, pois são considerados figuras especiais pela sua comunidade, já que a infância é percebida pelos iorubás como uma fase fundamental, sagrada.

 

É partilhado nas comunidades um verdadeiro banquete, onde se encontra a maioria das comidas rituais entre elas: grãos, raízes, ensopados e molhos cozidos no azeite de dendê, uma mesa composta com pratos de vários orixás. Comidas que foram criadas e reinventadas por mulheres e homens africanos no ocidente para agradar os “santinhos”, seguindo os preceitos da sua espiritualidade com os elementos que foram encontrados no novo território. 

 

O rito do caruru, de ofertar comidas para as divindades crianças que são gêmeas partem do princípio em que se é ofertado para ser agraciado com o dobro do que foi entregue, para ser abençoado com a fartura e prosperidade. É uma devoção enraizada em diversas regiões do país, tradição trazida pelos africanos no período da diáspora, e não pelos europeus através da cultura cristã como alguns ainda insistem em defender. Visto que São Cosme e São Damião, os santos médicos, não são crianças e faleceram em idade adulta, ao contrário dos orixás Ibeji. As imagens dos santos gêmeos católicos, de fisionomia adulta e tamanho maior, foram diminuindo com o passar dos anos, reforçando ainda mais o imaginário afro-brasileiro com a ideia de que eram crianças, e posteriormente sendo associados aos Ibeji. O que evidencia que o culto dos ancestrais africanos influenciaram na visualização e manifestação das variadas devoções aos santos católicos, inclusive diversos tipos e dinâmicas dos carurus. 

 

As crianças são os elementos fundamentais dessa comemoração, já que a festa é inteiramente pensada para elas, são as figuras que são as primeiras a comer e a se deliciarem com os saborosos doces e sobremesas, onde essas devem sair satisfeitas, agradadas e atendidas no que solicitarem. Em algumas comunidades elas ganham brinquedos e outros presentes. O caruru é resultado do pagamento da promessa pela benção que foi alcançada, onde o agradecimento é feito em comunhão e marca a renovação da promessa. Os terreiros de candomblé são os grupos sociais quede forma significativa realizam a manutenção dessa tradição secular na Bahia e no Brasil com o seu modo tradicional de fazer, e por isso essa tradição ainda é alvo de ódio e ataques de intolerantes.

 

Me pergunto qual bala os intolerantes deviam estar mais preocupados, com as de São Cosme e Damião? Ou com as que matam crianças constantemente nas periferias desse país? Em um país onde ainda enfrentamos um cenário em que crianças estão vivenciando situações de vulnerabilidade social, como violência, insegurança alimentar e morte, sobretudo as crianças negras, pobres e periféricas se faz mais que necessário proteger, valorizar e incentivar tradições como o Caruru de São Cosme e São Damião/Ibeji, onde nesses espaços se é partilhado o alimento, cuidado e o real sentido de família e afeto para estas crianças, tradição nobre que a Bahia tem o carinho de chamar de sua. Viva São Cosme e Damião, viva Ibeji! 

 

*Tobias Muniz é Graduando em Produção de Comunicação e Cultura pela UFBA, Pesquisador Bolsista do PIBIC e membro do Grupo de Pesquisa Etnicidades da FAUFBA

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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