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Artigo

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O BRASIL, A CRISE E OS JUROS

Quando se trata de economia o Brasil sempre anda atrasado. No auge da exuberância econômica, quando paises como a China e a Índia cresciam as taxas superiores a 10% ao ano, o PIB brasileiro crescia em torno de 2% ao ano, com todo mundo esperando o famigerado espetáculo do crescimento.  Quando o espetáculo do crescimento chegou, após crescer satisfatoriamente em 2007 e 2008, o Brasil foi atropelado pela crise financeira mundial e o crescimento foi abortado. Como em economia o Brasil sempre anda atrasado, suas lideranças políticas, encabeçadas pelo Presidente Lula, não quiseram admitir que a crise afetaria o país e engabelaram a população com a idéia de que tudo não passava de uma marolinha. Esse foi um erro sério, pois se admitisse a crise de imediato, o Banco Central já poderia estar agindo, desde o final de 2008, reduzindo os juros como fizeram os demais países do mundo.


O mais grave, porém, é que, apesar de já ter consciência do tsunami que atingiu a economia brasileira, o governo continua lento no relacionado à política monetária, instrumento fundamental no combate a desaceleração econômica. A crise afetou o Brasil de várias formas, especialmente na redução do comércio externo e dos investimentos, mas foi a escassez de crédito, que ainda persiste, que paralisou a economia.  Isso não foi uma característica brasileira, mas atingiu o mundo inteiro e os Bancos Centrais da quase totalidade dos países reduziram drasticamente os juros, de modo a evitar uma contração maior no consumo e nos investimentos. Mas, fazendo jus a ortodoxia e a lentidão que caracteriza a política econômica brasileira, enquanto a maioria dos paises reduzia juros, alguns zerando a taxa, o Brasil manteve sua taxa em patamares estratosféricos, o que deixou a economia em estado de choque, com a escassez generalizada no crédito. Mesmo quando abriram mais os olhos, as autoridades monetárias persistiram no erro e, utilizando outros mecanismos, a exemplo da correta redução do depósito compulsório, supuseram, equivocadamente, que seria possível abrir novamente a torneira do crédito, sem baixar os juros. Erraram redondamente e o resultado dramático apareceu no último trimestre de 2008: a queda na economia brasileira foi a maior entre os países emergentes.


O erro do Banco Central ajudou a reduzir o crescimento do PIB, que despencou 3,6% no último trimestre de 2008, a maior queda desde 1996, e resultou em quase 1 milhão de trabalhadores desempregados.  O mais grave, no entanto, é que o Banco Central, embora reconhecendo a necessidade de acelerar a queda nos juros, errou novamente ao reduziu a taxa Selic em apenas 1,5%, na última reunião do Comitê de Política Monetária, quando poderia ter reduzido 3%, sem afetar a inflação, que está controlada pela queda de demanda.  Hoje a taxa de juros brasileira está 11,25%, a maior taxa do mundo, enquanto nos Estado Unidos, os juros estão em quase zero por cento.  
A demora das autoridades brasileiras em reduzir drasticamente os juros internos vai obrigar o governo a ser mais rigoroso na política fiscal, para evitar um desequilíbrio orçamentário por conta da redução na arrecadação, e, o mais grave, vai implicar num crescimento reduzido do PIB, que ficará entre 0% e 1% em 2009, e atrasar uma possível recuperação da economia. Se continuar reduzindo os juros na base do conta-gotas, ao final do ano ainda estarão em patamares escorchantes e, se houver, como se espera, uma retomada econômica, já não será possível reduzi-los.  Mais uma vez, o governo estará sendo bonzinho com os bancos e perverso com o país. Definitivamente, em termos de economia o governo brasileiro caminha a passos de cágado e, quando se trata de queda nos juros, seu Banco Central é mais lento do que o Rubinho Barrichello.


Armando Avena é escritor e economista. Professor da UFBA é Membro da Academia de Letras da Bahia. Foi Secretário de Planejamento do Estado da Bahia e Presidente da CPE.

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