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Artigo

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Um moleque escravo como presente de Natal

Por Nelson Cadena

Foto: Acervo pessoal

Algumas décadas antes da ressignificação dos presentes de Natal pelos americanos, impulsionada pela revista Harper’s, em meados do século XIX, não se dava presentes às crianças. Existia uma troca de presentes, ou amabilidades, digamos assim, entre adultos, parentes e vizinhos e entre os ricos, acredite, criança-adolescente era o presente. Um mimo ofertado durante o ciclo natalino que ia do dia 24 de dezembro até a noite de Reis, em 05/06 de janeiro. No geral a oferta ocorria no Ano Novo que naqueles idos era chamado de Ano Bom.

 

O cronista Alexandre José de Mello Moraes Filho, tio avô de Vinicius de Moraes, autor do clássico “Festas e Tradições Populares do Brasil”, contou: “Após a meia noite as famílias baianas reuniam-se em torno de uma mesa farta com vinho da melhor qualidade, queijos do reino, presuntos, figos, ameixas e doces e o prato principal que as vezes era oferta de um vizinho, ou, parente”.

 

O prato principal bem podia ser um leitão, ou um marreco, e como era presente o dono da casa recebia a oferta com um lacinho de fita amarrado nas asas, no caso das aves, e um cartão de visitas com dizeres do tipo “Boas saídas e melhores entradas lhe desejo”.

 

Os ricos se presenteavam entre si com colchas da Índia, aparelhos de jantar da China, baixelas de prata, cavalos de montaria, e alguns presenteavam os amigos com escravos adolescentes. O cronista detalha o inusitado regalo: “além de todas essas ofertas, estava nos hábitos darem-se escravos como presente. Assim como um molequinho, uma moleca, um casal de negros novos, obsequiava-se os meninos, as moças, ou os chefes de família”. Os escravos ofertados faziam-se acompanhar de um portador com um bilhete do tipo “Como lembrança do Ano Bom ofereço-lhe essa parelha de negros de cadeira, pedindo desculpa de não ser coisa suficiente”.

 

Os menos abastados também se presenteavam no Ano Bom do ciclo natalino, é claro, dentro de suas modestas possibilidades: “A criola, ou, mulata, da casa menos rica, seguia com um pão-de-ló, um bolo inglês, um pastelão numa salva modesta, coberta com uma gaze cor- de- rosa, com um tope de flores artificiais no centro, atravessado por um cartão, ou um escrito”.

 

O fim da escravidão determinou novos padrões comportamentais e uma nova estratificação social e, a essas alturas, já se referenciava a festa de Natal como uma oportunidade de dar presentes às crianças. Cavalinhos, soldadinhos de chumbo e bonecas de madeira, eram os presentes mais comuns. As crianças pobres passaram a ser presenteadas no primeiro vintenio do século XX, em eventos no Kursal baiano que um dia se tornou Teatro Guarany e na Praça Castro Alves onde se instalava uma árvore, e ainda nas redações dos jornais. 

 

Os jornais faturavam com isso, através de ações de cuponagem. Cinco cupões valiam um presente. E como as crianças, analfabetas, não liam jornais, como ficavam sabendo da caridosa, vulgo arrependida, intenção de favorecê-las?  Não tenho a menor ideia. Suponho que eram selecionadas entre os filhos da criadagem de jornalistas, autoridades, pessoas de representatividade social, ou entre parentes empobrecidos desses atores sociais. Cala-te boca!

 

*Nelson Cadena é escritor e jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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