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Artigo

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O mistério do Carro do Caboclo. Freud explica?

Por Nelson Cadena

Até hoje ninguém decifrou o enigma do Caboclo, o carro alegórico da festa do Dois de Julho. Não vou aqui me referir ao carro da Cabocla já que a sua inclusão no desfile, sabemos, foi uma tentativa do Presidente da Província, Francisco José D’ Andrea, de substituir o do Caboclo, em 1846, frustrada pela resistência dos baianos. Emplacou a cabocla, mas não conseguiu substituir o caboclo que considerava ofensivo aos portugueses. 

 

Qual o significado do Carro do Caboclo? Ninguém sabe. Os historiadores, por falta de elementos factuais e documentos, e a imprensa no encalço, criaram o que hoje chamamos de narrativa, uma interpretação ao gosto pessoal. Prevaleceu a narrativa de que foi uma homenagem aos baianos que lutaram na guerra, o povo (negros, índios, mestiços) que pegou em armas, auxiliando ao exército pacificador.

 

Bela narrativa e romântica. Também gosto de romantismo e em se tratando de celebrar feitos heroicos, se encaixa como uma luva. Mas, me dou ao direito também de criar a minha versão, que destoa da já cristalizada pela mídia e a literatura, ainda que convencido de que a minha narrativa, assim como a consolidada, seja apenas uma suposição. Menos romântica, talvez.

 

Se existe uma forma de a gente descobrir a intenção do Carro do Caboclo, passa por duas perguntas básicas: Quem encomendou e pagou a escultura do Caboclo? E, quem autorizou a sua inclusão no desfile oficial? O dia que tivermos essas respostas teremos decifrado o enigma. Sequer sabemos quem foi de fato o artista. Manoel Inácio da Costa, em 1826, ou Bento Sabino, dos Reis, em 1828? Segundo Alvarez do Amaral e Manoel Querino, as fontes. O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia-IGHB encampou a autoria de Costa e, na década de 1910, colocou uma placa no pavilhão onde era guardado o carro.

 

Quem autorizou?

Nenhum dos dois autores informa quando o Caboclo foi incorporado ao desfile. Pode ter sido em 1827, ou 1929, ou 1830? O Diário da Bahia, da época, não faz qualquer menção a esse carro. Em todo caso, se incorporado foi nas datas supostas, teve a autorização do Presidente da Província, já que até aquele momento o desfile era exclusivamente de militares, o povo não participava, a não ser como espetador. A sociedade civil só ganha protagonismo quando é criada a Sociedade Dois de Julho, em 1835, doravante responsável pela organização do desfile.

 

Quem autorizou a sua inclusão, no desfile? No período 1826 a 1830 tivemos cinco Presidentes da Província: João Severiano Maciel da Costa; Manoel Inácio da Cunha e Menezes (três vezes); o Bispo Eugênio de Lóssio e Seilbitz; José Egídio de Barbuda (duas vezes) e João Gonçalves Cezimbra. Um deles autorizou, se as datas registradas por Querino e Alvarez do Amaral estiverem certas.

 

Dito isto, faço aqui um questionamento, uma provocação, que sustenta a minha narrativa. Acredito que tenha tido algo a ver com aquilo de “espelho meu, espelho meu, tem algum caboclo mais belo do que eu”. Explico. Quem eram os caboclos, reconhecidos naqueles idos? A elite de funcionários públicos, advogados, sacerdotes, militantes na Guerra que mudaram seus nomes de batismo, a partir de 1821, para nomes referenciados aos nativos da Bahia, os indígenas. Caboclos que naquele momento da encomenda do carro alegórico, estavam no comando. Estavam no poder.

 

É possível, a conferir, na encomenda, uma intenção política de “valorizar” a participação do povo, na Guerra da Independência, supostamente representado pelo Caboclo, até para contornar o desapontamento dos excluídos após o 2 de julho, inconformados e revoltados com o mais do mesmo do novo governo. Porém, não descartemos que inconscientemente, ou de plena consciência, o Caboclo homenageava também as autoridades, os novos chefes de poder. Homenageavam-se eles mesmos.  Freud explica?

 

*Nelson Cadena é escritor e jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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