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Artigo

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1º de dezembro: hiv/aids e equidade já

Por Ceuci Nunes

Foto: Divulgação

O Dia Nacional de Luta Contra a AIDS foi estabelecido em 1988 e teve como objetivo chamar a atenção para o avanço da doença, suas formas de prevenção e combater todos os preconceitos, estigmas e desinformações associados a esta pandemia, iniciada na década de 80, responsável por mais de 40 milhões de mortes em todo o mundo.

 

A luta contra a aids é recheada de ações, com participações importantíssimas da sociedade civil, inclusive na construção de inúmeros programas, como o brasileiro, que tem na sua história iniciativas exitosas, responsáveis pela construção de uma política pública bem-sucedida e reconhecida nacional e internacionalmente.

 

Nestes 34 anos, inegavelmente, presenciamos vários avanços na prevenção e no tratamento, entretanto, a desigualdade e o preconceito continuam intensamente presentes, fato que motivou o Programa das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) a lançar a sua campanha 2022 com o seguinte tema: Equidade Já!

 

Equidade é um termo que traz no seu bojo a importância de darmos a cada sujeito, um tratamento diferenciado, levando em consideração a necessidade de cada um. Representa um entendimento diferente da expressão igualdade, pois tratar realidades diferentes com igualdade significa manter as desigualdades e as mesmas distâncias sociais.  Uma das melhores definições sobre equidade foi elaborada pelo brilhante jurista baiano Rui Barbosa: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.

 

Atualmente no Brasil, a pandemia de HIV/AIDAS atinge principalmente os grupos mais vulneráveis socialmente e as ações do poder público precisam ser efetivas, para poder chegar a estas pessoas e contemplar suas diferentes necessidades. É triste constatar que apenas 1/3 das pessoas que vivem com HIV/AIDS, nos grupos mais vulneráveis (homens que fazem sexo com homens, transexuais, travestis, profissionais do sexo, pessoas que fazem uso de drogas e pessoas privadas de liberdade), conseguem ter acesso ao tratamento, que no Brasil é totalmente disponibilizado pelo SUS.

 

Precisamos nos despir do manto da hipocrisia para aceitar e respeitar as diferentes formas viver e amar. Isto é uma questão absolutamente pessoal e não pode chegar ao ponto de interferir com a saúde destas pessoas.

 

Especificamente no caso do hiv/aids, precisamos melhorar os serviços que acolhem e cuidam dessas pessoas, com adequada composição dos profissionais que atuam nos SAEs (Serviços Ambulatoriais Especializados), sendo uma dificuldade que tem afetado muito os serviços, especialmente a falta de médicos infectologistas e clínicos.  É necessidade premente aumentar a oferta destes serviços na Bahia, em especial na cidade de Salvador.

 

Destaco que precisamos acolher melhor as pessoas vulneráveis, com implantação de ações que promovam a empatia e humanizem os serviços existentes. Neste campo também precisaremos de uma significativa ampliação dos serviços que chegam a esta significativa parcela da população, cito aqui como exemplo os consultórios de rua, que além do aumento do número de unidades, precisam também de uma vinculação formal com a rede de saúde municipal e estadual.

 

Não posso me furtar de comentar a gravidade que é deixar faltar recursos para a compra dos medicamentos que tratam as pessoas que vivem com hiv/aids. Isto representa o risco de descompensação dos pacientes, do desenvolvimento da doença e afeta a saúde mental destas pessoas. Felizmente o Ministério da Saúde vai voltar a se comportar de forma responsável e na defesa da vida de todos os brasileiros.  

 

Reputo ser imprescindível também o retorno dos investimentos das ações publicitárias relacionadas com a prevenção primária do HIV/AIDS. A criatividade já foi um marco das campanhas no Brasil, que alertavam sobre os riscos e as formas da transmissão do hiv, os métodos de prevenção e o incentivo para a população realizar o teste rápido. O Ministério da Saúde, que já fez campanhas excelentes, precisa voltar a utilizar esta ferramenta de conscientização da população.

 

Definitivamente, pensar em equidade, com todos os desafios expostos, não é para os fracos. Realizar a equidade no Brasil é um convite à luta, é ter garra para superar obstáculos, é não desistir nunca, é ter fé, esperança e amor ao próximo. Essa enorme energia que nos move para o sentido do bem, também nos faz sonhar que um dia presenciaremos o fim da pandemia de AIDS no Brasil e no mundo.

 

*Ceuci Nunes é médica infectologista, doutora e mestre em Medicina Interna pela UFBA e especialista pela Universidade de São Paulo e da Califórnia - EUA.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias. 

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