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Artigo

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UM NATAL ESSENCIAL


Victoriano Garrido Filho

Quando eu era criança, vi uma charge na revista Manchete que nunca me saiu da cabeça. Nela havia um primeiro quadro que representava o dia de natal, onde víamos uma idílica visão, crianças brincando alegres, carros parando na faixa esperando a passagem de velhinhas e uma dona de casa dando comida a um mendigo. No quadro que se seguia, outra cena representava o dia seguinte, com meninos brigando, carros atropelando velhinhas e mendigos passando fome.  Então, eu ali menino, tive minha primeira informação de que nem todo natal tem o espírito de natal.

Temos o natal mercantilista das compras. Não é por acaso que a roupa de Papai Noel vermelha e branca foi inspirada numa campanha publicitaria da coca cola. Querem maior símbolo do capitalismo que a coca?  É no natal onde nos endividamos para cumprirmos o que a propaganda nos impõe. É um bombardeio de ofertas “imperdíveis”! A coisa só não é pior porque o brasileiro, genial como sempre, difundiu a instituição do amigo secreto e o natal das lembrancinhas. Grande sacada!

Temos também o natal da comilança, onde a classe média e alta vai ao paraíso, invadindo com volúpia delicatessens de luxo, verdadeiros templos da nossa burguesia,  em busca de guloseimas e bebidas para a ceia. Época que se perdoa comer e beber muito, que chutamos sem culpa o chato regime e que ainda nos propicia praticarmos “responsabilidade social”, dando a comida que sobrou para o porteiro.

Também não podemos esquecer do natal da hipocrisia, quando aplacamos a nossa consciência, visitando os pais e dando presente caro aos filhos, além de fingirmos que fazemos as pazes com quem não nos damos bem, nem que seja para brigarmos de novo no dia 26.

Mas o natal é muito mais que isso. Muito mais do que presente, comida e convenções! A sua essência é muito mais que este natal do supérfluo, que nos diverte e nos distrai.

O natal é uma rica oportunidade de, assim como Cristo, renascermos para fazer diferente, sentir e viver o propósito cristão que está dentro de nós. Época de expandir nosso estado de consciência e nossa responsabilidade com o planeta e com as pessoas.

Época de se comprometer com toda gente, de se celebrar, de ser mais inteiro e presente e menos dividido e virtual. De praticar o contentamento e o recolhimento, em vez da euforia e da superficialidade das relações. De se praticar a humanidade compartilhada! De se ter enfim um natal essencial!
Um Feliz Natal para você, Buon Natale, Merry Christmas, Feliz Navidad, Joyeux Noel, Frohliche Weihnachten. Afinal, parafraseando São Paulo, mesmo que eu desejasse um feliz natal nas diversas línguas dos homens, sem amor este natal de nada valeria.


Victoriano Garrido Filho é administrador com especialização em Human Resources pela State University of New York (EUA) e preside a Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing da Bahia (ADVB).

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