A rosa de Hiroshima e o preço da carne
Precisamos falar mais uma vez de um abatedouro, esse grande abatedouro chamado Brasil. Lembram-se (como esquecer?) de Durval Teófilo Filho e de Möise Kabagambe. Seus assassinatos nos mostram quanto o racismo é irracional.
Um dia na Cidade do Rio de Janeiro (maravilhosa para uns), uma família se destinava a uma inocente atividade, no interior do seu carro, eis que então o seu motorista, o Músico Evaldo Rosa (negro naturalmente) foi atingido por mais de 80! tiros de fuzis, disparados por soldados do exército. Justificativa: a suspeita de que era um ladrão. Aí o racismo é o estatal.
Ninguém pode ser condenado só porque suspeitou de outrem que se aproximava em uma rua deserta. É impossível que os ânimos não se exaltem em uma discussão sobre salários retidos. Mas nada justifica que o indivíduo, tomado de medo, simplesmente atire, e, não satisfeito, saia do seu carro e profira mais 5 tiros, apenas para não deixar dúvidas quanto a eficácia do seu serviço macabro. Não é desejável que os ânimos se exaltem em uma discussão a ponto de irem as vias de fato, mas nada justifica a imobilização de uma pessoa por vários contendores, principalmente em algo que remonta a um tronco, para então lhe martirizar. Não bastou matar, o recado tinha que ser ainda mais cruel!
Recordei-me de Clarice Lispector. Em uma de suas últimas entrevistas, declarou que a sua obra predileta é o Conto “a Galinha e o Ovo”, a qual traz a estória de um bandido assassinado pela Polícia. A propósito da quantidade dos tiros (3), disse ela, mais ou menos assim “Que bastava um, os outros dois eram a vontade de matar e a prepotência”. É isto, amigos, para muitos, não basta neutralizar um risco (o que pode ser feito de várias formas civilizadas), não! É preciso eliminar o próximo, dar vazão ao desejo de matar! E fazê-lo com requintes de truculência! Arnaldo Jabor, que há pouco dias fez a viagem, certa feita escreveu um belo artigo (nenhuma surpresa): O Brasil Está com ódio de si mesmo.
Ora, se não é isto, então, cara pálida, o que explica uma loja em pleno Aeroporto Internacional de Salvador (seu nome é Dois de Julho), exibir uma cerâmica representando negros acorrentados? Ou então um médico em Goiás postar em suas redes sociais um filme em que aparecem ele, branco, e um homem preto acorrentado e, como se as imagens não falassem por si só, um monólogo completa a obra: não quis estudar, fica na minha senzala! Como soe acontecer, vieram umas” sinceras” desculpas, pois não houve a intenção de ofender a quem quer que seja.
Há quantas não sei da Velhinha de Taubaté, mas acaso ainda esteja viva e com saúde, gostaria de saber o que achou das abordagens de casais brancos no estacionamento de um shopping no Rio de Janeiro a um jovem negro que estava destrancando sua bicicleta, ou daquele outro no estacionamento do seu condomínio, aqui em Salvador, quando abria o seu próprio carro? E o que comprou uma mochila na Zara? Diria ela que tudo não passou de mal-entendidos.
Retorno então as forças do Estado. O Centro de Estudos de Segurança e de Cidadania divulgou no dia 15.02.2022, um estudo intitulado “Elemento Suspeito”. Das pessoas que disseram já ter sido abordadas pela Polícia no Rio de Janeiro, 63% eram de negros e 39% brancos.
Elza Soares cantou que a carne mais barata do mercado é a negra. Cantemos com ela. Mas, como disse Vinicius, só não esqueçam da rosa. Não é da bomba atômica que falo, mas de uma rosa, tal como a de Hiroshima, estupida e inválida! E pior: também hereditária!
*Mario Lima é advogado e procurador do estado da Bahia
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