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Artigo

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Yo soy baiano

Por Guillermo Piernes

Foto: Acervo pessoal

Sim, Yo soy mais baiano que a maioria dos brasileiros e até alguns baianos natos porem cooptados. Yo soy o mais baiano dos portenhos, mais que os muitos argentinos e de outras partes do mundo que amam Bahia. Fui, sou e serei agradecido a "boa terra".

 

Eu nasci, alem da reconhecida e apreciada labor dos meus amados pais, em grande parte pelos esforços de um baiano. A narrativa será cronológica.

 

Na madrugada de um escorpiano dia quando a Humanidade ainda celebrava a paz com o fim da II Guerra Mundial a senhora Delia Piernes foi levada as pressas ao Hospital Alvear, no bairro de la Paternal. Era para ter seu primeiro filho.

 

Nesse hospital trabalham muitos médicos europeus, que tinham saído antes ou ao fim da II Guerra Mundial.

Argentina então era a quinta economia do mundo, o país em melhor condição  econômica, educacional e social da América Latina e a sua capital era um centro cientifico dos mais respeitados do mundo. Em Buenos Aires estudavam milhares de jovens latino-americanos.

 

Muitos eram estudantes de medicina e alguns já estavam formados. Vários deles estavam nesse Hospital Alvear, entre eles um recém formado nascido no interior da Bahia.

 

O parto da jovem e linda senhora Delia estava realmente complicado. O bebê estava virado de e bastante enrolado no cordão umbilical. Passava a hora da senhora Delia dar a luz.

 

Frente à cama da paciente foi formado as pressas um trio de médicos para decidir, sim na mesma sala e nesse momento, a intervenção mais adequada. Três recém-formados acompanhavam tudo sobre esse um parto tão difícil.

 

Nesse ano de 1945 não existia o scanner, resonância magnética e ninguém sabia antecipadamente o sexo de quem estava na barriga. O experiente medico alemão que chefiava o grupo, após ouvir a todos, sentenciou: "...devido a que o tempo já esgotou vamos proceder para salvar a vida da mãe..."

 

Quem estava no interior da barriga, deve ter pensado "Alea Jacta Est" -- do latim erudito -- ou "estou fodido" -- expressão vulgar e chula -. Isso é pura e completa especulação. O fato é que a senhora Delia começou a chorar ao saber que seu aguardado primogênito tinha poucas ou nenhuma chance.

 

Ai apareceu um baianinho moreno e irreverente, Perante os mestres disse: "...eu sempre ajudei meu pai com manobras com animais em trabalho de parto...Posso tentar uma manobra..." O alemão respondeu: "você tem cinco minutos...depois disso vamos salvar a vida da mãe".

 

O baianinho moreno subiu na barriga, forçou aqui e lá, apertou, esticou, bateu, acariciou, beliscou, girou, manobrou... até o bebê sair para a vida.

 

Eu nasci! Saravá!

 

Houve o risco que o acidentado nascimento afetasse o meu cérebro por uma possível falta de oxigênio durante o processo. Não foi detectado qualquer dano. Alguns da oposição, maldosamente, comentam que sou doido de nascimento. Pura intriga! Chega! Prometi fazer um relato cronológico para explicar porque Yo soy baiano.

 

Minha mãe relatou para mim centenas de vezes o episodio acidentado e histórico do meu nascimento. Claro que  histórico, pelo menos para mim. Tanto é histórico que eu celebro a data de 6 de novembro com os meus seres queridos, alegria, bolos, velinhas e algum que outro espumante.

 

A minha relação com a Bahia foi intensa desde a adolescência quando fiquei fascinado pelos livros de Jorge Amado que me faziam voar com histórias baianas, impregnadas de misticismo, humor, sensualidade, cores e música.

 

Quando ingressei na agencia Reuters meu primeiro destino como correspondente internacional da maior empresa de comunicação do mundo, foi Rio de Janeiro. Um das minhas primeiras missões em território brasileiro foi viajar em 1971 a Salvador, para escrever sobre sincretismo religioso, origem da tanta riqueza músical, culinária e danças herdadas da África.

 

Como explicar para leitores fora do Brasil que a capital baiana tem uma igreja católica para cada dia do ano com um gigantesco número de descendentes de africanos que mantêm fidelidade a religiões dos antepassados. Acabei redigindo uma serie de vibrantes e coloridas reportagens sobre a religiosa, sensual, musical Salvador. Temas aparentemente sem nexo porem tudo parte de algo que dificilmente ás palavras definem. 

 

Não sei explicar porem os editores gostaram muito. Agradeci a Iemanjá ao mergulhar no mar morno. Em Roma como os romanos e na Bahia como os baianos. Tempos depois mergulhei em outros mares e também Iemanjá foi reverenciada nesses momentos.

 

Em 1980, já como correspondente da United Press Internacional (UPI), integrei a equipe para cobrir jornalisticamente a visita ao Brasil do Papa João Paulo II.

 

Quando João Paulo II dirigiu-se a Salvador, lá fui eu. O Papa falou com carinho da tolerância religiosa baiana, com a presença de pais de santos e pajés. Para honrar a verdade, confesso que apesar de assistir a tanta religiosidade, poucas vezes fui exemplo da santidade nas minhas visitas a Bahia. Fui castigado. 


 

A baiana punição foi numa dessas visitas a Salvador, 1986. Como eu tinha estado varias vezes no México, rei absoluto em comidas apimentadas, pedi a uma baiana que o acarajé que me servia no Tabuleiro da Baiana fosse com muita pimenta. A baiana colocou mais uma colher de molho de pimenta. "Mais" disse com o tom de voz mais másculo possível. Com calma, a baiana colocou uma montanha de pimenta que quase escondeu o acarajé.

 

Houve um silencio inesperado na pequena fila formada detrás de mi. Percebi que tinha desafiado a baiana e a resposta chegava quente...

 

O nome de origem germánico Guillermo significa "guerreiro das causas justas". Devia honrar o meu nome. Assim que não recuei. Com coragem quase suicida mordi o acaraje camuflado com pimenta, acompanhado pelo olhar da baiana e os fregueses.

 

As lagrimas brotaram. Após inclinar minha cabeça respeitosamente aos presentes e a baiana na muda despedida do local, caminhei lentamente e com postura galharda até um quiosque próximo. Pedi leite, água, cerveja, refrigerantes sem que o fogo apagasse na minha boca por um tempo. Minha orientação: Nunca desafie uma baiana.

 

Já que estamos no tema "Baiana". Vivi em 1990 uma paixão linda, inesquecível, com uma médica baiana. Uma baiana de macia pele branca e vivazes olhos azuis. Aparentemente fora do perfil estereotipado da baiana. Poderia até ser fisicamente. Ela encarnava o espírito da baiana dos sonhos meus e de muitos. Ela era a alegria, o carinho, o fino humor, a sensualidade, a generosidade num atraente corpo de mulher nascida num 2 de fevereiro, sim o Dia de Iemanjá. 

 

Quando contei para ela a história do meu nascimento, foi atrás de registros de médicos da Bahia que formaram ou fizeram especialização em Buenos Aires, no ano em que nasci. Encontrou o registro. O médico que salvou a minha vida já tinha falecido. Frente ao mar rendi a minha homenagem.

 

A vida moderna, globalizada e tecnológica, de metas materiais e amores virtuales, vai destruindo um pouco de tudo, também na Bahia. Porém sei Bahia que resistirá mais que outras regiões. De mim não tirarão essa Bahia que marcou minha historia, perfumou minha pele, acelerou meu coração, fez dançar minha alma. 

 

(copyright guillermopiernes.com.br)

 

*Guillermo Piernes - jornalista e escritor. Foi correspondente das agencias Reuters e UPI, porta-voz da Organização dos Estados Americanos e representante da OEA no Brasil, colunista da Gazeta Mercantil. Autor de Comunicação e Desintegração na América Latina, Tacadas de Vida, Liderança e Golfe

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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