EXISTE UM MODO LATINO-AMERICANO DE ADMINISTRAR?
Ilan Avrichir
Reconhecidamente, a teoria, ou pelo menos a prática, da Administração, tem origem nos países anglo-saxões e é adotada, de forma bastante acrítica, na maioria dos demais países. Evidência clara disso é a quantidade de palavras em inglês que permeiam (seria mais correto dizer infestam?) o jargão do campo: management, marketing, downsizing, empowerment, outsourcing e offshoring são alguns dos termos para os quais inclusive já deixamos de procurar alternativas no idioma pátrio e, mesmo o Word, da Microsoft, não os identifica como anglicismos.
Evidentemente, a gravidade da questão não está no eventual desrespeito à língua pátria que, ademais, vai continuar a se renovar pela incorporação determos de diferentes origens, mesmo na hipótese bem pouco provável de banirmos o conhecimento de gestão dentre aqueles que valorizamos e estudamos. O problema está no fato de que as condições vigentes nos Estados Unidos e na Europa serem tão diferentes das nossas, em tantas dimensões críticas para a gestão das organizações e tão evidentes em si mesmas, que é quase ocioso relembrá-las:
* As condições materiais, incomparavelmente mais tranqüilas e confortáveis lá do que cá, e menos sujeitas a incertezas, mesmo em épocas de crises agudas como estas que estamos vivendo;
* A cultura nacional latino-americana, inegavelmente mais orientada para o relacionamento entre as pessoas do que no mundo anglo-saxão, mais para a improvisação e a condescendência com aqueles que detêm o poder, para o jeitinho e o coletivo abaixo do Equador do que acima, a ponto do poeta ter dito que por aqui não existem pecados;
* A forma mesmo das nossas organizações se inserirem no maravilhoso concerto das corporações e concorrência internacionais, mais como filiais que sofrem as conseqüências das decisões tomadas na matriz e menos como sujeitos dos seus próprios destinos, como late comers (entrantes atrasados), que sofrem deliability of origin (vulnerabilidade pela origem) quando investem no exterior,como exportadores de commodities agrícolas e não de bens e serviços diferenciados;
* As instituições que moldam o ambiente econômico introduzem custos de transação desconhecidos no hemisfério norte e tornam nosso direito de propriedade menos claro e insofismável, além de lento e caro (vou me abster de mencionar a corrupção, a sonegação e o peso dos impostos sobre a produção e o consumo);
Na presença de tantas condições que tornam, se não específicas da America Latina, diferentes das norte-americanas, é de se esperar que um vasto acervo de teorias e práticas tenha se desenvolvido e se difundido em plagas latinas. Afinal,os cursos de pós-graduação estão cheios de doutores que surgem e se multiplicam, as estantes das livrarias oferecem cada vez mais títulos, os seminário se congressos se sofisticam a cada ano.
O Japão, de população do tamanho de metade da nossa, já gerou seu estilo; a Alemanha e a França, por sua vez, não emprestam ao conhecimento sobre organizações o mesmo status que nós. Somos um dos BRICs, o futuro nos pertence e nossa cultura, talvez não tão orientada para resultados e performance, tende a gerar menos conflitos exacerbados e sangrentos, vantagem que, pelo menos, contrabalança a teórica perda de eficiência que ela nos impõe.
Em face disso, não teria surgido, ou pelo menos já se configurado, um estilo latino-americano de gerenciar, adaptado às condições, ao portunhol e ao clima, no sentido amplo, que impera ao sul do Rio Grande? Se sim, quais são os contornos dessa ciência/prática que se estabelece entre nós? Em que ela difere do management que conhecemos? Se não, quais as conseqüências da sua falta e quais são as condições de que ainda nos ressentimos para que ela surja?
Reconhecer e lapidar a maneira latina de administrar é uma forma de buscar
espaços mais nobres na divisão internacional do trabalho que, como sabemos, historicamente, não nos favorece.
* Ilan Avrichir é professor do Núcleo de Estudos em Gestão Internacional da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
