A hora e a vez de Emília
Inicialmente advirto aos meus incautos leitores (se é que os tenho: leitores, e claro), que este texto não tem qualquer paralelo com Augusto Matraga, pois diferentemente do personagem de Guimarães Rosa, a personagem de Mário Lago não está sendo cobrada por suas escolhas. Trato aqui de cancelamentos.
O mote da Vez remonta a saudosa Nara Leão, que de tão corajosa mereceu uma doce defesa poética de Carlos Drummond de Andrade. Sem mais vagar, vamos ao centro da prosa. Chico Buarque declarou não mais cantar “Com Açúcar e Com Afeto”.
A justificativa do Bardo é que sua canção retrata uma mulher submissa a um marido boêmio. Disse ele atender a um reclame das feministas e, ao que supõe, Nara faria o mesmo.
Reconheço na sua atitude o grande Gentleman que ele é, intelectual comprometido com valores humanitários. No entanto discordo, sem, naturalmente, fazer julgamento valorativo, salvo o positivo, mas apenas me apegando ao efeito prático de sua decisão.
Uma coisa é a saudosa Beth Carvalho não ter mais cantado “O Teu Cabelo Não Nega”. Ali sim há um nítido discurso racista (por favor não levem Lamartine ao paredão). Coisa bem diferente é cantar músicas que são verdadeiras crônicas sociais. A seguir nesta trilha, não mais ouviremos “Olhos Nos Olhos”, afinal ali uma mulher, ainda que para o bem, confessou sua submissão.
Vivemos tempos de revisionismos e de cancelamentos. Quanto as revisões, tudo bem! Entretanto, cara pálida, me responda: derrubar a estátua de Borbagato ressuscita algum índio para lhe restituir a liberdade? A história que aconteceu não se apaga, se conta.
Jorge Amado em toda sua grandeza não era dado a surrealismos. Portanto, o que não falta é legiões de Donas Flores esperando Vadinhos. E não é cancelando canções que se dá empoderamento as mulheres. Ao contrário, a arte denuncia as mazelas sociais.
Em um show no Pelourinho, assisti Mário Lago fazer um questionamento as críticas feitas a Amélia, a mulher de verdade. Disse ele que tais objeções deveriam ser dirigidas a Emília. Pois é Xará : a vez dela não tarda a chegar.
*Mario Lima é advogado e procurador do estado da Bahia
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