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Artigo

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O HOMEM LEVANTANDO DO CHÃO


Yulo Oiticica   

A humanidade experimenta uma crise sem precedentes. Um escândalo que nos acompanha faz muito tempo e que vem sendo encoberto pela crise financeira no mundo. Trata-se da fome, um tema abafado pelas forças econômicas globais, que depositam na conta das nações emergentes o débito de uma dívida histórica que os países ricos possuem com os mais pobres. Uma pauta proibida, que castiga milhões de pessoas que convivem rotineiramente com o pesadelo da fome. Como diria Josué de Castro, "viver na opulência, num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigoso, é um crime", que vem sendo ocultado, se nos permite o complemento.
Por isso, é preciso fazer os silêncios falarem e desorganizar uma espiral que vem sendo formada na imprensa para censurar o tema combate à fome das nossas manhãs ante a recessão do sistema de especulação monetária no planeta. É preciso dizer que 30 bilhões de dólares por ano garantiriam o direito à alimentação adequada para 923 milhões de humanos que passam fome, enquanto a União Européia e os Estados Unidos movem mundos e fundos para sanar a bolha vazia do mercado imobiliário estadunidense, que consumiu em poucos dias US$ 3 trilhões.
Neste ponto é importante destacar o papel do Brasil no enfretamento da fome no planeta através da contenção do mercado especulativo no mundo. O país enfrenta a crise financeira e controla os preços agrícolas por causa de um vigoroso setor de agricultura familiar, que produz 70% dos alimentos consumidos aqui. Desde 2003, o Brasil fortalece a agricultura, com políticas públicas de crédito, seguro agrícola, assistência técnica e extensão rural.
Ao mesmo tempo, desenvolve e estrutura uma política nacional de segurança alimentar articulada e que institucionalizou essa estratégia por meio da Lei da Agricultura Familiar e da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional. Enquanto o índice dos preços agrícolas internacionais subiu 83% nos últimos 36 meses, a cesta básica brasileira subiu apenas 25% no mesmo período. Tal procedimento demonstra que assim como criamos a fome, podemos acabar com ela, confirmando a tese de Josué de Castro: "A fome não é um fenômeno natural e sim um produto artificial de conjunturas (estruturas) econômicas defeituosas: um produto de criação humana e, portanto, capaz de ser eliminada pela vontade criadora do homem".
Talvez, a humanidade esteja diante de um impasse semelhante ao dos trabalhadores rurais narrados pelo escritor José Saramago na obra "Levantado do Chão", que se debruçam sobre um conflito, mas, que na conclusão do português encontram uma sentença que apresenta uma luta em comum pela sobrevivência: "Dizem os do norte, Temos fome. Dizem os do sul, Também nós". No decorrer da narrativa, contudo, os homens não se entendem e a vontade do patrão prevalece sob o desentendimento dos trabalhadores. Percebemos que Saramago propõe para a estória, assim como Josué de Castro, uma solução que a humanidade precisa seguir ao fortalecer a agricultura familiar através da reforma agrária, que distribui melhor a terra e garante que a terra seja usada para produção de alimentos, e não para especulação. Terra para quem quer trabalhar, produzindo alimentos com qualidade para garantir a soberania e a segurança alimentar de nosso país.

*Yulo Oiticica é deputado estadual (PT) e membro da Frente Parlamentar em Defesa da Assistência Social.

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