Obrigado, Big Brother!
A atual edição do Big Brother fez mais pelo país do que a Globo fez durante o século. Ao colocar militantes de pautas identitárias dentro da casa, para o Brasil acompanhar, ajudou a escancarar aquilo que vozes conservadoras e liberais (em sua maioria) denunciam e reclamam há tempos: a intolerância e a dissonância entre a retórica e a prática nesses movimentos.
Normalmente, o militante politicamente correto, aquele que se comporta como representante dos “oprimidos”, sobe num pedestal arrogante, considerando todos os que não compactuam com a sua visão binária de mundo como inimigos ou ameaças. Com isso, aponta o dedo na cara e imputa crimes a terceiros, divide pessoas em grupos e classifica-as como opressoras ou oprimidas, marginaliza pensamentos distintos dos seus, etc.
Ao agir dessa forma, o militante se esquece que também é humano.
Cobra de todos à sua volta – e, às vezes, até daqueles que nem conhece, graças às redes sociais – uma conduta que ninguém tem, teve ou terá. Como seres humanos, somos dotados de características singulares, que nos diferenciam do próximo. Dentre essas, além dos atributos físicos, há os comportamentais, que incluem os nossos preconceitos e outras questões que nos orgulhamos (ou não) de ter.
Mas, infelizmente, o militante não entende isso – ou apenas ignora. Ao adotar uma cartilha identitária de “proteção” às minorias que, à princípio, segundo o seu ponto de vista, ajuda a combater os males presentes na sociedade, termina, quando a realidade se impõe, a incentivar a segregação e a intolerância.
É óbvio que muitos dos militantes sabem qual o resultado que as suas ideias terão na prática. Não é por acaso que movimentos marxistas passaram a se utilizar das pautas identitárias. Em essência, segundo a dialética hegeliana, que inspirou Karl Marx, há uma tese que, quando confrontada por uma antítese, gera uma síntese. Se, para Marx, esse confronto seria entre a classe burguesa e a proletária, gerando a revolução e a ditadura do protelariado, hoje esse confronto é instigado entre raças, gêneros, classes, e tutti quanti.
No fim das contas, as atitudes que, no discurso, são tomadas pelo “bem” contra o “ódio”, não geram outra coisa senão mais ódio, segregação e perseguição – atualmente, encarnadas no “cancelamento”.
O “cancelamento”, resultado inevitável da patrulha politicamente correta, tão presente nas redes sociais – criado, alimentado e disseminado por páginas militantes ditas “progressistas”, como o Mídia Ninja e o Quebrando o Tabu, além de hipócritas, como o senhor Felipe Neto – hoje, fora de controle dos seus autores, está passando a ser criticado pelos mesmos.
Agora, que estamos podendo observar esse comportamento “a torto e a direito” em rede nacional, ninguém quer assumir o monstrinho. Afinal, quando a criança é feia, ninguém é o pai.
Para saber aonde essa adaptação totalitária do século XX pode chegar, indico a leitura dos dois clássicos de George Orwell, “1984” (que, inclusive, é o livro que inspirou o Big Brother) e “A Revolução dos Bichos”. Também indico “Fahreinheit 451”, de Ray Bradbury, que, mesmo voltado para outro tipo crítica, nos mostra que o autoritarismo muitas vezes parte do próprio povo.
*Gabriel Menezes é estudante de medicina
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
