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Artigo

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A Escola e a pandemia

Por Olivia Santana

Foto: Divulgação

A pandemia expõe as vísceras do dramático sistema da desigualdade socioeconômica brasileira. E a educação é uma das áreas mais flagrantemente reveladas nessa exposição compulsória. Aqui o corona vírus desnudou a estrutura desigual de ensino que historicamente sustenta a assimetria das nossas oportunidades.

 

A dualidade do sistema educacional brasileiro, público X privado, revelou seus contornos perversos no cenário da  guerra contra o inimigo invisível, o vírus, na qual fomos enredados. O direito constitucional ao ensino de qualidade para todos e todas revela-se ultrajado, negado, ante a precariedade com que se apresentam as condições de larga parcela das nossas escolas públicas, em todos os níveis.    

 

Em razão da pandemia, decretos governamentais suspenderam as aulas em todas as instituições de ensino. Mas há formas e formas de lidar com as consequências dessa determinação.   

 

A rede privada enfrenta essa nova situação a partir de estrutura predial apropriada, de equipamentos e tecnologias que compensam, em boa medida, a ausência presencial a que a pandemia obriga. A rede pública não conta com nada disso. Sua debilidade é estarrecedora.

 

Na realidade, na rede privada, o ano letivo não parou 100%. Computadores de última geração, tabletes, kindle, wi-fi de qualidade, ferramentas tecnológicas modernas garantem-lhe certa continuidade. Seus alunos, de um estrato social médio ou elevado, não sofrem grandes prejuízos.  Aulas remotas e tutorias eletrônicas acontecem e, na retomada das aulas presenciais, o alunado poderá assegurar seu ano letivo.  

 

Diversa é a situação das alunas e alunos da rede pública. Sem condições de um acompanhamento mínimo do ano letivo, são precárias suas condições de não perder o ano escolar.

 

Os poderes públicos, ao invés de dotarem a comunidade escolar de condições mínimas para a prática de aulas remotas, capitula ante o desafio, muda de assunto, e começa a fazer pressão pela retomada das aulas presenciais, se lixando para a inconveniência disso acontecer. Parece não se dar conta de que o hálito mórbido do coronavírus paira sobre nossas vidas, especialmente se juntarmos nossas crianças em jornadas irresponsáveis.

 

As máscaras, o álcool em gel e os tapetes sanitarizantes podem ser fornecidos com alguma celeridade pelos gestores públicos mais eficientes e comprometidos. Mas, e a estrutura do parque escolar?

 

Não é de agora que sabemos que a rede pública é bastante heterogênea. Muitas escolas  resultam do velho improviso do sistema educacional, não possuem estrutura suficiente para garantir as normas sanitárias essenciais como: distanciamento de até 1,5 metros entre as pessoas, banheiros adequados,  pias numerosas ou espaço para ampliar o número de lavatórios para higienização das mãos, portarias suficientes para evitar aglomeração na entrada e na saída, salas amplas e arejadas ou com sistema de renovação de ar, entre outras necessidades.

 

É assombroso que, na era da inteligência artificial, a escola pública esteja tão afastada das novas tecnologias. Dados da TIC Educação 2019 apontam que 39% dos estudantes da rede pública brasileira não têm computador ou tablet em casa. No plano local, o IBGE/PNAD 2018 mostra que Salvador é a penúltima capital em lares com internet Banda Larga. Apenas 47% dos domicílios a têm.  Os pobres, de maioria negra, são as maiores vítimas do descaso e da falta de investimentos educacionais.

 

O governo enche o peito para defender a lei do teto dos gastos, que as bancadas conservadoras aprovaram, com a ratificação da grande mídia.  Trata a educação como gasto. Na verdade, a educação é investimento no humano e num projeto de nação.

 

Pesquisa feita pela Universidade de Minas Gerais (UFMG), em 2019, encomendada pela UNESCO, revela a relação que há entre a qualidade da infraestrutura das escolas do ensino fundamental e a qualidade da educação. A conclusão é que espaços adequados e prazerosos colaboram para o aumento do rendimento escolar. Os principais indicadores analisados foram instalação predial, acessibilidade, equipamentos para apoio pedagógico e administrativo, serviços básicos, tecnologia e ambiente para educação especial. As escolas com melhores pontuações foram, também, as que apresentaram melhor desempenho na aprendizagem dos seus alunos e alunas. A maioria delas concentrada no Sul e no Sudeste. 

 

Especialmente no cenário do coronavírus, é de estarrecer a iniciativa do governo em retirar verbas da educação no Brasil e a inação do Ministério da Educação. Nenhum plano emergencial foi feito para a educação, aliás foi o ministério onde até há pouco pontificavam aventureiros assombrados com o terraplanismo.

 

De nulidade em nulidade o ensino público vai sendo empurrado para a UTI, e o fosso histórico que o separa do privado, torna-se cada vez mais profundo.

 

*Olivia Santana é deputada estadual e pedagoga

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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