COM LICENÇA
José CastilhoPiqueira
É voz corrente que a Educação em nosso país não anda lá grande coisa. Em particular, nas áreas científicas, como Física, Química e Biologia, tudo anda pior ainda, com falta de professores e um imenso desinteresse, em quase todos os segmentos da sociedade pela erradicação do analfabetismo científico vigente.
Ensinar Física no Ensino médio, hoje, é quase um ato de heroísmo, quixotesco na medida em que o desafio inclui enfrentar moinhos movidos pela ilusão generalizada de que aquilo que se ensina não tem utilidade e é, apenas, um conjunto de regras teóricas, desvinculadas da realidade.
O resultado é esta tristeza: uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia que, obviamente, apóia-se nas ciências, perplexa com o progresso que é dominado e determinado por grupos hegemônicos, manipuladores da informação e das riquezas.
No mundo de hoje, não há como supor que exista democracia sem um mínimo de cultura científica. Acreditar no contrário disso é aceitar a hipocrisia propagada por pessoas que não querem que os cidadãos conheçam a tabela periódica nem saibam o que é DNA ou entendam o teorema da energia cinética.
Essas mesmas pessoas, quando têm problemas de saúde, procuram atendimento em hospitais que contam com médicos de ótima formação científica, nos seus quadros, e com equipamentos de tomografia, de ressonância magnética e de instrumentação cirúrgica concebidos por físicos, químicos e engenheiros de alto grau de conhecimento e produzidos com tecnologia de ponta. Para as camadas menos favorecidas, restam os hospitais menos equipados, os médicos menos preparados, quando não apenas a crença em horóscopos e milagres, também fontes de altos rendimentos, obtidos à custa da inocência e desconhecimento.
Por tudo isso, em nome dos professores de Física, disciplina que lecionei por muitos anos, peço licença para falar, ainda que seja pouco, sem modismos ou pedagogismos.
É preciso esclarecer aos estudantes que marcar as forças que estão atuando em um corpo não é um saber desnecessário. Mostrar a eles como funciona um automóvel, ou como somos dependentes da energia e como seu uso define a qualidade de vida de uma sociedade.
Infelizmente, não dá para fazer isso sem um pouco de estudo mais duro, às vezes desagradável. Trocar algumas horas em frente à TV ou ao computador por estudo reflexivo e observação da natureza.
Exemplifico com um fato que abalou o país, há cerca de um ano: o trágico acidente com o avião da TAM, no aeroporto de Congonhas, abriu muito espaço nos meios de comunicação para troca de farpas e acusações, mas houve pouca explicação com base científica.
Finalmente, os órgãos responsáveis pela investigação encontraram o ponto chave do problema: a pista. Pois bem, se as pessoas, em vez de ocupar o cérebro memorizando os signos do Zodíaco ou o nome das celebridades televisivas, tivessem um pouco de cultura científica saberiam que o agente responsável pela parada do avião são as forças externas e, nesse caso específico, foi a força de atrito trocada entre o solo e a aeronave.
O avião toca o solo com uma certa energia cinética, pois está com uma certa velocidade. Essa energia deve ser dissipada pelo trabalho da força de atrito, que depende de duas grandezas: a força propriamente dita e a distância percorrida.
Então, as possibilidades são:
O avião tocou o solo com velocidade muito alta, decorrente de erro humano ou falha mecânica;
A pista era muito curta, e o trabalho da força de atrito não foi suficiente para dar conta da energia cinética inicial;
O coeficiente de atrito da pista era baixo, isto é, a pista era muito lisa, não permitindo que o trabalho da força de atrito fosse suficiente para zerar a energia cinética.
Simples, não é? A Física é simples, e talvez por isso seja tão esquecida. Não dá margem para fazer mistérios, manipular motivos ou criar ilusões.
* Professor Titular da Escola Politécnica da USP
