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Artigo

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Dizendo o óbvio

Por Gabriel Menezes

Foto: Acervo pessoal

Todos os domingos, pego o carro para dar uma volta pela orla de Salvador. Sempre busco prestar atenção se a população está seguindo com o isolamento. Neste último, dia 14, por volta das 15:00 horas, fui ao Farol da Barra e depois segui até ao Farol de Itapuã. Me surpreendi, positivamente, com o uso das máscaras. Arrisco dizer que 80% das pessoas que vi faziam o uso do utensílio. Não esperava isso dos meus conterrâneos. Porém, apesar de já esperar, notei a presença de muitas pessoas nas ruas praticando atividades não essenciais. Me lembrei de onde moro.

 

Ao chegar em casa, recebi um vídeo que acredito que muitos também tenham visto durante a noite, que mostrava uma aglomeração enorme na região da Barra. Mais cedo, ao passar por lá, tinha percebido uma concentração grande de pessoas comparado com os outros locais em que fui. Todavia, a gravação exibia um amontoado de gente muito maior do que eu tinha presenciado mais cedo. Aparentemente, a crise do sistema de saúde ainda não chegou para estes indivíduos. Viva Salvador!

 

Após assistir ao vídeo, passei um tempo refletindo sobre o período que estamos vivendo. Cheguei à conclusão óbvia: falhamos enquanto sociedade. Pode parecer pessimismo. Ao ler isso, acredito que muitos poderão dizer: “isso não é um exagero?” ou “você só percebeu isso agora?”. Explico. Nunca tive grandes esperanças com o nosso país, principalmente depois de visitar outras nações, como Inglaterra, Áustria e Suíça. Parece que vivemos em uma espécie de realidade paralela. Não me refiro apenas à pobreza, violência e outros aspectos em que a diferença é gritante. Me refiro à mentalidade.

 

No Brasil, temos o péssimo hábito de não nos preocuparmos com o próximo – a não ser que seja alguém querido -, de querer passar por cima do outro ou de tirar algum tipo de vantagem em qualquer tipo de situação possível. São algumas das características do “jeitinho brasileiro”. Não generalizo. Toda sociedade tem seus segmentos que não agem conforme a cultura estabelecida. Acredito que muitos poderão achar que estou exagerando novamente. A esses, peço apenas para que tentem lembrar ocasiões vivenciadas em que pessoas agiram: furando filas – seja de bancos, supermercados ou até mesmo de cantinas de escolas -, passando pelo acostamento ou locais inadequados durante engarrafamentos, ficando no meio da escada rolante – atrapalhando a passagem de quem tem pressa -, jogando lixo em qualquer lugar – devido à ausência de lixeiras por perto. Existem outras milhares de ocorrências que eu poderia citar que fazem parte do nosso cotidiano, mas que já foram normalizadas. Ninguém se escandaliza. É dado da realidade.

 

Repito: falhamos enquanto sociedade.

 

Porém, provavelmente, ainda poderá haver alguém pensando que estou exagerando. Somente por este motivo que nós falhamos? Não. Mas acredito que boa parte dos problemas da nossa sociedade sofrem grande influência dessa mentalidade. Poderia me aprofundar nesta questão, mas não é o objetivo desta coluna. Fica para outra oportunidade. Hoje, trato dessa questão moral perante o cenário da COVID-19 e do isolamento social.

 

Durante esse período que estamos vivendo, desde a chegada do vírus no país, temos visto, constantemente, o governo tomando atitudes, no mínimo, controversas. Por “governo”, me refiro a todas as esferas possíveis. No Executivo Federal, o Presidente Jair Bolsonaro tem atuado de forma deplorável em relação ao colapso que afeta o nosso sistema de saúde. Ao mesmo tempo, deputados têm se aproveitado do momento para torrar o erário com gastos abusivos – para variar –, passagens, hospedagem e outros quesitos absolutamente essenciais para as suas vidas. Sobre isto, a matéria da Folha de São Paulo com o título “Na pandemia, deputados gastam com combustível, hotel e até posts privados” aborda o tema, caso o leitor tenha interesse de ver. E, finalmente, há o papel de alguns governadores e prefeitos em compras superfaturadas de equipamentos para hospitais. Em tempos de crise, os picaretas fazem a festa.

 

Agora, olhemos para o comportamento da população – em geral.

 

Logo quando a pandemia começou a atingir o Brasil, notei tanto nas redes sociais quanto presencialmente a esmagadora maioria das pessoas repudiando as atitudes do governo e se posicionando à favor do isolamento. Eram stories no Instagram repostando posts de páginas como Mídia Ninja e panelaços quando havia pronunciamento do presidente. Certo. Temos de cobrar à classe política. Contudo, ultimamente tenho observado ruas cada vez mais cheias. E, se engana quem pensa que isto se dá devido a cidadãos saindo para trabalhar. O que tenho visto são indivíduos saindo para caminhar, correr e frequentando praças. Já nas redes sociais, o que me chamou atenção foram casais postando fotos comemorando presencialmente durante a noite do dia dos namorados.

 

Assim, não consigo deixar de realizar os seguintes questionamentos: estas atitudes são corretas? São responsáveis? Mostram o respeito com o próximo? Continuo.

 

Creio que aqueles que estão agindo assim poderão dizer que estão fazendo o isolamento, mas que saem apenas para realizar atividades físicas ao ar livre e para ocasiões importantes e pontuais. Portanto, gostaria de convidar o leitor a fazer a seguinte reflexão: já imaginou se todos pensassem da mesma forma? Já imaginou se a população aderisse ao argumento, e passasse a sair para praticar exercícios e para “ocasiões importantes”? Haveria isolamento social nesse cenário?

 

Quantas pessoas estão deixando de ver aqueles que ama, em prol da sociedade? Quantos estão deixando de ver pais, namorados e amigos pois estão pensando no próximo? Quantos estão se esforçando, ao máximo, para ficar em casa, enquanto outros saem por ai sem exercer o seu papel como cidadão? Quantos estão atuando para favorecer a superação desse cenário, enquanto outros agem de forma egoísta?

 

Portanto, afirmo aqui: nosso governo é o retrato da nossa sociedade.

 

No século XIX, o economista Frédéric Bastiat, no seu clássico livro "A Lei", tratando acerca da relação do povo com o governo, fez o seguinte questionamento, o qual se encaixa perfeitamente no nosso contexto: “’Que o Estado’, dizem eles, ‘seja previdente e prudente por todos’. Quanto a isso, faço as seguintes perguntas: 1) Isso é possível? É possível que um Estado experiente saia de uma nação inexperiente?”.

 

Nessa conjuntura, eu pergunto ao leitor: é possível que um Estado responsável saia de uma nação irresponsável? É possível que um Estado honesto e correto surja de uma nação que banaliza a mentalidade egoísta e corrupta?

 

Por fim, caminhando para o encerramento do texto, gostaria de propor uma reflexão.

 

Em certo momento do artigo “Governando Corretamente”, o filósofo inglês Roger Scruton aponta a necessidade que temos de nos comportar de forma responsável em sociedade. A necessidade de reconhecer as profundas obrigações que cada cidadão tem para com a sociedade. Desta forma, quando há uma situação que precisa ser enfrentada, a população se une para enfrentar o problema. Com isso, o governo, que é – teoricamente – formado pela livre associação entre indivíduos, atuaria de maneira a organizar os interesses da nação em questão.

 

Entretanto, no Brasil atual, o que vemos é o oposto disso. Os indivíduos, que deveriam exercer sua responsabilidade social, atuam em benefício próprio. E, estes mesmos indivíduos são aqueles que nos representam enquanto políticos. E nós, abestalhados, ficamos cobrando dos políticos atitudes que não temos no dia-a-dia. E, assim, ficamos nesse ciclo vicioso: população irresponsável cobra o governo por atitudes irresponsáveis, sendo que os governantes que lá estão, antes de tudo, fazem parte da mesma população que os cobra. Pensar que algo irá mudar de uma hora para outra é meramente utópico. Ao passo que cobramos ações morais por parte dos que nos representam, precisamos fazer o nosso dever de casa: mudar os pequenos atos que, em circunstâncias propícias, acabam com o país.

 

Faço questão de lembrar ao leitor que, segundo os dados oficiais, já ultrapassamos a marca de 40 mil mortes. E, enquanto isso, vemos pessoas saindo às ruas como se nada tivesse acontecendo. Afinal de contas, basta chegar ao término do dia, nas redes sociais, e postar algo criticando atitudes alheias e de políticos. É o retrato do tempo em que vivemos. O que se publica, na internet, define o caráter, independente das ações que se toma no cotidiano.

 

Assim, para encerrar, gostaria de deixá-lo com as seguintes reflexões: será que há alguma esperança em relação à mudança de mentalidade da nossa sociedade? Será que um dia teremos a responsabilidade necessária para sermos uma nação próspera? Será que um dia iremos parar de normalizar situações imorais? Será que um dia teremos uma cultura que proporcione nos colocarmos no lugar do próximo? Será que sempre optaremos pela negligência e nos colocaremos como vítimas da ineficiência dos governantes?

 

Infelizmente, termino o texto obrigado a repetir: falhamos enquanto sociedade.

 

*Gabriel Menezes é estudante de Medicina 

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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