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Artigo

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Pensando alto: os filhos das Marias

Por Marta Castro

Foto: Acervo pessoal

Esta semana o Brasil se mobilizou com a morte do menino Miguel. Miguel não era filho de Maria e sim de Mirtes. Mirtes que não tinha com quem deixar Miguel para ir trabalhar e precisou levá-lo para o emprego. Mirtes que precisou deixar Miguel com a patroa para descer com os cachorros dela para passear. Patroa que não cuidou de Miguel com o mesmo cuidado que Mirtes cuidou dos seus cães. Mirtes que não poderá mais passear com seu Miguel.

 

Há muito tempo a vida (e a morte) dos filhos das empregadas me sensibiliza e mais recentemente esse tema tem me afetado de uma maneira muito profunda e vocês vão entender porque.

 

Sempre trabalhei muito, fora e viajando, e por isso sempre tive empregada doméstica. Duas delas estão com a família há 20 anos, desde o nascimento de Leti. Uma hoje cuida de meu neto e outra ainda está com a gente. Mais recentemente chegou uma terceira, junto com o apartamento da praia.

 

Todas elas têm filhos da idade dos meus. Por muito tempo e ainda hoje, elas deixavam as suas próprias casas e filhos para cuidar da minha casa e filhos. Meu filho mais velho formou em economia, a mais nova está na metade do curso de direito, mas os filhos das minhas Marias não chegaram lá, nem mesmo com meu compromisso de ajudar no custeio de quem quisesse fazer faculdade.

 

Eu nunca acompanhei de perto a vida destes meninos e meninas. Malmente dava conta de acompanhar os meus. Eu estava batalhando o nosso sustento e as Marias, os delas. E estava tudo certo, não tava? Não, não estava nada certo.

 

Uma teve os filhos baleados, um faleceu. Outra teve o filho detido. Outra recebia meu apoio para bancar integralmente o curso técnico da filha, que não o cursou.

 

Por várias vezes tentei arrumar emprego pra essa turma. Me partia o coração que a gente, com tamanha rede de relacionamento, não conseguisse abrir uma porta para tentar resgata-los. Certa vez consegui uma vaga para uma delas no restaurante de uma amiga. Durou pouco, porque não tinha discernimento e nem iniciativa. Depois consegui um trabalho para outro, numa empresa da família, mas durou pouco também e ninguém nunca me explicou ao certo o que houve. Hoje, tenho receio até de pedir.

 

Quando li sobre a morte de Miguel, doeu em mim uma dor sem fim. Dor não só pela morte do menino, mas dor por toda uma história de desigualdade da qual somos ao mesmo tempo vilões e vítimas.

 

Não fácil para Maria deixar seus filhos, mas ela deixa porque precisa trazer o feijão pra mesa. Tampouco é fácil para mulheres como eu deixarem. A diferença é que nós, mulheres brancas, de classe média, com nível universitário, trazemos além do feijão, a escola particular, o plano de saúde e vários outras benesses e privilégios. Nós podemos correr atrás de renda e sucesso profissional porque enquanto isso tem sempre uma Maria para olhar nosso filhos. Mas quem olha pelos filhos de Maria? Quem olhou pelos filhos das minhas Marias quando elas estavam lá em casa? Quem olhou pelo filho de Mirtes?

 

Sarí Côrtes Real não olhou. Eu não olhei. Quase ninguém olha. Estão lá longe, nas periferias, nas vizinhanças perigosas, nas escolas públicas de má qualidade. Os filhos de Maria não estão diante dos nossos olhos e o que os olhos não vêem o coração não sente.

 

Mas o filho de Mirtes estava diante dos olhos de Sarí e ela tinha obrigação, não formal, mas moral de cuidar dele, pelo menos naquele momento. Porque depois, longe dos seus olhos, haveria uma grande chance de Miguel ter o destino dos guris de minhas e de tantas outras Marias: “chegar estampado, manchete, retrato, com venda nos olhos, legenda e iniciais.”

 

Para pedir justiça por Miguel, assine: https://www.change.org/p/pol%C3%ADcia-civil-de-pernambuco-ministério-público-justiça-por-miguel

 

*Marta Castro é sócia-diretora do Instituto Planos, Consultora Empresarial, Coach Executiva e Facilitadora de Grupos

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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