Thelma e Babu superando estigmas e redesenhando a casa
Não costumo assistir ao BBB, por razões várias e por indignação. Afinal, nosso país é multirracial, e no BBB, como de resto na programação da TV brasileira, a negação da nossa pluralidade persiste e choca. Ali não se apresenta a gente brasileira como ela é, diversa, esteticamente variada, com valores distintos. Por isso não prestigio a quem me nega.
Lendo Memórias da Plantação, de Grada Kilomba, vi como sua personagem Kathleen se levantava quando percebia ser a única negra na sala de aula de uma universidade. Naquele cenário, em que tudo lhe era adverso, ela era desafiada a se encher de brios, se alçar altiva, pois era ali o exemplar de sua raça, incluída naquele espaço de exclusão. A ausência de tantos que naquela sala não chegavam, era dolorosa. Mas, com bravura, ela se destacava, naquele ambiente.
Mas, fui assistir ao BBB. De saída, uma agressão recorrente. No Brasil onde a televisão é uma concessão pública, a Casa do reality show mais assistido do país tem apenas duas pessoas negras atuando, em total desprezo ao país-real, onde 50,7% da população é afrodescendente.
Thelma e Babu, que lá estavam, lembraram-me Kathleen: eram ali, a “raça”.
Quando Thelminha votou em Babu para sair da sala, um sentimento de culpa pode ter caído em sua cabeça e a própria torcida não gostou de seu gesto, como se ela tivesse quebrado uma espécie de “unidade da raça”. Ela preservou Rafa, porque na sua consciência falou mais alto a lealdade à sua melhor amiga na Casa. É que a lealdade é também importante valor da “raça”, que de resto tem outros valores transcendentais. Se Thelma e Babu se aliassem apenas um ao outro, certamente não teriam chegado tão longe.
Babu também foi criticado pela sua imprópria amizade com Prior, principalmente depois que o público do lado de fora, soube das acusações de abuso sexual que Prior sofreu.
O fato é que Babu e Thelma lutaram para chegar até a semifinal e à final, respectivamente. Ela, a única mulher negra. Ele, o único homem negro.
Gordo, favelado, Babu chegou a confidenciar a Thelma como as lentes contaminadas pelo racismo de Ivy e Marcela lhes atingia: “A Marcela me olha que nem uma madame, do mesmo jeito que a minha patroa me olhava. Eu tenho trauma desse olhar”.
Babu, diminutivo de babuíno, apelido que carrega desde a infância, fruto de bullying racista, teve a coragem de se expor por inteiro. Sabendo que não gozaria do benefício da blindagem afetiva, fez uma inteligente aliança com o público, chamou a favela para si, em vez de negar suas origens. Seu carisma e suas reflexões críticas ao racismo e às carências vividas nas favelas e bolsões de pobreza tocaram o coração de uma parcela da população que fez crescer a onda #ficababu. A força das torcidas garantiu sua resistência a nove paredões. Infelizmente perdeu no décimo.
Mas jogo é jogo. Emergiu a tática da união das mulheres, que resultou na eliminação de todos os homens da competição. Conseguiram uma histórica final feminina, Rafa, Manu e Thelminha.
Num dos episódios do programa, Thelma foi mordaz: “Eu estudei com filho de político, filho de fazendeiro... O kit básico da galera da minha sala, pra começar a faculdade, era ganhar um carro e um apartamento. Eu não tinha um livro! Morava na biblioteca.” Eu me identifiquei com essa fala, porque também passei por isso na universidade.
Em meio a uma pandemia e uma grave crise política, a vitória da médica Thelma Assis no BBB20 fez explodir de alegria uma imensa parcela do povo brasileiro.
Foi lindo e justo o seu triunfo. Entrou no jogo sem figurar no elenco de convidadas. Se inscreveu e foi selecionada. O mérito de ter lutado, incansavelmente, lhe credencia a ser a vencedora. Sua vitória é de Babu e de todas, todxs e todos os que acreditam ser preciso remover as cortinas do preconceito e dar liberdade às potencialidades das pessoas.
*Olivia Santana é deputada estadual pelo PCdoB e presidente da Comissão da Mulher da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (AL-BA)
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