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O risco é a essência do investimento e você deveria enxergá-lo com outros olhos

Por Danilo Cesar

Foto: Divulgação

Talvez você não tenha gostado muito desse título e eu entendo. De modo geral as pessoas não são muito simpáticas ao risco, e eu acredito que isso acontece porque elas não “o conhecem” muito bem. Por isso decidi escrever este texto, para tentar ajudá-lo a superar este “preconceito”.

 

Provavelmente também lhe causou estranheza essa história de que o risco é a essência do investimento. Eu sei, você ouviu ou leu por aí algumas coisas do tipo: “poupar e investir significa abrir mão de consumir hoje para poder consumir ainda mais amanhã”; ou ainda que “investir é aplicar algum recurso, com expectativa de obter um retorno superior no futuro… blá, blá, blá.

 

Ok, tudo muito bonito, mas o diabo dessas definições pasteurizadas é justamente a diferença entre o hoje e o amanhã, isto é, o bendito tempo.

 

É aí que o risco, ou melhor, os riscos, se escondem.

 

Mas o que é risco, afinal?

 

No mundo dos investimentos ele recebe diversos “apelidos”, tais como variância, desvio padrão, V@R, default, correlação, beta, concentração, etc.

 

Todos esses nomes estão relacionados a tentativa de mensurar diversos tipos diferentes de riscos, mas é preciso ter muito cuidado, porque apesar de importantes, cada um deles conta apenas uma parte da história e acreditar cegamente neles pode ser perigoso para o seu bolso.

 

A maioria desses “riscos” advém da evolução da estatística. E a estatística, infelizmente, é uma ciência bastante desconhecida pelas pessoas em geral, o que gera muita confusão.

 

Certa vez ouvi o saudoso Ariano Suassuna afirmar que existem três tipos de mentira: a mentira, a mentira deslavada e a estatística (descobri depois que a frase foi cunhada por Benjamin Disraeli; não importa, Suassuna era fo*@ de qualquer jeito).  

 

Obviamente isso é apenas uma brincadeira, pois a estatística é fundamental e foi muito importante para o avanço da humanidade. Mas o fato é que a maioria das pessoas de fato a interpreta de forma equivocada.

 

Para começar, a estatística é a ciência que estuda as probabilidades e não as certezas, o que por si só causa um problemão, porque nós seres humanos detestamos a incerteza – mesmo sabendo que ela é a única certeza.

 

A maioria das pessoas têm dificuldade em diferenciar um evento provável de um evento certo, ou o que é ainda pior – e pode lhe levar à falência –, um evento improvável de um evento impossível. É como Taleb costuma dizer, as pessoas confundem X com F(X), causas com consequências.

 

Se for o seu caso, não se preocupe, você não está sozinho. No livro “Preparados para o Risco”, Gerd Gigerenzer evidencia que boa parte dos médicos não sabe interpretar corretamente probabilidades, assim como jornalistas, políticos… e a sociedade em geral. O motivo para tanto é que as pessoas não são educadas para interpretar probabilidades e, por conseguinte, riscos, o que é muito conveniente para diversos grupos de interesse.

 

Então, como fugir de toda essa complexidade estatística e simplificar as coisas?

 

O primeiro passo é entender que risco é sinônimo de incerteza, isto é, quando se trata futuro (e investimento tem tudo a ver com futuro) as coisas podem sair diferentes do planejado.

 

Então se simplificarmos dessa maneira, conseguimos abstrair o estigma pejorativo associado a palavra risco, pois as coisas podem sair diferentes tanto do lado negativo quanto do lado positivo.

 

Talvez você esteja pensando: – que loucura é essa? Então você está dizendo que o risco pode ser bom também? Tá viajando?

 

É isso mesmo! É exatamente o que eu estou querendo dizer.

 

Vou dar um exemplo para mostrar que não estou ficando maluco.

 

Veja só, qual o investimento que possui o menor risco no Brasil? O Tesouro Selic, não é mesmo? O único risco é o país quebrar, logo a probabilidade de você perder grana é quase zero. Então, se você comprar um título desses quanto você vai ganhar? Isso mesmo, a taxa Selic (hoje 4,25% a.a.). E só! Qual a chance de você ganhar menos que a Selic? Zero! (quase, vai). E qual a chance de ganhar mais que a Selic? Bingo! Zero também! Entendeu? Se não há risco de perder, também não há risco de ganhar. Simples assim.

 

Agora imagina que você decidiu comprar ações de uma empresa. Nesta situação, você passou a correr riscos. Se a empresa quebrar, por exemplo, você pode perder toda sua grana. Mas se a empresa crescer e der lucro seus ganhos são ilimitados. E a lógica é essa: quanto mais risco você corre, maior a probabilidade de se dar bem, porque a probabilidade de ser dar mal também é grande, caso as coisas caminhem diferente do planejado.

 

Então quer dizer que o segredo é arriscar tudo e ver o que dá?

 

Nem pensar, “não é assim que a banda toca”, porque cada tipo de investimento possui riscos diferentes e, consequentemente, responde de forma diferente a cada cenário econômico.

 

O que fazer então?

 

Diversificar. Aplicar em diversas classes de ativos expostas a riscos diferentes. Aliado a isso, atrelar as escala de risco ao tempo disponível para aplicação. De forma simples, quanto maior o prazo, maior o risco. Isso porque para que você possa colher os frutos do lado positivo do risco, você precisa aguardar o tempo necessário para a mágica acontecer.

 

Ah, já ia me esquecendo: esquece essa bobagem de ganhar em tudo, não rola. Se você fizer um bom dever de casa e investir em diversos tipos de ativos, em determinado momento você vai ganhar em alguns e perder em outros e essa dinâmica vai se alterar ao longo do tempo. Se tudo subir ou cair ao mesmo tempo, há algum problema com a sua diversificação, então pare e revise sua carteira.

 

Espero que você passe a enxergar o risco com outros olhos a partir de hoje. Se tratá-lo bem ele será seu aliado e não seu inimigo.

 

E quando falo de tratá-lo bem, não estou me referindo a um monte de fórmulas estatísticas mirabolantes. Muito pelo contrário, se o futuro é incerto e imprevisível, o melhor que você pode fazer é usar isso ao seu favor.

 

Simplifique as coisas; construa sua carteira de modo que você nunca se exponha ao risco de quebrar, seja qual for o cenário. Quanto mais tempo você permanecer no jogo, maiores as chances do risco trabalhar a seu favor. Veritas filia temporis.

 

*Danilo Cesar é analista de Investimentos na Faelba - Fundação Coelba de Previdência

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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