DIVERSÃO DE QUALIDADE PARA CRIANÇAS
Marta Castro
Nesta época de baixa nas opções de peças e filmes infantis, é comum ver meus amigos reclamando da falta de programação para crianças em Salvador. Os mais abastados, que possuem lancha, fazenda ou casa de praia, conseguem ainda oferecer aos seus filhos o contato com a natureza - o que não necessariamente significa qualidade de lazer, uma vez que espaços para brincar não substituem a tão desejada atenção dos pais, cabendo às babás não só a companhia, mas também a função (indelegável) de formar essas crianças. Não que eu seja um primor de mãe; trabalho muito, viajo bastante, mas nos finais de semana sou frequentemente tomada por uma indignação com o circuito shopping - restaurante que parece nos limitar. É essa indignação que me move a buscar alternativas.
O Solar do Unhão me traz belas recordações. Quando era criança e meus pais me levaram para ver o espetáculo som e luz, que me marcaria para sempre. Uma peça sem atores, onde vozes acompanhadas por uma iluminação cenográfica dava asas à nossa imaginação. Aprendi sobre a casa grande e a senzala, como se estivesse dentro da cena. Vou ficar realizada se minha filha levar para sua vida lembranças como essa, que fazem de nós pessoas mais bem informadas e conscientes.
No último sábado, fui ao Museu de Arte da Bahia, o mais antigo de Salvador. Além do acervo permanente, visitamos a exposição “A Bahia na época de D. João: a chegada da corte portuguesa”. Paguei R$ 2,50 pela minha (meia) entrada e a minha filha de 8 anos teve acesso gratuito. Além de nós, só estavam no museu outras 3 crianças, com seus pais e uma jovem moça que ensinava sobre as escolas de arte ali retratadas. Não interagi com eles, mas creio se tratar de uma professora de artes em atividades extra classe. Especulo sobre a professorinha... Será que ela dá aula numa escola e convidou toda a turma para ir ao museu, mas só foram três alunos? Talvez... uma pena, porque este é um programa extremamente barato e demasiadamente rico.
Na exposição, minha pequena conheceu roupas, móveis e utensílios de época, além de telas, esculturas e gravuras de artistas conhecidos e anônimos. Vimos as diferentes etnias que formaram a nossa população, assunto que ela está estudando na escola e, para nossa agradável surpresa, nos deparamos com a belíssima obra em madeira do meu tio bisavô Totonho (Antônio Berenguer), que nos encheu de orgulho. Foi uma tarde especial, que muitos pais, por uma questão cultural, acabam por não usufruir. A distorção, no entanto, não está apenas nos pais. Na nossa cidade chegamos ao cúmulo de ter museus que não abrem nos finais de semana.
Lembrei das minhas viagens. Muitos museus; muitas filas nos museus; muitas crianças nos museus. Minha primeira incursão desse tipo foi relativamente precoce para os padrões brasileiros, mas bastante tardia para os padrões internacionais. Aos quinze anos, meus pais levaram a mim e a meu irmão para uma viagem de 45 dias à Europa. Visitamos 5 países com calma e, em cada um deles, a ida a museus, palácios, igrejas e outras construções históricas eram obrigatórias. Compras? Pouquíssimas, pois o dinheiro era contado e o objetivo maior era passear e aprender. O circuito incluía, também, um show típico em cada país, acompanhado pelo que havia de mais tradicional na culinária local. Sem muita compreensão, confesso que muitas vezes eu e meu irmão nos pegamos entediados. Mas no retorno, quando ingressei no então primeiro colegial, rapidamente me rendi a meus pais. As aulas de história e geografia estavam repletas de conteúdos que eu tive o privilégio de ver, mas só fui valorizar depois.
Não só nos museus estão as nossas opções de lazer educativo. Quantos de vocês já levaram seus filhos para fazer turismo em Salvador? Aqui vai uma outra dica de programa que fiz com minha pequena e que nós amamos. Paramos no estacionamento do Mercado Modelo, pegamos o barquinho na Marina e visitamos o Forte São Marcelo, que por sinal não está deixando nada a desejar aos pontos turísticos mais famosos. Voltamos para o continente, subimos o Elevador Lacerda (com fila e confusão mesmo, para que ela visse a vida como ela é). Tomamos um sorvete na Cubana, vendo a vista da Praça Municipal, onde aproveitei para mostrar a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores. Pegamos o “busu” para o Mercado Modelo, aproveitando para visitá-lo. Em outra oportunidade já fizemos o roteiro Memorial de Irmã Dulce, Igreja do Bonfim, sorveteria da Ribeira e ponta do Humaitá, que deu caldo para muitas histórias das nossas famílias que viveram por estas bandas. O próximo passeio será no ônibus turístico, saindo do Farol da Barra e rodando toda a cidade.
O circuito ambiental é também interessante. Pouca gente conhece este espaço de exuberante natureza, que oferece atrações incríveis, porém não tão baratas. O passeio começa pelo Museu de História Natural da Cetrel, com animais empalhados e achados de arte rupestre. Depois, os visitantes podem fazer trilhas, percorrendo-as a pé ou em bicicletas alugadas. Os mais aventureiros vão gostar das tirolesas, do arvorismo e de andar de caiaque. Os mais tranqüilos podem visitar a olaria e a casa de farinha (boa oportunidade para ensinar as crianças o que são estas coisas). Um piquenique em baixo das árvores nos remete aos desenhos do Zé Colmeia, lembram?
Pois se lembram, é sinal que a criança que existe dentro de vocês não morreu. Deixem de lado o medo que os trancafia dentro de casa, abandonem o comodismo, dêem folga às babás, mudem o paradigma e mostrem a seus filhos um mundo muito maior e mais interessante. E vocês não precisam viajar para isso. Está tudo é aqui, nesta terra linda e que tem tanto para contar.
Marta Castro Luzbel é administradora de empresas, especialista em Marketing e Recursos Humanos. É Professora da Unifacs e Responsável por Relações Institucionais na Fundação Odebrecht.
