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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

Jonga Cunha - Produtor Musical

“É uma word music ‘tupiniquim’ fantástica”: Assim o produtor musical Jonga Cunha define a música baiana. Nesta entrevista, Jonga fala sobre o romance que teve com Ivete Sangalo, bem como sobre o lançamento da cantora para todo o Brasil. O produtor elogia a “falta de responsabilidade musical” que acontece na Bahia, mas chama atenção para a questão da qualidade. Entre outras afirmações, ele diz que o arrocha pode tomar conta, enquanto ritmo musical. Atualmente, Jonga se dedica, também, ao programa Roda Baiana, na Metrópole FM.

Coluna Holofote: Você já tem um histórico de sucesso nas mais diversas funções que exerceu no entretenimento baiano. Conta um pouco da sua passagem pelas diversas áreas em que atuou.
Jonga Cunha: Bem, eu sou formado em direito e em música. No início desse movimento que foi chamado de axé, no começo dos anos 80, eu nasci, pois fundamos o Eva em 81, e desde já eu era músico amador. Meu interesse pela música e percussão foi muito grande e começou a nascer junto com várias estrelas. As pessoas falam que eu descobri tanta gente, mas a verdade é que eu surgi junto com esse pessoal. Eu nasci com a cabeça de músico e produtor, e queria saber tudo o que rodeava a música; isso por causa do Eva, onde eu era produtor, executivo e músico. Nesse percurso houve vários batentes, mas eu acho que tudo começou com o “Cia. Click”, que foi o maior sucesso. Em 1990 Daniela saiu, foi quando descobrimos nos barzinhos Carla Vizi, que ainda era Carla Virgínia, e foi outro sucesso. Isso tudo acarretou que eu conheci Ivete, no interior da Bahia. Eu me apaixonei de primeira. Comecei a produzi-la, foi quando ganhamos o Troféu Caimy. Eu costumo dizer que minha trajetória foi de muito trabalho e muita coincidência, porque quando você está trabalhando bem, as coisas conspiram a favor. É uma trajetória de estar no momento certo, de trabalhar muito e ser muito interessado por todo esse lance que a música baiana já fez desde o início.

CH: Como você se sente em ter descoberto, ou como você mesmo diz, de ter acompanhado Ivete Sangalo, uma das maiores cantoras da música brasileira?
JC: Ivete foi talvez a que, no início, eu realmente me dediquei. Comecei com Ivete na época do barzinho e o meu interesse foi profundo. Ela se mostrou uma cantora maravilhosa. Na época, a banda Eva tinha literalmente sumido. Refazer o Eva era uma necessidade minha como fundador. E o fato de eu ter conhecido Ivete só fez eu me interessar mais. Então foram uns três ou quatro anos em que eu fiquei muito ligado à carreira dela. E como eu era um produtor experiente, e ela muito inexperiente, então ficou como um produtor que tomava conta e que dava os caminhos pra ela seguir. Mas era muito fácil ver que aquilo que eu estava ajudando a começar, em muito pouco tempo ia embora e ia ficar muito maior do que o que eu estava fazendo. Meu sentimento é de muito orgulho. Eu gosto muito de Ivete até hoje e fico muito orgulhoso a cada passo estrondoso que ela dá. Quando pensamos que Ivete chegou ao máximo, lá vem mais escada pra ela subir. 

CH: Mas naquela época vocês tiveram um relacionamento amoroso. Como foi conciliar isso com o trabalho?
JC:
Nós namoramos durante quase quatro anos. Isso fluía normalmente, como qualquer outro namoro. Mas, se por acaso a carreira de Ivete atrapalhou o namoro de Jonga, que ótimo né? [rsrsrs]

CH: Você foi sócio do Eva em um determinado período. Você sente falta dos seus tempos de bloco?
JC:
Não. Eu saí em 2000 do Eva, fechando um ciclo de vinte anos a frente de blocos. Durante todo esse tempo eu fui diretor artístico e diretor de marketing de um grupo que eu adoro. São todos meus amigos e até hoje estou muito ligado a eles, tanto que eu produzi os dois DVDs do Eva. Assim que saí do Eva eu tive uma curta passagem pela Chica Fé, na época de Saulo Fernandes; então minha relação com Saulo também é muito grande. Os diretores atuais do Eva são meus amigos particulares, porém eu não sinto falta desse trabalho. 

CH: Qual o motivo de sua saída do Eva?
JC:
Ah, eu achei que foi desgaste. Estava cansado daquilo e já queria fazer outras coisas. Minha saída aconteceu numa época em que o Eva também não tinha dado certo com Emanuelle, e eu me senti muito cansado. Foi o final de um ciclo mesmo. Eu saí para outras empreitadas. Fui morar em São Paulo, entre outras coisas. Não sinto falta do trabalho à frente de bloco. Continuo trabalhando incessantemente com música e com comunicação. Estou animadíssimo como se tivesse vinte anos.  

CH: Como você analisa o cenário da música baiana em relação aos outros estados do Brasil?
JC:
Eu não chamo axé de música. Eu acho que o axé foi um movimento como o tropicalismo e a bossa nova. Mas um movimento que já teve seu tempo e já foi, porém ajudou a solidificar e amadurecer a música baiana. No final da década de 80, o rock brasileiro não se tornou popular, se transformou num rock alternativo, de gheto. Isso abriu uma brecha muito grande para o axé. O axé é a música de comportamento rock’n roll do Brasil atualmente. Acho que a música baiana contemporânea, que é riquíssima em percussão, está num momento maravilhoso. Cada dia mais para cima, extremamente situada e amadurecida. Está num momento muito bom.

CH: Na época do Eva foi você o precursor de várias novidades e a criação dos abadás marcou bastante isso. Como você avalia a criatividade das pessoas que estão à frente dos blocos e que ajudam a realizar o carnaval baiano?
JC:
Está muito parado mesmo. Eu sinto uma necessidade de mudança, de renovação. Tem que sacudir um pouco, pois eu acho que a fórmula usada já está muito repetitiva. Os blocos antes se preocupavam muito com o próprio bloco e menos com os artistas. Mas depois do sucesso dos artistas baianos o bloco de carnaval ficou em segundo plano; o artista é o principal. Antes eu encontrava grupos em São Paulo que queriam sair nos blocos, independente das atrações. Eles tinham uma grande identificação com o bloco e o bloco se preocupava muito com isso. Hoje em dia as pessoas dizem: vou sair com Chiclete, com a Daniela, com Ivete. O ícone hoje é o artista e não o bloco. Eu acho que está precisando realmente de uma sacudida, porque está muito chato mesmo.

CH: No contexto da música baiana estão ganhando força o pagode e o arrocha. Qual sua opinião em relação a esses novos ritmos da música baiana?
JC:
Eu gosto muito dessa diversificação, dessa mistura e da falta de pudor. Não da falta de pudor das letras, mas da ousadia da diversidade. Hoje em dia, tem bandas misturando o hip-hop com o pagode e o samba, tem bandas que misturam diversos ritmos. Eu gosto muito dessa falta de responsabilidade musical. O que acontece é que todo o movimento tem coisas ruins e coisas boas.

CH: Nesse tipo de movimento qual banda você pode citar como uma referência em qualidade musical?
JC:
Eu considero o Harmonia do Samba uma das melhores bandas de samba do Brasil. Eles são grandes músicos e têm um som muito bom. Está surgindo também uma banda chamada Sam Hop, de Bambam, que mistura o hip-hop com samba. Tem muita coisa boa na Bahia e naturalmente muita coisa ruim. O arrocha, que nada mais é do que um bolero acelerado, pode tomar conta se tomar um pouquinho mais de cuidado com a qualidade. Isso porque é uma música romântica, semelhante ao bolero, e isso apaixona qualquer brasileiro ou qualquer latino-americano. Eu acho perigosíssimo. Tomem muito cuidado com isso, porque pode estourar mesmo. Mas eu acho muito legal e muito bacana.

CH: O que você pensa sobre o preconceito que há com o axé music?
JC:
Eu morei em São Paulo de 2001 até meados de 2003. Às vezes eu ia numa festa da agência de publicidade e encontrava muita gente discutindo sobre música. E sempre as pessoas falavam que o axé era uma “merda”, que o axé era horroroso. Um dia eu aproveitei um momento desses e disse que o axé era mesmo “ruim”, e indaguei se eles gostavam de Ivete, de Bell, de Durval. Todos eram fãs desses e de outros artistas baianos. Isso prova que eles fazem uma confusão em torno do axé. Isso porque nas TVs locais de São Paulo, qualquer cantor com um cavaquinho em punho e com duas dançarinas de fio dental era denominado como a mais nova banda de axé. Isso foi uma confusão. Como já falei, o axé foi um movimento muito importante, mas a música baiana contemporânea tem coisas maravilhosas, que são muito misturadas. É uma word music “tupiniquim” fantástica. É uma produção pop que existe aqui na Bahia e é muito boa.

CH: Depois dessa vida corrida de trabalhar com artistas de peso, você agora se dedica a alguns projetos. O “Música Falada” é um deles. Como surgiu essa idéia?
JC:
O “Música Falada” surgiu do nosso programa aqui na rádio Metrópole, que Fernando Guerreiro, André Simões e eu apresentamos das 13 às 14h todos os dias, o “Roda Baiana”. Nós queríamos fazer um projeto que se lembrasse ensaio da TVE e que chamasse os nossos grandes ícones de massa para uma representação íntima junto com o público, e que respondessem perguntas e tocassem as coisas que gosta, com uma banda reduzida. Foi um sucesso total Ivete, Daniela e Saulo. Esse ano, já estamos fechando a grade. Devem se apresentar Durval, Bell e Brown. Eu defino o “Música Falada” como uma diversão e uma descoberta profissional muito grande. O projeto veio preencher uma lacuna, em que precisávamos movimentar o íntimo desses artistas.

CH: E no rádio, como foi seu início?
JC:
Eu tinha um programa chamado Pop Axé, com Jefrey Athaide, que começou na Aratu e depois foi para a Transamérica. Jefrey continuou durante algum tempo e eu parei. Então eu recebi o convite de Fernando e de André e então eu vim fazer o Roda Baiana, que está uma diversão maravilhosa.

CH: Quais projetos você tem em mente?
JC:
Eu fiz, no ano passado, a EME XXI, que representa a mulher no século 21. Esse projeto, que é a união de Márcia Short, Carla Visi e Cátia Guima, me dá uma prazer muito grande. Inclusive estamos produzindo uma peça teatral musical com elas. Será um espetáculo musical. Estamos fazendo várias coisas interessantes no que se refere a eventos e promoções através da “Meio de Campo Projetos e Soluções Artísticas”, que eu fundei com Andrezão (Simões).

Por Rafael Albuquerque

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