Márcio Mello diz que a música baiana é preguiçosa e que não entende de rock
A maior indefinição musical baiana tem nome e sobrenome: Márcio Mello. Para tentar entender um pouco dessa mente, que não para de maquinar, a Coluna Holofote se imbuiu e em cerca de 40 minutos bateu um papo descontraído com esse verdadeiro artista. Quem o acompanha sabe dos seus sucessos também como compositor, a exemplo de "Nobre Vagabundo" e "Esnoba", sendo que deste último, curiosidades foram reveladas para nós, em primeira mão. Além de falar de sua produção constante, Mello diz não saber nada de rock, desconsidera o axé music como arte, esboça comentários sobre o pagode baiano e explica como consegue viver sem se envolver diretamente com a indústria cultural e ser independente.
Fotos: Tiago Melo/ Bahia Notícias

"A música 'Esnoba' foi para uma figura que eu queria comer na época, da qual eu estava envolvido sentimentalmente"
CH: Para começar esse bate-papo eu quero que você se defina: Quem é o artista Márcio Mello?
MM: É um contador de histórias amorosas, é um sonhador, é uma figura que está cheia de vontade de fazer coisas. Que tem uma alma de criança. Dizem, no candomblé, que eu sou de ogumedé, que é um santo, um principezinho... Então, estou sempre buscando coisas... Eu sou assim, estou sempre atrás do novo, mexendo com coisas “futucando” coisas. As coisas que eu estou concordando hoje, amanhã estou discordando... Acho que eu sou um bagunceiro, na verdade.
CH: Por ser dessa forma você se considera multifacetado
MM: Olha, eu sou um cara buliçoso. Eu tento trabalhar com muitas coisas. Não é que eu trabalhe. Seria até pretensão minha dizer que eu trabalho que eu tenho propriedade para mexer nas coisas todas que eu tenho vontade. Mas eu sou uma pessoa que sou curiosa. E uma pessoa quando se torna curiosa está sempre buscando uma identidade no por vir. O que eu sou hoje, com certeza, não serei amanhã. Não sou aquela figura que chega para você e diz: 2009 eu estou fechado para isso e 2010 eu tenho que... Não, 2010 é outra história. Não sei o que eu vou fazer, em 2010, nem que tipo de música eu vou estar absorvendo... Hoje eu só consigo falar muito do que eu sou hoje. Do que eu fui, também não sei falar e do que eu serei, muito menos.
CH:Não há então uma ligação direta com a indústria cultural. Você não está preocupado em produzir para vender...
MM: Não. De forma alguma. Eu aprendi muito cedo que o fato de você criar uma expectativa em função do mercado é sempre frustrante. Eu já tive contratos com gravadoras, já tive contratos com empresas grandes e foi frustrante assim, porque eu vi o que eu estava fazendo no momento com auspício de uma vida promissora que não existia, era tudo ilusão. O mercado é uma coisa muito ilusória. Porque depende de grana. Grana é aquela coisa do capital, sua música só se torna funcional a partir de quando ela tem o dinheiro envolvido. E não acredito que a arte, que a música, dependa de dinheiro para sobreviver. A arte sobrepõe a isso. Haja vista artistas que só depois de falecidos se tornam famosos. Músicas que você vivencia hoje e que só depois vem o reconhecimento...
CH: Aconteceu algo assim com você, não foi?
MM: Sim, por exemplo, a música que o Moinho gravou minha. Tem 12 anos a música Esnoba. E quando eu fiz tinha mostrado para algumas pessoas, até para a própria Emanuelle, ela ouviu porque estava fazendo um disco pela Sony. Ela ouviu, foi quando ela pegou a música e disse “Oh, eu quero”. Só que não deu em nada, foi uma brincadeira. Naquela época eu tinha feito, não sei nem pra quem foi...
CH: Mas a música foi direcionada para alguém...
MM: Não pra algum artista... Foi direcionada para alguma pessoa. Uma figura que eu queria comer na época, da qual eu estava envolvido sentimentalmente. Então a música só foi “funcionar” depois de um tempo. Então assim, falar de mercado, colocar música dentro de mercado é complicadíssimo. Você erra muito quando se coloca.
CH: Você defende o viés da arte pura, isenta do fim comercial, é um artista independente. Mas como você faz para se manter?
MM: É milagre. A gente vive de milagre. O artista vive de milagre.
CH: Sim, mas quais são as preces do artista para ser digno desse “milagre”?
MM: Olhe. Eu sou um artista que tem uma obra com volume muito grande. Já fui gravado por alguns artistas. E meu trabalho ele abrange outro mercado. Ele não se direciona tão somente à música. Eu trabalho com teatro, faço trilha para espetáculo de dança e tenho uma renda bacana de direitos autorais. O meu volume de obra é muito grande. Eu estou compondo sempre. Estou sempre soltando uma coisa na internet. Música minha toca lá na Europa, toca bem. Hoje com a possibilidade da internet, do mundo virtual, eu posso lançar hoje e ter não sei quantos mil dowloads num site desses... Então assim, a música vai se movimentando e o dinheiro vai caindo.. Eu já acho que é um milagre... Minha mulher diz pra mim, você fica em casa sem fazer p#&&@ nenhuma e ainda recebe dinheiro pelos correios (risos).
CH: Quantos anos para contar essa história?
MM: Rapaz, eu sempre vivi de música, não sei nem a cor de uma carteira de trabalho. Claro que eu sei por que não sou ignorante... Eu acho que é azul, né?
CH: Não. É verde.
MM: (Risos) Então assim. Na minha época eu tirei a carteira de trabalho faz 25 anos. Eu nunca tive uma assinatura. Não tenho. Então é assim... Tem 25 anos que eu vivo desde aquele primeiro cachê que ganhei quando eu tocava em bar. Não existia nem FM, era tudo AM. Não existia rock and roll, era muito verde... Aqui na Bahia então... Tinha uma galera que curtia Camisa de Vênus, mas não tinha aquela coisa de se fazer o rock, aqui na Bahia.
CH: Li em algum lugar que a música lhe proporcionou gostos e desgostos... Quais são eles?
MM: Olha, a música me trouxe muito gosto de conhecer pessoas maravilhosas e o desprazer de conhecer outras. Música é um sonho. Todo guri quando começa a trabalhar com música tem uma bandinha de fundo de garagem ele tem um sonho. E, dentro desse sonho, voltando ao mercado, o sonho cria uma expectativa até de amizade afetiva com as pessoas. E, no por vir, você vê que não é nada daquilo. Você vê que não é nada daquilo. O cara está ali para lhe sacanear, ou para ouvir sua música e dizer que é uma merda. E você acaba tendo inimizades com isso. Você vive no seu sonho, você aposta muito na possibilidade de se tornar real. Esse é um desgosto...
CH: E o prazer?
MM: Ah! É de conhecer pessoas maravilhosas que passaram pela minha vida: Renato Russo, Cássia Eller, foram pessoas que eu tinha ligação. E foi maravilhoso conhecer essas pessoas, entendeu? O prazer de poder viajar, me divertir. Eu perdi um pouco essa diversão porque eu perdi minha turma. A minha turma musical ela se desfez muito precoce, então eu fiquei meio que um solitário punk, perdido diante disso daí. Meus amigos da década de 80, faleceram, ou deixaram de fazer música, ou ficaram ricos e me causaram até decepção por que deixaram de ser meus amigos....
CH: E ouvir o pagode baiano, para Márcio Mello, é desgostoso?
MM: Não é desgostoso porque eu não ouço. Na verdade não faz parte de meu cotidiano. Ouço muito esporadicamente, quando estou no carro é impossível botar no carro e não ouvir. Ou o vizinho coloca oito horas da manhã de domingo... Então não chega a ser desgostoso.
CH: Seu grande sucesso como compositor é Nobre Vagabundo, gravado por Daniela Mercury. Você pensa em produzir outro?
MM: Não sei por que a produção flui. Então não tem como prevê... Quando Nobre Vagabundo estourou foi impressionante porque Marina Lima me ligou, me ligou empresários de Gal Costa... Na verdade, foi um acidente ter acontecido. Ela ouviu, foi um acidente. A música não ia nem entrar no disco. Não queriam que entrasse no disco porque achavam que a música não tinha nada a ver com ela. E acabou que entrou. Aí as pessoas ficavam me pedindo música e eu mandava... Aí as pessoas respondiam “Ah! Mas a gente queria tipo aquela que você mandou para Daniela”.
CH: Ela se interessou pela versão original?
MM: Sim original. Eu gravei voz e violão. Ela ouviu pediu para gravar. A produção não gostou, achou lenta. Acabou que a música meio que puxou o disco, na época.
CH: Para você qual a identidade hoje do rock baiano?
MM: Eu acho que o rock baiano vive numa eterna busca. É aquela coisa de você buscar e negar. Quando você acha, você nega. Eu ouço bandas daqui de Salvador e é impressionante como as pessoas são difíceis de entender a sua identidade como baiano. Entender a sua inquietude baiana. O que não aconteceu em Pernambuco. Não que eu goste de Pernambuco, porque a única banda que gosto é Nação Zumbi. Eu gosto e a forma que eu vejo o rock baiano hoje, acho que falta um pouco de identidade. Um pouco de se assumir como baiano. O Raul fez isso com muita propriedade. A minha música não tem uma identidade de rock and roll, mas ela tem personalidade. As pessoas me questionam dizem que não é rock o que eu faço, nem música baiana. Mas, realmente, não é. É uma música minha. O rock da Bahia ainda é verde. A Bahia é muito verde, está se achando.

"Eu pensando com a cabeça de empresário, o axe é fantástico. Já como artista, é uma merda"
CH: E o ideal para você seria o quê?
MM: O ideal é a liberdade. É você fazer sua música como é de fato. O artista hoje em dia não pode agredir, não pode falar mal, não pode ter uma estética diferente. Às vezes você tem um diamante bruto que o tempo tem que lapidar. Não pode senão não entra no mercado, enfim... Eu me sinto muito sozinho na música baiana. A minha vida é assim... Você não vai me ver em turmas, no meio dos artistas. Por exemplo, vamos fazer um festival de música de... pagode, não participo. Vamos fazer um de reggae, não participo. Não participo de festival de rock. Então assim eu sou um solitário punk. Foi daí que veio a onda de eu colocar o nome do disco solitário punk. Meu disco eu gravei sozinho.
CH: Como foi isso?
MM: Foi fantástico, por que você não tem muita referência. É complicado por que não tem uma figura para dizer aquilo ficou bom, aquilo não. Claro que os músicos gravaram, mas quem orquestrou aquilo ali fui eu. Eu criei o universo e achava tudo maravilhoso. Daqui a pouco eu achava tudo ruim. Aí comecei a criar uma sonoridade para o disco. Nisso, eu me reencontrei com minha adolescência. Fiz músicas que eu adoro, como “na boca e no peito” que fala de sacanagem. Foram mais de dois anos para eu fazer o disco.
CH: Deixando o rock e partindo para a música da Bahia. Qual é a avaliação que você faz da música baiana?
MM: Acho a música baiana preguiçosa, não os artistas. A música, os artistas são muito mais interessantes, muito mais inteligentes do que se mostram aqui. Tem gente que parece que paralisa. Não sou o senhor da razão, mas é notório. Acho que a música baiana é preguiçosa. Embora a referência que se tem de música baiana é fraca. A partir do momento que se mostrar trabalhos mais interessantes isso vai mudar.
CH: E com relação ao axé? Há uma corrente de críticos que deprecia o ritmo. O que você pensa disso?
MM: Eu levei muito tempo tentando entender o que é o axé music. Cheguei à conclusão de que se trata de uma grande evento de sucesso empresarial. Não é um evento artístico. Eu sempre pensei o axé com minha cabeça de artista, enquanto eu deveria pensar com minha cabeça de empresário. Eu pensando com a cabeça de empresário é fantástico. Já como artista, é uma merda. A cabeça de artista não existe. È empresarial. Os empresários são grande sucesso. Eles são muito maiores do que o artista. O artístico é zero. O empresarial é fantástico. Hoje eu tiro o chapéu para essa onda. Uma Cássia Eller quando morre, você não vai substituir nunca. A Banda Cheiro de Amor já teve 800 cantoras.
CH: O que você pensa sobre o que a mídia diz de você?
MM: Rapaz, a mídia diz tanta loucura da minha pessoa. Se eu for parar para pensar eu to ferrado. Estou exposto. A partir do momento que me entrego ao ridículo, estou cuspindo. Se vai marcar, ou se vai escorrer, pouco importa. Os olhares são diferentes e está valendo. Quando eu era mais jovem, mais novo ficava preocupado. Se falam que o que faço está uma merda, eu acho bacana... A gente aprendi com isso. Já me vi cantando aquela música bizarra, a “dança da tartaruga”. Aquilo ficava na minha cabeça e não saia. Fiquei uns seis meses com isso na cabeça.” Acrítica fala bem, fala mal. A galera de site de rock me odeia. Eu estou mexendo em vocês o que o rock and roll deveria mexer, que é essa discussão, essa brincadeira....
CH: Porque acham que você é pop?
MM: Eu não sei. Acho que é porque eles não conseguem ver que p#&&@ eu sou (risos). E eu não sou nada... Eu não entendo nada de rock and roll. Se você falar comigo aqui de dez bandas de rock, eu não vou saber falar... Eu passei muito tempo criando e quando a gente cria não tem tempo de ficar ouvindo música o tempo inteiro. Aqui, por exemplo, eu estou viajando nesses quadros (charges assinadas por Borega que decoram o BN) e já estou pensando em alguma coisa assim para o cartaz do meu show. A música ela vem muito mais do que eu vejo do que eu ouço. Por eu não sentar no barzinho para falar sobre determinadas bandas... Me sentar com aquele grupo chato falando de rock and roll... Não gosto de tribo, minha música atinge muita gente. Minha cabeça meio que Jorge Ben. Ele faz o trabalho dele. Está ali. Por isso a obra dele consegue ser tão expressiva.
CH: O solitário punk seria uma resposta a essas críticas que tecem a você?
MM: Sim. Ao mundo que eu vivo. É uma resposta sim. Não me cobre tribo que eu sou solitário. É minha loucura. Eu vejo a música na Bahia hoje... Onde eu me encaixo? Tento brincar. Eu sou o cara que vou ali jogar e não sei se sou o goleiro, se me pedirem para apitar eu apito... O que me interessa é a diversão. Com o pessoal do reggae tenho uma relação legal. Com o pessoal do Adão Negro, por exemplo, tenho uma relação legal. O rock já é mais radical. Esse público me curti pra caramba. Fica naquela: “Pô velho você tem que ir para o Festival de Verão...” receber aquela mulecada toda de preto no meu show. Eu penso... Não queria nem essa onda, mas já estou nessa viagem então eu vou curtir.
CH: Esse é o grande barato da sua música?
MM: Com certeza. É isso, é não levar muito a sério. Não levantar bandeira. Eu encontro um cara que não via há algum tempo e pergunto a ele o que está fazendo... Ele responde dizendo que está numa bandinha de pagode, para ganhar dinheiro... Não da para tocar rock. Eu repondo na hora: Não diga isso, você nunca foi rock and roll. Não existe isso. Quem é, é. Eu sou um cara que troca uma moto por uma bicicleta.
Por Marcos Russo
