Conselheiro do Carnaval fala sobre as novas mudanças e critica duramente a Central
Reginaldo Santos é o conselheiro do Carnaval. Sempre atento às manifestações nesta que é a maior festa popular do mundo, Reginaldo propôs a redução do percurso do circuito Osmar e mesmo diante da críticas, ele sustenta sua posição e explica em que essas alterações serão benéficas para o carnaval. O conselheiro diz que não pode pensar o carnaval para uma meia dúzia, jogando indireta aos sócios da Central do Carnaval que vendem bem os seus produtos e são contra essa mudança para 2010, já que comercializaram muitos dos seus abadás como se o percurso fosse o de sempre. "Eu tenho mais de 20 anos de carnaval e eu nunca vi nenhum bloco de carnaval que vendesse abada por metro do circuito", alfineta ele. E ele garante que não está só nessa afirmação: "A cantora Ivete Sangalo já disse que para ela o mais importante é o carnaval e não o tamanho do circuito". Confira, na íntegra, esta polêmica entrevista!

"Não se pode pensar em mudança sem oposição"
Coluna Holofote: Quais são as principais mudanças para o carnaval 2010?
Reginaldo Santos: O que a gente está pensando em fazer, na verdade, é criar uma condição melhor para o carnaval e para quem faz o carnaval. Por isso, para 2010, nós estamos reduzindo o percurso do circuito Osmar, que a partir do ano que vem começará no Campo Grande e finalizará na Praça Castro Alves.
CH: Vocês pretendem transformar a Praça Castro Alves em algo mais glamouroso com camarotes e imprensa. E o folião pipoca?
RS: Quando se fala em camarote ali, se fala no recuo. É preciso se observar que a Praça, ela tem uma estrutura que vai até a balaustrada ali e que tem um espaço enorme, que não é utilizado no carnaval. E que essas estruturas, logicamente que elas serão por ali, quer dizer, é um projeto que vai ser elaborado não excluindo pessoas. Muito pelo contrário, o que a gente quer lá são as pessoas. Isso é uma coisa muito pelas pessoas.
CH: E o espaço da Carlos Gomes será aproveitado de alguma forma?
RS: A Carlos Gomes está sendo pensada como um refluxo. Porque tem que ter uma via que se possa andar diferente do que existe hoje, que é no contraponto da festa, sofrendo empurrão, incômodo. O que se está pensando em fazer é dar qualidade ao circuito, fazer com que a manifestação espontânea que está aí reprimida há anos, apareça. Hoje, você não vê nada de engraçado no carnaval, porque não tem como, não tem espaço para as pessoas se organizarem e participarem do carnaval. A Carlos Gomes, ela vai permitir performances, ela vai permitir a liberdade daqueles que efetivamente têm seus projetos e que estão reprimidos mesmo, a verdade é essa. Porque, ou você está organizado dentro de uma estrutura de bloco e se organiza para sair numa fila ou você não brinca carnaval.
CH: E os blocos afro? Tradicionalmente, eles saem do Pelourinho e seguem até o Campo Grande pela Carlos Gomes. E agora? Como isso vai ficar?
RS: Os blocos afro, primeiro acaba o contra fluxo, que é uma coisa que prejudica tanto o circuito quanto os próprios blocos, porque a grande maioria deles saem dali do Centro Histórico e quando chegam no Campo Grande já estão praticamente, às vezes até, sem o próprio associado, devido às interferências que tem nos circuitos, porque são horas que passam ali e essas pessoas não suportam aquele percurso enorme e com interferências. A Carlos Gomes, ela amarra o circuito ou porque acontece alguma coisa, ou porque, tão somente, os blocos têm compromisso com o Campo Grande e depois que eles assumem a Avenida Sete, ninguém tem mais compromisso com nada. Vou chegar lá no final, mas não sei em quanto tempo, então eu faço o tempo que eu quero. E os outros blocos? E os outros todos que estão atrás dessa fila? Como ficam? Então, é uma coisa que a gente está buscando, é dar agilidade, fluxo ao circuito para que se oportunize as pessoas.
CH: Então, o Gandhi, por exemplo, vai continuar passando pela Carlos Gomes?
RS: O Gandhi não atrapalha nada nesse caso. Muito pelo contrário, o Gandhi, tradicionalmente, sai dali e são peculiaridades que a gente tem que respeitar. Então, no dia que o Gandhi sai, por exemplo, hoje, quantos blocos estão na Avenida? Inúmeros blocos, né? Confrontos como já houve com o Chiclete, inclusive. Então quer dizer, a partir daí, o Gandhi vai sair como sendo o único bloco que vai sair dali e que vai passar pela Carlos Gomes no dia dele. Então, qual o atropelo que ele vai ter para fazer aquilo ali? Ele vai prejudicar em quê? Em nada, porque ele tem a Carlos Gomes livre para ele sair e desfilar, passar no Campo Grande e vim se apresentar na Praça Castro Alves, assim como o Ilê, que tradicionalmente sai dali, o Olodum e o Muzenza, que também sai dali, me parece. Então, é um número pequeno de blocos que vão sair em dias diferentes e isso não vai atrapalhar nada do circuito.
CH: Com a redução do percurso, o que muda com relação à captação dos recursos, já que as empresas terão um espaço menor para divulgar sua marca?
RS: Nunca foi problema de percurso a captação de recursos. Muito pelo contrário. O que você vai ter em 2010 é um novo espaço com um engenho maravilhoso para a exposição de marcas e que, efetivamente, vai estar de frente com o carnaval, porque se você imaginar que o carnaval vem de frente pela Avenida Sete e que vai parar de frente para a estrutura da Praça Castro Alves. Então, o que está se criando é um maravilhoso e importantíssimo engenho.
CH: Sim, mas é óbvio que o tempo de exposição passa a ser menor.
RS: Não, mas não é a diminuição do tempo. Todas as pessoas que vêm de lá vão parar na Praça, vão estar na Praça, vão interagir com ela, efetivamente. Você olha mais para a frente ou para a lateral? Eu olho mais para a frente, as pessoas veem a coisa que está à sua frente. E justamente, a Praça Castro Alves, neste contexto, ela vai dar o impacto de frente, ela vai estar recebendo de braços abertos o carnaval que está chegando até ela, o bloco que está chegando até ela e aí é aonde esse impacto daqueles que vão expor a sua marca ali, vai estar muito mais a visão dos que ali chegam do que propriamente como é feito e colocado nas laterais. Então, não atrapalha.
CH: A Central do Carnaval é contra essa mudança para 2010. Eles alegam que já comercializaram muitos abadás com o percurso completo. E aí, como fica isso?
RS: Não se pode pensar em mudança sem oposição. E o carnaval não é composto só por uma categoria de bloco e, sim, de diversos segmentos e tem segmentos que precisam mesmo ser oportunizados e principalmente o segmento que cuida da cultura mesmo, do carnaval cultural, das matrizes africanas. Oficialmente, eu não conheço nenhum problema da Central do Carnaval. Central do Carnaval é uma empresa que trata dos negócios do carnaval, de determinados blocos e que, na verdade, é composta por diversos cliente, vamos dizer assim, que são os blocos. E esses blocos estão apoiando o projeto.
CH: Mas recentemente saiu uma declaração no blog do colunista Osmar Martins de Geraldo Albuquerque, que é um dos sócios da Central do Carnaval, dizendo que eles apóiam essa mudança, mas não para o ano de 2010.
RS: Olha só, o que se sabe todos os anos é da dificuldade enorme que todos os blocos têm de vender abadás antecipadamente. O primeiro ponto é esse. Depois, a questão do circuito, eu tenho mais de 20 anos de carnaval, e eu nunca vi nenhum bloco de carnaval que vendesse abada por metro do circuito. Vende é pelo artista que tem, pela qualidade que o bloco oferece, pela garantia até da sua existência mesmo, da sua participação no carnaval, porque já tiveram épocas que você comprava o carnê e nem sabia se o bloco ia conseguir sair na rua. Hoje, não. Os blocos estão consolidados. Independente de um número pequeno de blocos que trabalha muito fora e que garante, com toda certeza, acima de 50% do seu público com esse público de fora, os outros tantos blocos que vivem mais do público de Salvador, esses blocos vendem é em cima da hora e todo mundo sabe disso, não é novidade.
CH: Você não acha que o folião que já adquiriu o seu abada vai se sentir lesado com a redução do percurso?
RS: Eu acho que não. Eu acho que ele não vai se sentir lesado porque ele não compra, eu volto a dizer, pelo metro quadrado. Ele não se sente lesado de carregar, por exemplo, na camisa que compra, no abada que compra, a marca.

"Agressão é o associado ser tratado como animal na curva do Sulacap"
CH: Mas aí, não seria propaganda enganosa, já que ele comprou o abada achando que sairia o percurso todo?
RS: Não, não. Porque aí é uma coisa institucional. Isso não é para o bloco Camaleão. Isso é para todos os blocos, não é o bloco Camaleão. Isso é uma coisa que é para o carnaval. A cantora Ivete Sangalo já disse que para ela o mais importante é o carnaval e não o tamanho do circuito. E é assim que a gente vê. Eu acho que, considerar agressão porque institucionalmente a cidade está modificando a estrutura física que não prejudica ninguém que, pelo contrário, mais agressivo, se a questão for a agressão, é o associado, por exemplo, ser tratado como animal na curva do Sulacap, quando tem ali a subida e que ele é verdadeiramente empurrado para andar mais rápido para que o trio suba sem queimar a embreagem. Eu acho que é uma agressão você arrear as cordas dos blocos praticamente numa situação onde hoje, sem dúvida nenhuma, é um ponto crítico, que é ali nos Aflitos, naquele confronto existente sempre com o público que desce e o público que sobe. Isso são pontos conflitantes mesmo e agressivos. Agressivo para mim é você terminar o carnaval sem nenhum glamour.
CH: Então, você não concorda que, já que se reduziu o percurso, que se reduza o valor cobrado no abada também?
RS: Olha, se isso for uma coisa que enseje, os blocos reduzirem o valor ter mais associados, viva! Porque a maioria está bancando para sair. É preciso que se tenha o conhecimento do que é o carnaal. Tem meia dúzia que estão muito bem, que vendem bem, que vendem antecipado e tem um número muito grande daqueles que não vendem e nós não podemos pensar o carnaval pra meia dúzia, nós temos que pensar o carnaval para a cidade.
CH: Essa decisão foi unânime?
RS: A decisão do Conselho foi por unanimidade. O que houve, na verdade, você falou aí da questão do Camaleão, me parece que o Camaleão incorporou, de alguma forma, um projeto que teve de um vereador, que o carnaval saía da Praça da Sé, descia a Praça Castro Alves e ia subir pelo São Bento. Eu não consigo imaginar um bloco com 5 mil pessoas, um trio com 40, 50 toneladas subindo o São Bento, quando a gente verifica que ali na subida da Carlos Gomes, como eu disse anteriormente, já é um ponto conflitante, terrível para se fazer o retorno, imagine um trio com os seus associados, com cerca de 3,4,5 mil pessoas subindo o São Bento? E nesse projeto, também, estaria aí excluído a Rua Carlos Gomes. Então, o que se está fazendo é uma coisa que há dois anos foi pensada. Não é um projeto novo.
CH: Diante de tanta polêmica, existe alguma chance de se voltar atrás dessa decisão e estabelecer isso a partir de 2011?
RS: Se depender de mim, não. Porque, para 2011 vai ser também a mesma coisa. A estrutura do circuito Barra/Ondina quando foi organizada também teve polêmica e está lá.
CH: Mas é que se fosse validado somente a partir de 2011 pelo menos, os abadás já seriam vendidos com o folião sabendo dessa redução do percurso.
RS: Não, não se vende, não. Esse papo aí, para mim, é papo furado. Não é, não existe. Abada não é vendido por metro quadrado, eu já disse.
CH: Mas na prática não é bem assim, Reginaldo. Você acredita, sinceramente, que um folião que paga quase 2 mil reais num abada do Camaleão, por exemplo, para sair na Avenida, sendo que o Nana Banana, que também tem o Chiclete com Banana como atração, custa quase a metade está pagando somente pela atração ou por um tempo maior curtindo aquela atração?
RS: Não, não, não. Não existe essa diferença de valor. Não existe isso no negócio abada, no negócio carnaval, definitivamente, não existe.
Por Fernanda Figueiredo
