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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

Contando seus casos, Flávio José confessa que está com a auto-estima abalada

Com a simplicidade e humildade de um mestre, ele recebeu a Coluna Holofote para uma entrevista comovente e profunda. O contato foi pouco, alguns minutos apenas, mas o suficiente para desvendar o nada misterioso, Flávio José. Sem respostas fabricadas e com muita serenidade, um dos maiores nomes do forró contou-nos os seus “casos e coisas” revelando muitos detalhes da sua vida pessoal e profissional. Problemas que não transparecem quando ele sobe num palco e ecoa o som da sua sanfona levando alegria para os forrozeiros de plantão, mas que existem, são muitos e vêm afetando a auto-estima deste ícone da música nordestina. E nós, claro, fazemos questão de dividi-los com você, leitor.


"Eu lamento profundamente essa situação e fico triste, com a auto-estima abalada"



CH: O seu primeiro contato com a música foi logo através do forró?
Flávio José:
É. Realmente foi com o forró.

CH: Quando e como aconteceu esse contato?
FJ:
Aos meus 5 anos, eu vi Luiz Gonzaga fazendo um show em praça pública e eu me encantei com o acordeon e pedi um para o meus pais. Ganhei um acordeonzinho e aos 7 anos eu já estava começando a tocar alguma coisa. Aos 10 eu já estava tentando cantar e daí prossegui no forró por muito tempo. Depois formei uma banda de baile com meus dois irmãos e alguns amigos lá da minha cidade e, em seguida, fui funcionário do Banco do Brasil por 3 anos e foi quando a minha carreira musical, de fato, começou e aconteceu. Em 1995 eu saí do banco e tive mais tempo para me distanciar da minha região e pude vir para a Bahia para divulgar o meu trabalho. Também pude sair para tocar no Rio, em São Paulo, ou seja, pude ficar mais solto para fazer a minha carreira acontecer.

CH: Quais foram as suas influências musicais?
FJ:
Olha, inicialmente foi Luiz Gonzaga, mas eu tive outros também.

CH: Quem?
FJ:
Aos 5 anos me encantei com Luiz Gonzaga, mas com uma certa formação eu me apaixonei pelo Trio Nordestino na época de Lindú, que todos os anos era sucesso e nessa época a gente já tocava em banda de baile e todos os anos a gente tinha obrigação de aprender todos os sucessos de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino. Porque, naquela época, forró só acontecia em maio, junho e julho. Maio para aprender as músicas de sucesso, os lançamentos; junho para viver a festa e julho para fazer a ressaca do São João. Eram somente 90 dias de forró e esse tempo passou e hoje a gente faz forró o ano inteiro.

CH: Hoje, você ainda se inspira em alguém ou alguma banda?
FJ:
Olha, eu gosto de vários artistas que fazem o segmento que eu faço, mas banda não, porque banda não toca forró. Muitas vezes tem alguma música romântica ou alguma coisa interessante, mas para dizer que é forró que a gente faz, todo mundo sabe que não é. Mas eu prefiro ainda ficar inspirado no trabalho e no ser humano que é Dominguinhos. Quando existia Luiz Gonzaga, eu dizia que Luiz Gonzaga era o nosso pai e Dominguinhos era o irmão mais velho. O pai se foi, então, o irmão mais velho passou a ser pai agora pra gente.

CH: Você se considera um clássico do forró, um legítimo herdeiro da arte de Luiz Gonzaga?
FJ:
Não, não... Eu me considero sempre um eterno aprendiz e uma pessoa que se destinou a dar continuidade à obra que Luiz Gonzaga deixou pra gente.

CH: São 30 anos de história no forró. Você já gravou quantos discos?
FJ:
São 8 vinis e 17 CD’s, totalizando 25 discos gravados. E participações em discos de amigos, isso aí, eu já perdi a conta, já (risos).

CH: Destes, tem algum especial? Pela história ou qualquer coisa do tipo?
FJ:
Olha, eu acho que o que marca, muitas vezes a gente, é o disco em que aconteceu o primeiro sucesso, né? E na época era um LP, aonde a gente gravou 10 músicas e só tinha um xote e era no outro lado do disco e foi a música de sucesso, “Que nem vem-vem”, uma música de Maciel Melo. Isso, eu tenho uma boa recordação, como tenho uma boa recordação também de “Caboclo Sonhador”, tenho recordação muito grata do disco “Tareco e Mariola”, que também já saiu em vinil e em CD, porque desse disco estouraram “Tareco e Mariola”, “A casa da saudade”, “Represa do Querer”, “Quando bate um coração” e “Um passarinho”, 5 músicas de sucesso.

CH: Existe alguma música sua que você considera “a música”?
FJ:
Tem, mas não tem sucesso nenhum. É uma música de um compositor lá de Pernambuco, Roberto, que se chama “Sem destino e sem concerto”. É uma música belíssima, que está no disco “Pra amar e ser feliz” e é uma música que eu amo de paixão, mas que não deslanchou.

CH: E sua preferência por esta música tem algum motivo especial?
FJ:
Tem uma história interessante, que quando eu era garoto, lá na minha cidade, no interior lá da Paraíba, tinham aqueles auto-falantes que, quando era assim, tipo, depois de 6 horas da tarde, umas 6:30, tocava sempre uma música chamada “Ave Maria”, de  Schubert, e todas as vezes que essa música começava a tocar no serviço de som lá da minha cidade, aonde eu estivesse, eu saía correndo, subia numa árvore e ia chorar , até o fim da música. E até hoje eu não sei dizer porque isso acontecia. E essa música “Sem destino e sem concerto”, ela tem muito a ver com a minha história daquela época e eu coloquei no arranjo que eu fiz na introdução dessa música, para complementar a minha história, exatamente um trechinho dessa “Ave Maria”, de Schubert.

CH: Você é paraibano, mas já se apresentou pelos quatro cantos do país. Em quais lugares você sentiu o forró mais forte no público?
FJ:
Olha, eu diria que hoje, a Bahia é o estado onde se curte mais forró, também pela demanda, né? Lá no nosso estado, na Paraíba, talvez não tenha um terço de cidades fazendo São João que fazem as cidades aqui na Bahia. Eu acho que, se nós formos contar lá na Paraíba e em Pernambuco 30 cidades que fazem São João, a gente vai ter dificuldade. Mas aqui na Bahia, pelo que a gente tomou conhecimento, eu acho que esse número deve, se não chegar, ultrapassar um pouquinho umas 100 cidades, no mínimo, fazendo São João. Haja vista que o estado é enorme e é por isso que o forró aqui é muito presente. Passou o carnaval aqui, o forró já começa e aqui é onde a gente tem uma aceitação muito grande e onde a gente faz 80% dos nossos shows, no mês de junho.

CH: O que você acha do público da Bahia, em especial de Salvador?
FJ:
Olha, eu acho um público maravilhoso, um público amigo, que adora o meu trabalho, que me acompanha há bastante tempo e quem, em toda vida morou aqui em Salvador, aprendeu a gostar de mim porque eu fui trazido para Salvador pelo pessoas do interior.

CH: Qual a relação?
FJ:
Porque eu não tocava em rádio aqui, sabe? Ninguém me conhecia e eu fazia muitas festas de São João em cidades do interior e você sabe que tem aquela coisa, uma pessoa uma vez me ensinou: quer estourar em Recife? Vai trabalhar no interior. E quem mora em Recife e gosta de forró é quem é do interior e a mesma coisa, essa mesma tática eu apliquei aqui em Salvador, aqui na Bahia. Eu mapeei as principais cidades que tinham São João em volta de Salvador e comecei a vir de todo jeito, marcar minha presença, mostrar o meu trabalho.

CH: E você lembra do seu primeiro show aqui em Salvador?
FJ:
Claro. O primeiro show que eu fiz aqui em Salvador foi uma loucura, muita gente, uma coisa assim... Muito gratificante para mim!



" Forró universitário foi um rótulo que colocaram em Falamansa"



CH: Aqui, é muito forte o forró chamado universitário. O que você acha deste tipo de forró?
FJ:
Olha, eu não conheço nenhum forró universitário, pra lhe ser sincero. Porque, o que eu vejo é Falamansa com uma sanfona, uma zabumba e um triângulo... Isso é pé de serra, é forró autêntico. Eu vejo Estakazero, que tem a mesma formação, tocando forró autêntico.

CH: E de onde você acha que vem essa denominação desse tipo de forró?
FJ:
Olha, eu sempre digo que essa questão de forró universitário foi um rótulo que colocaram em Falamansa, no lançamento da banda, para não haver uma contradição.

CH: Como assim?
FJ:
Porque a mídia do Sul nunca abraçou o forró da gente aqui do Nordeste, o pé de serra. E para eles não terem que mandar de lá pra cá o forró pé de serra, eles colocaram forró universitário pelo fato de, acho que porque talvez 3 componentes da banda sejam universitários. Mas isso não faz diferença. Eu acho que são universitários fazendo o que a gente faz, o forró pé de serra, forró autêntico.

CH: Aqui, a gente tem muito cantor de axé que, quando chega nessa época, vira cantor de forró. Na sua opinião, isso não acaba tirando o espaço dos forrozeiros legítimos?
FJ:
Acho que não. Não tira, não. A Bahia é enorme. Na Bahia, se tivessem mais artistas aí para somar, melhor. Eu acho até que assim, os contratantes não passariam muito vexame. Porque tem muitos contratados que se atrasam e aí não fechou outra atração e acaba ficando sem artista, sem show, sem nada, mas eu acho que isso tudo é válido e se os artistas da Bahia, chega o mês de junho eles gravam forró, eu acho que, de uma certa forma, eles estão colaborando com o movimento, dando a parcela de contribuição deles. Eu acho isso bom.

CH: O que é que você está preparando para a comemoração dos seus 30 anos de carreira?
FJ:
Olha, na verdade, a gente queria estar com o DVD pronto aí, né? Mas, infelizmente não deu...

CH: Por quê?
FJ:
Porque hoje, com a questão da pirataria, é inviável você investir do próprio bolso um valor para você montar o DVD. Um DVD onde Elba já pediu para participar, Fagner disse que quer cantar em homenagem a Seu Luiz... Todos demonstrando um carinho muito grande e tudo isso tem, de certa forma, custo de passagem, de hotel e a gente não tem mais como investir do próprio bolso para não ter o dissabor de, no outro dia do lançamento, ver a galera vendendo o DVD por 2, 3 reais e você nunca mais ter de volta aquele investimento.
CH: Vocês já tentaram patrocínio junto a empresas, ao próprio governo?
FJ: Olha, em 2006 a gente correu atrás de um projeto do Ministério da Cultura e em dezembro agora a gente teve a aprovação. Teve um “auê” muito grande aqui na Bahia, o povo dizendo “ó, o DVD agora vai ser gravado, porque o Ministério aprovou o projeto” e eu achava que havia uma facilidade muito grande desse recurso nas empresas. Primeiro porque a empresa que apoiasse, na próxima declaração de imposto de renda, uma boa parte desse dinheiro voltaria para a empresa. E também pelo trabalho cultural que eu desenvolvo.


" A gente passa tantos anos se dedicando à cultura pra manter viva a obra de Luiz Gonzaga"

CH: E vocês não conseguiram?
FJ:
Olha, quando recebemos a notícia da aprovação do projeto, preparamos um projeto de marketing pra levar para as empresas e fomos a umas 50 empresas, mais ou menos, na esperança de que alguma ou umas 2 ou 3 dividissem esse valor, um valor pequeno até, e a gente tivesse a oportunidade de fazer esse DVD. Até hoje, nós estamos em abril de 2009, nunca apareceu ninguém que desse um telefonema para dizer “olhe, eu estou, pelo menos, pensando”, que marcasse uma reunião, nada, nada, nada... Apoio, infelizmente, nós não tivemos ainda.

CH: E como você, como um artista renomado, se sente diante dessa “rejeição” das empresas?
FJ:
Eu lamento profundamente essa situação e fico triste muitas vezes, com a auto-estima abalada, porque a gente passa tantos anos se dedicando à cultura pra manter viva a obra de Luiz Gonzaga e na hora do apoio... É muito triste!


Por Fernanda Figueiredo

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