Denny - Timbalada
CH: Denny, sua relação com a música começou com a Timbalada ou você teve experiências anteriores?
Denny: Eu sou o caçula de cinco irmãos, no qual três cantam. Minha mãe tocava bandolim e meu pai tocava pandeiro. E como sou o caçula, fui aprendendo como tempo; costumo dizer que eu já nasci cantando. Me lembro que eu tinha uns oito anos e saí de casa escondido com meu irmão pra cantar junto com ele e quando chegava no outro dia, tomava uma surra. E aí eu fui crescendo e participei de um projeto sócio-cultural em Camaçari, que era voltado para crianças e adolescentes. E nesse projeto eu fazia capoeira, dança, teatro, curso de madeira e também cantava. E foi daí que eu deslanchei. A banda mirim de Camaçari imitava o Olodum naquela época. Fui cantando e com 12 ou 13 anos o Carlinhos Brown foi visitar o nosso projeto e foi recepcionado por mim. E ele gostou de minha voz. Naquele tempo a Timbalada realizava os ensaios no Cardeal e aí ele perguntou seu eu poderia ir lá dar uma ‘canja’. Respondi que poderia. Eu nem conhecia Carlinhos Brown ainda [rsrsrs], pois era muito pequeno e a Timbalada estava começado. Mas eu fui, cantei e a partir daí eu entrei na banda.
CH: Mas você já entrou cantando na banda ou participou de alguma oficina?
Denny: Já entrei na banda cantando. A oficina naquela época era a do fato, da realidade. Mas foi daí que comecei a cantar. Mas entrar e aprender na banda mesmo não deixa de ser uma escola.
CH: O que você aprendeu com os outros integrantes da banda?
Denny: Aprendi muitas coisas. Mesmo porque até então eu era um menino de Camaçari, interior, e não sabia nada da vida, nunca tinha vindo à Salvador. E minha experiência foi muito grotesca e ao mesmo tempo muito delicada. Porque eu era uma criança e fui aprendendo vendo as pessoas tocarem, as pessoas cantarem. Carlinhos me ensinou muitas coisas e eu fui aprendendo; não só a como cantar e tocar, mas questões de vida.
CH: Você conviveu com quais integrantes da Timbalada?
Denny: Já tinha Carlinhos, que foi o primeiro cantor da Timbalada, tinha uma figuraça que era Tadeu, tinha Ninha, e aí eu cheguei, depois chegou Patrícia, Xexéu e aí chegaram os outros integrantes.
CH: Como foi para você assumir a linha de frente da Timbalada? Foi uma surpresa?
Denny: Eu acredito ao longo dos 17 anos, vem acontecendo coisas na Timbalada que são muito naturais. Acho que o mais importante é a naturalidade e a simplicidade. Eu nunca pensei de uma dia cantar sozinho na Timbalada.
CH: Então não era uma pretensão sua?
Denny: Não. Nem minha, nem da equipe e nem de Carlinhos, até mesmo porque a Timbalada é um projeto musical, e todo projeto agrega pessoas; é um conjunto de pessoas. Então eu sempre fui cantando, aprendendo com A com B com C, com pessoas mais velhas que eu. Mas eu nunca tive pretensão de cantar sozinho.
CH: Mas como artista você nunca teve vontade de assumir os vocais de uma banda, independente de ser ou não a Timbalada?
Denny: Por incrível que pareça, na minha vida eu sempre cantei com outras pessoas. Comecei com meu irmão. Depois quando eu entrei no projeto da Timbalada, comecei a cantar com outras pessoas, depois chegaram mais duas e ficaram quatro pessoas. A minha vida sempre foi assim, com outras pessoas, com outros cantores. Acho isso muito legal porque você não pensa em si só, mas pensa sempre nas outras pessoas. Não é aquela coisa egoísta de dizer: eu sou o cantor da banda, eu faço e aconteço, eu sou estrela, coisa e tal... Talvez minha humildade e minha simplicidade tenham vindo daí, em eu estar sempre cantando com outras pessoas; acredito nisso.
CH: E agora que você está no comando da Timbalada, quais mudanças podemos apontar da saída dos outros componentes pra cá?
Denny: Bem, Timbalada é Timbalada. Pode estar no Japão, nos Estados Unidos, se você ouvir a Timbalada você vai identificar. Agora, o mundo muda e dá voltas. E a gente tem que andar antenado com as coisas. Acredito que hoje tem uma Timbalada muito mais madura musicalmente. No sentido de visão externa, a Timbalada sempre foi Pop através de sua música e de sua linguagem, mesmo sendo percussiva. E eu acredito que a gente tem que mudar porque o mundo está mudando. Além disso, temos que ficar antenados com as coisas que acontecem no mundo a fora, não só na Bahia, só no Candeal.
CH: Seria então uma evolução musical?
Denny: Uma evolução musical, eu acredito. E a Timbalada é uma evolução musical, por mais que venham 20 anos pela frente, a banda sempre estará evoluindo dentro de sua própria música. Nós temos uma letra que diz assim: “A Timbalada revitaliza”, então só a Timbalada em o poder de revitalizá-la, e acho que isso é muito importante. A música “Cachaça” é um exemplo disso; é uma canção mais tecno e com uma batida diferente. E comigo na frente, eu acredito que a Timbalada tem agora um pouco mais da minha cara.
CH: E qual é a sua cara?
Denny: [rsrsrs] A minha cara é uma cara jovem, sempre antenada com o mundo e que gosta de saber das coisas. Eu sou um cara que não consegue ficar quieto, sempre estou querendo saber das coisas.
CH: Tem alguma coisa que você sente falta da época da Timbalada?
Denny: Sinto falta do Candyall Guettho Square, que foi a nossa quadra de ensaios e foi um dos momentos da Timbalada que vai ficar sempre na minha mente. Pelo local e pela energia que tinha lá. Aquele momento foi um momento de busca e aprendizado para nós. Acredito que o Candyall Guettho Square foi um momento muito marcante da minha vida.
CH: Como você avalia a postura dos fãs no momento em que assumiu a Timbalada?
Denny: Acredito que nós brasileiros não estamos acostumados com mudanças. Nos adaptamos às mudanças muito tarde. Tive um apoio total dos fãs da Timbalada, independente das pessoas que gostam de mim. Eu acho que essa mudança que houve foi nada mais nada menos que esperado na cabeça das pessoas, não foi premeditada, mas esperada. E as pessoas graças a Deus acolheram isso de uma forma muito bacana e respeitosa. Quando Ninha saiu, as pessoas de fato falavam que a Timbalada ia acabar, por ele ser uma grande figura e um ícone da banda. Mas eu e Amanda (Santiago) conseguimos segurar a onda. Eis que Amanda saiu e aí a responsabilidade triplicou. Aí surgiu outra pergunta: será que Denny vai segurar a Timbalada depois que Ninha e Amanda saíram?
CH: O que passou pela sua cabeça?
Denny: Não passou absolutamente nada, até porque eu estava seguro. Respeito muito o que as pessoas pensam e falam, mas na minha cabeça e no coração eu estava muito seguro. No requisito musicalidade eu também estava muito seguro, até porque tinha o apoio especial de pessoas que estão comigo há algum tempo, como os integrantes da banda. A Timbalada é uma banda, é um grupo que não é só um cantor, não é só Carlinhos. A Timbalada é uma marca já registrada internacionalmente, e eu acredito que pra isso terminar é muito difícil. E sempre falo, eu estou dando continuidade a um trabalho que já vem sendo feito há muito tempo.
CH: Mas te incomodou o fato de as pessoas se questionarem sobre se você seguraria ou não a Timbalada ?
Denny: Isso me deu muita força. Você não tem noção de como essa pergunta me deu forças e isso fez com que eu quisesse trabalhar a Timbalada pra que ela ficasse muito mais unida e forte do que ela já era. Ao longo do tempo eu fui criando certa credibilidade perante o público, formadores de opinião e até mesmo outros artistas. Mas eu sou muito tranqüilo. Sei quem eu sou, sei quem a Timbalada é, sei do meu potencial e o da Timbalada.
CH: Quando o público e a mídia chegam a esse questionamento, é porque estão pondo em xeque sua competência como cantor. Você já conseguiu reverter isso?
Denny: Naturalmente sim, musicalmente sim. Se você reparar, eu nunca parei pra falar nada. As pessoas sempre ficavam me criticando e me perseguindo, mas nunca falei nada porque, com te disse, eu sei quem sou e sei quem é a Timbalada. Transformei minha resposta de uma forma totalmente diferente: cantando. Música é você chegar e cantar, porque o que forma uma pessoa a ser artista é sua música. Não adianta debater, apenas cante!
CH: Você já se imaginou fora da Timbalada?
Denny: Eu já me imginei fora da Timbalada, e tinha vontade de estar no público e ver a Timbalada tocando no palco.
CH: Então há certo receio de sair da banda?
Denny: A Timbalada é minha vida e sempre será minha vida, em qualquer lugar do mudo, em qualquer banda ou até mesmo cantando solo. As pessoas buscam seus próprios caminhos. Como eu disse, a Timbalada é minha vida, mas e eu acredito que um dia eu posso estar na banda, outro dia posso não estar. Mas quem vai decidir isso não sou eu, não é Carlinhos, não é Gilson, não é o público, é Deus.
CH: Qual é sua relação com Carlinhos Brown?
Denny: Carlinhos é pai né? Para mim é uma pai que ensinou e ainda ensina muitas coisas. O Carlinhos é de uma generosidade incrível. Ele doa, ela sabe doar, sabe como fazer as coisas; eu acho que isso é legal. Isso é muito bacana, porque ser pai é dizer quando o filho está certo e quando está errado, e ele faz isso. Carlinhos é minha referência musical, é minha referência como pessoa. Ele á uma pessoa que tem muito amor pra dar. Eu agradeço muito a presença de Carlinhos em minha vida, porque consegui enxergar muita coisa com ele.
CH: E com Gilson?
Denny: Ah, Gilson é o carrasco [rsrsrs]; isso tudo é mito. Tem gente que fala que Denny é isso, é aquilo... Mas a partir do momento que conhece o Denny, desfaz essas idéias. Uma coisa é eu dizer que não gostei de você porque você ia me perguntar várias coisas, mas a partir do momento em que converso com você, eu já tenho outro tipo de afinidade. Então, a partir do momento que uma pessoa não conhece a outra, é muito fácil julgar. Mas quando conhece a pessoa, você se apaixona; é exatamente isso que acontece.
CH: Fazendo uma auto-crítica em relação a você e à banda,o que ainda falta melhorar?
Denny: Em mim falta tudo, eu não sei de nada ainda, to aprendendo muita coisa. Em relação a ser timbaleiro e a ter a musicalidade da Timbalada, tudo bem. Mas até mesmo a Timbalada tem muito a aprender com esse mundo; o próprio Carlinhos tem muito a aprender. A gente morre aprendendo as coisas, mas eu trabalho muito pra ser o que eu quero ser. Ser visto na mídia, ser visto pelo público. Mas acredito que meu trabalho maior é como pessoa. Eu acho que o ser humano fala mais alto, independente da musicalidade que ele tem.
CH: Quais influências você traz de fora para a Timbalada?
Denny: A Timbalada por si só já é um liquidificador que tem várias vertentes e veias musicais, vários ritmos. Então você liga esse liquidificador, tritura, bota no copo e depois bebe; essa é a Timbalada. Mas como eu disse, a gente nunca sabe de tudo. Tem gente aí que nem conhecemos e está fazendo sons bacanas. A Timbalada mesmo é um grupo 87% de percussão, mas que não conhece a África, por incrível que pareça. Mas, independente disso, acredito que a Timbalada também é uma banda que ainda tem muito pra dar.
CH: Mas o que você escuta no dia-a-dia?
Denny: Escuto Hip-Hop, Salsa, muito música cubana, e tento trazer isso pra Timbalada.
CH: E da Bahia?
Denny: Da Bahia eu gosto muito de ouvir Mariene de Castro. Adoro as roupagens que ela dá nas músicas dela e de outros artistas. Eu não ouço muita rádio, porque viajo muito e não tenho tanto tempo, mas adoro Ivete e ela adora a Timbalada. O próprio Chiclete com Banana gosta muito da Timbalada. É muito bacana também as bandas que estão chegando agora, porque elas ‘fazem’, estão buscando seu próprio caminho.
CH: Porque a gravação do DVD da Timbalada foi no Maranhão e não em Salvador?
Denny: Queria tanto que fosse no Candyall, mas isso não foi possível. Eu, Gilson e Carlinhos conversamos com o restante da produção e chegamos à conclusão que Maranhão é um estado que parece muito coma Bahia porque gosta de reggae, e a Bahia também curte muito esse ritmo, a culinária também é muito parecida, o tambor também é muito parecido com o da Bahia. Além disso, é um dos maiores públicos que temos no Brasil, e nós decidimos que seria lá. O mais importante é que o Brasil esteve presente lá.
CH: Mas não seria melhor pra os fãs soteropolitanos que a gravação fosse aqui, mesmo que não fosse no Candyall?
Denny: Pois é, mesmo que não fosse... Mas se não fosse no Candyall não seria em outro lugar aqui na Bahia, até mesmo pela nossa história.
CH: E o segundo DVD será gravado na Bahia?
Denny: Quem sabe será na Bahia? Quem sabe será em Salvador? É meu desejo que seja aqui. Eu rezo para que ao menos um ensaio por ano seja no Candyall, mas isso por enquanto não é possível.
CH: Mudando de assunto, como está a vida de Denny pai?
Denny: Ah, maravilhosa.
CH: O nascimento do seu filho influenciou de que maneira em sua carreira?
Denny: Muito. Estou muito mais sensível, muito mais cuidadoso. Quem é pai sabe como é bom. Eu olho pro meu filho e penso: meu Deus do céu, tenho que me cuidar mais, não posso perder tanta noite. Antigamente eu chegava de viagem e ia pro sítio andar a cavalo, hoje chego e fico com meu filho. Ele tem sete meses e é a coisa mais linda do mundo.
CH: O que o público pode esperar nas Mostras de Música e Arte Contagiante da Timbalada?
Denny: Tem muita coisa boa. Pode esperar convidados, mas ainda não posso falar. O primeiro foi Carlinhos porque ele é a própria Timbalada. Terá muita alegria e muita diversão. O show fica por conta do improviso e do público.
CH: Como você avalia a música baiana atualmente?
Denny: Eu acho da música baiana o que ela sempre foi; uma música alegre, que também tem um teor social muito grande. Eu sou suspeito pra falar disso porque sou o próprio axé e a Timbalada é a própria música baiana. Mas é um som muito gostoso porque atrai milhões de pessoas pra curtir o carnaval de Salvador.
CH: Como será o Reveillon da Timbalada?
Denny: Maravilhoso. A gente vai fazer o Reveillon Enchanté em Recife junto com Jorge Bem. Depois vamos pra Maceió fazer o Celebration, que fizemos o ano passado.
CH: Então o leite da criança está garantido?
Denny: [rsrsr] Pois é, com dois shows no mesmo dia...
CH: Quais os planos da Timbalada para o verão e Carnaval?
Denny: Tem o EvaNave domingo que vem, com Eva e Chica Fé e Timbaladaem Praia do Forte. Tem o projeto do bloco Timbalada VIP, mas que não será mais pra esse carnaval. Quinta-feira a Timbalada puxa o Nana Banana, o que é uma satisfação para nós, até pela própria história do Chiclete com Banana. Sexta e sábado estaremos no bloco Timbalada, domingo em Porto Seguro e segunda-feira estaremos em Goiânia. Mas voltamos à Salvador pra fazer o arrastão da Timbalada na quarta de cinzas.
Por Rafael Albuquerque
