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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

Empresário do Aviões, Wagner Miau analisa mercado baiano e crava: ‘Esse é o ano de Bell’

Por Aymée Francine

Foto: Fernando Duarte / Bahia Notícias
Há 13 anos no mercado do entretenimento, Wagner Miau pode observar diversas mudanças no cenário baiano e nacional da música. Empresário do Aviões do Forró, o ex-marido de Sol Almeida conversou com o Bahia Notícias sobre o assunto, fazendo uma análise dos interesses do público e do futuro musical baiano. "A música da Bahia, durante vinte e poucos anos era cabeça de chave, pode-se dizer assim. Era uma música que tinha grande visibilidade, e hoje ela ainda tem visibilidade, mas não é mais assim. (...) Esse ano foi um carnaval muito interessante no aspecto financeiro. Acho que o pessoal deixou de viajar para o exterior e ficou por aqui. (...) O governo e a prefeitura também colocaram atrações sem cordas, uma atitude muito bacana, mas isso não paga conta de ninguém e não leva o povo. Porque são os blocos que viabilizam a multidão de pessoas na rua. E se o carnaval é forte, a música da Bahia é forte. E todo mundo, produtores e todo o resto ficam fortes. A maior prova disso é Bell, ele fez um carnaval fantástico esse ano. Esgotou tudo, vendeu tudo. (...) acho que agora ele se consolidou, esse ano é o ano de Bell", cravou o produtor. Um dos responsáveis por festas como Aviões Privilége e Arraiá do Aviões, Miau também falou sobre a internet e a necessidade de formação de um novo público para a música. Confira a entrevista completa:
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Há quanto tempo você trabalha com entretenimento? Quais as grandes mudanças que observou no decorrer do tempo?
Eu trabalho há 13 anos no mercado do entretenimento e, realmente, o mercado ele – se falando de Bahia – era muito aquecido. A música da Bahia, durante vinte e poucos anos era cabeça de chave, pode-se dizer assim. Era uma música que tinha grande visibilidade, e hoje ela ainda tem visibilidade, temos grandes artistas, mas não é mais a “cabeça de chave” do mercado. Acho que essa é a grande mudança, principalmente se falando de Bahia. Mas, eu acho que os profissionais vêm melhorando cada vez mais. Há um tempo atrás era muito gincana o nosso ramo de trabalho. No entretenimento era tudo em cima da hora, hoje a gente consegue se programar. Você vê existir, no carnaval de Salvador, um Camarote Salvador que é um case de sucesso. Todo produtor de eventos no Brasil deveria vir conhecer, esse ano – particularmente - eu trouxe alguns contratantes do Aviões em alguns shows que fizemos nos camarotes e eles ficaram chocados. A Bahia continua na vanguarda. Esse ano foi um carnaval muito interessante no aspecto financeiro. Acho que as pessoas deixaram de viajar para o exterior, então o carnaval acabou muito bacana para todo mundo. A gente ficou feliz que todos os nossos clientes, camarotes, já queriam renovar. Assim, a crise está aí. Eu passei na Paulo Vi ontem e vi três, quatro bares fechados... Mas eu ainda acredito que não chegou para o nosso ramo.

Hoje é melhor para o empresário trabalhar com a produção de eventos ou de banda? 
Não, na realidade, a gente hoje vende festa. A gente não vende a banda. Eu não consigo desvincular o Aviões e fazer um evento. A gente tem um evento consolidado no país, que é o Aviões Privilége. Ele é um evento diferenciado por quê? Porque ele tem um show exclusivo do Aviões, não tem interrupção (começa e termina com Aviões), a gente faz uma entrega de um open bar que costumamos dizer que é a grande atração junto com o Aviões... E eu sou feliz fazendo os dois. Eu gosto de fazer os dois, gosto de fazer festa.

Os grandes nomes da música têm festas próprias, que levam o nome do grupo, ou algo relacionado, e são produzidos pela equipe da banda. Esse movimento crescente é mais relacionado ao retorno financeiro ou a crescimento de marca?

O que acontece, para você fazer um produto desse você tem que ter respaldo para isso. E assim, quando você vai só para festival, você não consegue dizer ao contratante e ao patrocinador quem é o seu público. Porque quando você vai para um festival tem ali o fã de Ivete, do Baiana... você não sabe o que é seu. Então com isso você pode dizer que vende x de bilheteria, eu tenho potencial de vender y de número de pessoas. Então é uma autoafirmação. Além de que você agrada quem está ali para lhe ver. Acontecia há muitos anos com o Trivela, com o Cerveja e Cia e hoje tem também o Aviões Privilége, o Garota Vip. 
 

 
Sempre houve uma certeza comum, pelo menos aos leigos, de que os únicos eventos que davam retorno financeiro e de público, em Salvador, eram, excluindo os grandes festivais, de Axé ou pagode. Isso ainda é uma realidade?
Eu sei onde você quer chegar. O que é que eu acho da música da Bahia: acho que ela não pode ter gênero. ‘Ah, a música que Ivete faz, o que Durval e Bell fazem é o Axé Music’. Não. O que é que o Axé tem de mais bacana? É a energia. Como o Rock’n Roll, o que ele tem de melhor é a energia, e a música da Bahia também tem muito isso, né? Então, eu acho que eles deixaram um legado para a toda a vida, que é maravilhoso. Mas acho que falta hoje a parte da música despretensiosa. E eu vejo que só vai ter essa música se nas escolas, voltar a ter bandas, aquela coisa. Eu vivi essa época, você viveu... na minha escola tinham quatro, cinco bandas. Isso acabou. Acho que hoje a música da Bahia virou muito comercial... ‘Vamos montar o produto, a música tem que ser assim, a menina assim’. A música é arte, né? E a arte ela tem que ser externada da maneira mais verdadeira possível para dar certo. Então acho que para se ter uma mudança tem que começar do zero. Acho que tem que vir novamente, criar uma nova história, uma nova música da Bahia... eu sou contra rótulos. Acho que a gente tem que se permitir. O Aviões, que é a banda que a gente trabalha, a gente fala muito isso. A gente, genuinamente, veio do forró, mas a gente se permite tudo. A gente está no Carnaval de Salvador há nove anos. A gente fã música alegre, a nossa verdade é essa. Temos músicas românticas, mas o que vem acontecendo, explodindo no povo, são as músicas extrovertidas, ‘levanta o copo’, etc. Acho que é por aí.

Mas você não acredita que levar músicas com frases, como a que foi citada (‘Levanta o copo’), para as escolas não seja algo controverso?
Não, porque eu estou falando da música da Bahia. Ela precisa ser despretensiosa. Ela precisa ser uma música sem foco total no comercial. Tem que ter o menino que vai ali tocar no barzinho para não ganhar nada, e fazendo música, cativando a galera, construindo uma social nova. Porque assim, eu sei que o videogame toma muito tempo da meninada. Mas, na minha época, era música, era ter banda e tal. Hoje, eu fui pra São Paulo no início do ano e tinham 30 mil pessoas na arena no Palmeiras para vídeo game. Acho que tem que inserir música na cabeça dessa galera.

No ano passado, você produziu um show do Scambo com Baiana System em Vilas. Deu certo a mudança de ambiente de bandas tão enraizadas no Rio Vermelho, Pelourinho... São públicos muito diferentes, não?
Assim, uma parte do público muito raiz do Baiana foi contra. Mas uma outra parte que mora lá em Vilas, que vê que é muito ruim se deslocar para o Pelourinho, por exemplo, achou massa. E para eles, foi uma experiência massa, eles queriam fazer isso. Eles seguem muito a verdade deles e estão mantendo isso. Eu sou fã dos meninos e acho que é uma banda que não tem como não ser para todos, porque a música é muito boa. E essa questão de você querer segurar, fazer com que seja só no Pelourinho, não tem nada a ver. A música é democrática, quando ela é boa, tem que ir para todo mundo. E se tornar comercial, porque eles pagar as contas deles, conquistar mais, ter patrimônio. Então eu acho que de pouco em pouco, porque eles têm muito cuidado com isso, de não parecer ‘vendido’, eles conquistaram todo mundo. Eu sou muito fã deles, gosto muito.
 

O ‘Aviões Privilége’ já existe há algum tempo, mas como o próprio nome sugere, não havia um apelo de público grande até pela proposta, nominalmente, mais ‘elitista’. E a festa não está sozinha porque a gente percebe que é uma grande tendência do mercado, principalmente, depois da febre ‘ostentação’. Esse tipo de evento dá mais retorno e menos trabalho? A crise atrapalha de alguma forma, esse projeto, já que ele tem como proposta o ‘ser vip’?
Hoje a grande dificuldade dos produtores de evento é vender a pista. Porque a crise chegou na classe que sente mais rápido, que a conta está apertada. Então, ano passado esgotamos 90% das edições, só Rio Grande do Norte e Natal que não esgotaram. Mas não é ostentação não. Acontece que o público vem buscando serviço. Se não, ele fica na varanda de casa vendo o DVD. Eu acho que vai tudo mudando, sabe? Estava conversando com Durval sobre o carnaval de Salvador, e ele estava falando que antigamente, no início do ano 2000, década de 90, o Carnaval de Salvador era um carnaval fitness. Todo mundo ia de tênis... esse ano até eu vi isso no furdunço. Mas de um tempo para cá, deixou de ser fitness para ser um desfile. Muita gente de sandália, aquela coisa. Acho que é cultural, é de momento. E o momento hoje é de se ter um serviço diferenciado, ter um conforto. O cara quer chegar na festa, ficar tranquilo, não ter aperto – acho que as pessoas estão buscando isso.

O ‘Arraiá do Aviões’ é a primeira grande festa produzida pelo Aviões aqui em Salvador, que tem um apelo de público ‘pista’ grande. A repercussão dela também está positiva, diante desse cenário que você coloca? 
Tradicionalmente em Salvador, o forró ainda é muito sazonal. Você tira Aviões, Safadão, As Coleguinhas... Mas o Mastruz, o Magníficos, Calcinha Preta eles tocam aqui em Salvador somente nesse período do ano. Passou o carnaval, começa. E isso eu vejo desde que era pequeno, sempre foi assim. Então as pessoas estão com sede de forró, a festa está tendo uma resposta muito boa. O Aviões tem uma sintonia com a turma de Salvador muito grande, né? Esse projeto já rodou algumas cidades do país e esse ano a gente trouxe ele pra Salvador e estamos com uma expectativa muito boa.

O artista hoje depende da internet para se vender?
100%. O artista depende de vários elementos para chegar ao sucesso, desde o cinema que ele frequenta até a roda de amigos. Porque isso tudo vai chegar no público dele no final, são as experiências. E a internet ela conseguiu deixar o fã muito próximo ao artista. Hoje, com Snapchat, Instagram, Periscope e outras redes sociais você conhece o artista como se fosse uma pessoa muito próxima a você. Então, a internet só veio para ajudar. Tem um site chamado Sua Música, que o artista vai lá, sobe o CD dele lá e você simplesmente baixa o disco dele. Isso dá um número de views muito grande, e é uma publicidade. Como o disco de ouro, de platina... hoje, o volume de downloads é essa publicidade. A facilidade de acesso não tem comparação. Mudou tudo. Eu acho que a internet é fundamental. Ela tornou a música veloz, assim como ela. O artista hoje que não tem um trabalho bom de internet fica para trás.
 

 
A gente percebe que alguns artistas da Salvador ganharam espaço e notoriedade local, mas acabaram não repercutindo tanto nacionalmente. Sendo que eles fazem sucesso nos bares, como foi citado antes. Como empresário, você acredita que há um momento específico para adquirir sucesso ou independente dos anos de trabalho, um dia pode acontecer?
Acho que a música ela é muito democrática, porque todo mundo pode chegar ali e tocar uma música, parar no meio da rua e fazer sucesso. Mas o sucesso não é um empresário, nem é você, jornalista, que vai dizer que é sucesso. Você pode até falar, mas é um gosto pessoal. Quem vai dizer é o cara lá de cima. Veja Pablo... Se você for ver a história dele, ele não tocava em barzinho, ele tocava era no ‘Brega de Caroba’, num antro (risos). E o cara explodiu para o Brasil todo. Ele não teve investimento de gravadora, não foi um produto ‘feito’, como se diz. Então acho que os caras daqui de Salvador, tanto Danniel Vieira, como Kart Love e outros daqui, na hora que o cara falar... O Danniel mesmo é um grande artista, eu converso muito com ele, vejo que ele reinveste nele, está preocupado com a publicidade de suas músicas, acho que logo ele se torna um grande artista sertanejo da Bahia.

Qual a sua expectativa para o mercado do entretenimento baiano em 2016?
Eu enxergo que a Bahia e Salvador são Carnaval e isso precisa ser repensado. A ABRE [Associação Brasileira dos Profissionais Liberais e Representantes Comerciais e Empresariais] está trabalhando para isso, porque o Carnaval de Salvador evoluiu muito nos camarotes e a rua ficou como era na década de 80. O governo e a prefeitura colocaram atrações sem cordas, uma atitude muito bacana, mas isso não paga conta de ninguém e não leva o povo. Quem leva o povo são as 3mil pessoas que estão dentro de cada bloco. E o bloco está em uma situação que eu acho que está ultrapassado. Como eu posso dizer... A ativação, o operacional do bloco, de cordeiros, está ultrapassado. Eu vim observando esse carnaval, as maiores brigas que acontecem na rua parte dos cordeiros. Então, eu acho que o prefeito, que tem o maior mérito ou demérito do sucesso ou insucesso do carnaval, tem que sentar com a ABRE e resolver o que vai fazer com essas três mil pessoas do Coruja de Ivete, os cinco mil de Bell – que é um recordista de venda de abadá. Porque são esses blocos que viabilizam a multidão de pessoas na rua. E se o carnaval é forte, a música da Bahia é forte. E todo mundo, produtores e todo o resto ficam fortes. A maior prova disso é Bell. Bell fez um carnaval fantástico esse ano. Esgotou tudo, vendeu tudo. Super shows. Eu estava conversando com um amigo ontem e, assim, Bell passou 36 anos no automático, no Chiclete com Banana. Imagine, ele está num casamento por 36 anos e fica solteiro, vai para a rua com os amigos, vai para a pista. O cara fica sem saber o que fazer. Ele saiu meio que assim, né? Meio desajeitado. Acho que agora ele se consolidou, ele ano é o ano de Bell e a gente já viu isso no Carnaval. Tudo começa em fevereiro, no Carnaval. Para a música da Bahia ser boa ou ruim.

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