‘Preciso criar minha própria história’, afirma Nonô Curvêllo após deixar a Cangaia de Jegue
Em dezembro do ano passado os fãs da Banda Cangaia de Jegue foram surpreendidos com uma notícia. Após treze anos à frente do grupo, que nasceu em 2002 nos corredores da Universidade do Sudoeste da Bahia (UESB), em Jequié, o vocalista Noberto Curvêllo estava tomando o mesmo destino que muitos artistas da Axé Music: partindo para carreira solo. Após ter feito sua estreia com uma discreta participação no Carnaval, o cantor, de 34 anos, conversou com o Bahia Notícias sobre os motivos e as circunstancias da sua saída da banda e a expectativa para o novo projeto, que deve ganhar força a partir do mês de março.
Você fundou a Cangaia de Jegue e resolveu deixar a banda após 13 anos. O que te levou a essa decisão?
Eu já vinha pensando em tomar novos rumos, experiências e desafios há uns dois anos. Mas não tinha coragem em deixar um patrimônio de 13 anos. Mas percebi que tinham coisas que podiam melhorar em mim para investir na carreira solo e fui fazendo. No começo do ano passado tive a coragem de chamar a banda toda e meu sócio para conversar. Fiquei com eles até no final do ano passado, quando fiz minha última apresentação em dezembro. Saí sem nenhuma mágoa. Meu sócio, que era o Júnior, aceitou numa boa e perguntou se era isso mesmo que queria fazer. Estou saindo de uma empresa e montando outra. Eu até pensei em continuar na empresa na parte da administração e colocar outro cantor, mas a gente foi conversando e viu que eu não iria focar, que era melhor eu escolher meu caminho mesmo. A amizade continua e espero que dê tudo certo para a banda, para a gente se encontrar nos palcos da vida.
Como ficou seu relacionamento com os músicos, algum deles vai te acompanhar?
Quando eu fiz meu primeiro show no Carnaval alguns músicos vieram comigo, outros já tinham sido liberados para outras bandas. Eu só iria conversar com eles em março, mas verbalmente já tinha acertado que eles viriam comigo, até porque a Cangaia já tem outros músicos. Só é uma questão burocrática de acertar a papelada para fechar a vinda dos outros seis integrantes - Allê (baixo), Clécio (acordeom), Serginho (bateria), Bruno (guitarra) e Marcelo (zabumba e percussão). Devemos começar a ensaiar em março.

Nonô e os músicos da Cangaia de Jegue | Foto: Divulgação
Você é muito ligado aos fãs nas redes sociais. Como eles recepcionaram essa novidade da sua carreira solo?
No começo foi aquele susto de tristeza. Mas, logo em seguida mostraram apoio. Acredito que 90% do meu público falou que estava triste com minha saída da banda, no entanto, me deram apoio por acreditar que estava realizando meu sonho.
Você, como fundador da banda, vai continuar tendo participação nos lucros da Cangaia de Jegue?
A partir de agora, não. Passei tudo para as mãos do meu sócio, Júnior Bonfim.
Qual sua expectativa para esse novo momento da sua carreira? Já tem planos definidos?
A gente pensa em fazer um CD e um DVD autorais, mas não agora. Primeiro a gente vai formar banda e procurar um local para fazer ensaio pelo menos uma vez por semana. Aos pouquinhos a gente vai começar a ser reerguer, porque depois de uma saída dessa temos que recomeçar. Estamos reorganizando o caminho, traçando planos para saber onde vamos seguir. Vamos escolher uma ou duas músicas, estou até ouvindo o trabalho de outros amigos compositores, gravar e colocar nas rádios. Talvez em março gravar um CD ao vivo para facilitar a divulgação, que pode ser gravado em show e ficar pronto no dia seguinte, o que chamamos de promocional. Um CD autoral é coisa para final do ano, tempo para os fãs acostumarem com a ideia. Quando acertar minha primeira apresentação vai ser o modelo que vou levar para as festas de São João e ao longo do ano. Tenho vontade de tocar durante o Carnaval. Tenho ambição de conquistar esses novos espaços e não ficar limitado apenas ao São João.
Como aconteceu as negociações para você entrar no casting da NER Esporte Entretenimento?
A Cangaia de Jegue era uma banda que eles já estavam querendo ter como parceiros. No meio do caminho eu tomei a decisão de seguir em carreira solo e perguntei a empresa se eles tinham interesse no projeto ou seguir com a Cangaia de Jegue. Eles aceitaram e me receberam de braços abertos. As negociações aconteceram depois de falar com a banda que não queria continuar. Fiquei uns três meses sem saber o que iria fazer, se seria independente ou procuraria outra produtora, até fechar de fato com a NER.
Nonô faz parte do casting da empresa capitaneada por Durval Lelys | Foto: Reprodução/ Instagram
E como está sendo o processo de escolha de repertório? Nos shows você vai apresentar músicas da Cangaia de Jegue? tem medo de não conseguir dissociar seu nome do grupo?
Vou levar principalmente minhas músicas. Vou fazer a seleção de outras de mais sucessos que gostaria que as pessoas conhecessem mais e a gente não trabalhou tanto. Vou fazer uma roupagem mais atual e gravar, colocar nos shows. Vou investir em composições próprias. A última música que fiz de sucesso, vamos dizer que foi “Bolo Doido”. Até março ou abril já quero ter um repertório bem legal. As músicas da Cangaia de outros compositores ainda vamos estudar, até porque não podemos trazer todas as músicas da Cangaia de Jegue para não ficar a mesma coisa da banda. Mas se os fãs pedirem a gente pode tocar. Preciso construir uma imagem própria minha. De hoje em diante, preciso criar minha própria história, mas como estou no começo vou precisar de uma bagagem.
Como a banda teoricamente vai ser a mesma, com exceção do meu antigo sócio que não vai estar no palco, não vai ser tão estranho. Se tiver que mudar a banda, vou olhar para trás e não vai ser a mesma segurança, porque estou há 13 anos me apresentando com eles. Na Cangaia eu tinha músicos bons e a questão da amizade também. Já estou pensando nos shows, a base vai continuar sendo o forró, algo que já fazia, então vamos ver o que é legal acrescentar, coisas que funcionam para a galera gostar.
Sua primeira apresentação solo foi durante o Carnaval no Camarote do Reino, não foi? Como foi subir ao palco pela primeira vez em carreira solo?
Deu aquele friozinho na barriga, mas quando subi ao palco eu senti que bastava fazer a mesma coisa que sempre fiz. Cantar as músicas, tratar bem o público, me divertir ao mesmo tempo. Graças a Deus consegui fazer durante minha apresentação no camarote do Reino. Foi uma experiência legal, mas é claro que tenho muito a melhorar, como na parte de repertório, trazer coisas novas. Quando chegar o que eu estou imaginando fazer, vou ficar mais seguro ainda. Como foi uma apresentação de última hora acabei fazendo o mesmo repertório da Cangaia de Jegue. Quero continuar fazendo a mesma bagunça no palco e até melhorar para o público se surpreender mais.
Passado o Carnaval, os holofotes começam a ficar voltados para o São João. A Cangaia costumava fazer temporadas de ensaios, você já tem agenda marcada para o período?
A NER está fechando alguns parceiros para esse mês de março, mas ainda não tem nada concretizado. Por enquanto estou fazendo participações. Devo aparecer em algum ensaio do Estakazero, na Select Pituba, para divulgar meu novo trabalho, porque tem muita gente que ainda não sabe que estou em carreira solo.
A banda estourou com “Ai Se eu Te Pego” em um momento que o forró universitário estava em alta. Agora vivemos o país vive boom do sertanejo, como você analisa esse mercado musical? Você pensa experimentar outros estilos músicas?
O Brasil está com foco no sertanejo, mas no Nordeste em geral sempre o forró foi forte. Então, acho que está bem misturado. Eu já tenho uma fórmula de misturar os dois estilos e vou continuar fazendo, assim como trazer algumas coisas da Axé Music. Vou usar no meu som a maioria dos ritmos da Bahia, como o arrocha e samba de roda, por exemplo. As composições que vão nortear meu caminho. Vou fazer um trabalho de qualidade. Vou misturar tudo isso aí e ver no que vai dar.
Wesley Safadão e Aviões do Forró são os principais destaques no país quando o assunto é forró. Só que eles fazem um estilo eletrônico do ritmo. Você acredita que o forró tradicionalmente pé-de-serra está em decadência?
No mercado, realmente, enfraqueceu um pouco por causa do próprio público. Acho que talvez com a internet as pessoas começaram a ouvir outras coisas com a facilidade de acesso aos conteúdos, não ficando limitado somente a rádio e a televisão. Acho que com isso, assim como a própria linguagem das composições, tenha deixado de ser tão forte. O pé de serra fica mais voltado para o período junino. Para tocar o ano todo o artista precisa misturar com outros elementos, pra não ficar sazonal.
