Uziel Bueno fala sobre seu novo programa na Band e diz que o jornalismo popular na Bahia é ultrapassado
Ele é conhecido pelo bordão "o sistema é bruto", mas sua brutalidade é puro embuste. Apesar da firmeza e convicção nas opiniões, Uziel Bueno é tranquilo e leve como a palma da mão de uma criança. Agora à frente do programa do Brasil Urgente, na Band, o apresentador fez revelações bombásticas à Coluna Holofote. Afirmou que o jornalismo popular na Bahia é obsoleto e disse ter sido um dos principais responsáveis pelo surgimento do jornalismo de polícia na televisão baiana. Uziel falou ainda sobre como chegou ao comando de programas de viés popular e fez revelações sobre sua época de Faculdade de Comunicação da Ufba, onde foi colega do deputado federal Jean Wyllys e do ator Wagner Moura. Aposto que você não vai perder essa.
Coluna Holofote: Alguns sites divulgaram que a Band estaria investindo cerca de R$ 1 milhão nesse seu novo programa, que terá duração de uma hora. Esse é um número de investimento relativamente alto, se comparado aos programas, desta modalidade, já existentes aqui na Bahia. Tem como fugir do estilo dos programas daqui?
Uziel Bueno: Tem, tem. E é justamente essa proposta. É fazer, na realidade, um novo jornalismo popular na Bahia. Porque é o seguinte: o que tem acontecido na Bahia, agora, é que os programas populares são de apontar. Apontam mesmo os problemas, porém não mostram o caminho da solução... e é isso que a gente vai fazer a partir de agora. Vai apontar? Vai. Vai denunciar? Vai. Mas como é que pode se resolver esse problema? Como é que pode se chegar a uma resolução desse problema? Vamos dar uma resposta mesmo, para a população. É isso que a gente vai fazer, a partir de agora, na Band, a partir das 5 da tarde de segunda-feira.
CH: A Band almeja, agora com você, atingir a vice-liderança no horário. É um programa nos moldes do Brasil urgente, apresentado por Datena?
UB: É isso mesmo. Porém, o Brasil Urgente local, da Bahia, é o seguinte: É policial? É, também. Mas também será social, também vai mostrar outras coisas, além de apenas matérias policiais. Ele também vai mostrar o buraco na rua da pessoa, vai mostrar o que as autoridades não estão fazendo por aquela escola ou um posto de saúde que não ta merecendo a atenção devida, ou um hospital.... então, será um programa popular, não só policial.
CH: Datena é referência pra você?
UB: Ele é referência pra todo mundo que faz programa popular no Brasil. Datena é uma referência nacional, mesmo.
CH: O bordão “O sistema é bruto” é ouvido, hoje em dia, quase que em todas as esquinas. Como é que você encara isso?
UB: É legal (risos). Muito legal mesmo! Até porque, é quando cai um copo até quando uma pessoa morre. Aí, “o sistema é bruto!” pra qualquer um mesmo, até pra mim (risos). Eu não escapo disso não.
CH: Aproveitando essa deixa... Você aparenta ser um cara durão. Até pelo perfil de programa que você faz, tanto na Tv, quanto da rádio Tudo Fm, que são programas populares mesmo. Acontece que você é casado com uma policial militar.
UB: Isso!
CH: Então, em casa, o sistema é bruto?
UB: (risos) Em casa o sistema é bruto pra mim, não tenha nem dúvida disso. O sistema é bruto pra mim, em casa. Eu sou mansinho, mansinho. Se eu falar um pouquinho mais alto, o couro come. (risos)
CH: É ela quem fala mais alto?
UB: É ela. A minha filha também fala mais alto que eu, e tem 4 anos. Imagine!
CH: O “Acorda pra Vida”, seu programa na Tudo Fm, também é um programa popular. Existe, pra você, uma preferência entre Tv e rádio?
UB: Hoje em dia meu coração tá dividido. Porque é muito bom fazer rádio. Eu me apaixonei por rádio. Na realidade, eu acho que é assim: um eu sou casado e outro eu sou amante, entendeu? Eu não consegui definir ainda, de quem eu sou amante e com quem eu sou casado, mas ainda vou decidir nos próximos anos. Mas os dois são ótimos. Os dois têm seus problemas, mas os dois são excelentes de fazer. O rádio é aquela coisa de mais contato com o povo, mas, na televisão agora, a gente vai tentar se aproximar um pouco mais disso: que o povo fale mais na TV. O povo tem que falar mais. Não só falar por falar, entendeu? Acho que o que ta sendo feito aí, na Bahia.... assim... o que foi feito tem sua importância. Até hoje, tudo tem sua importância. Inclusive o policial, que eu instituí na Bahia e que os outros copiaram e tal. Mas eu acho que é uma nova etapa do jornalismo popular na Bahia, que é mostrar os problemas mesmo, apontar as respostas, porém de outra forma. E essa forma eu não posso dizer porque senão vão tentar copiar antes da estreia. Aí eu não posso dizer. Tem que assistir.
CH: Surgiram alguns boatos de que sua ida pra Band teria gerado um certo mal estar entre seus novos colegas, já que a emissora estaria investindo muito em você, liberando tudo pra Uziel Bueno. Existiu isso mesmo? Como é que você foi recebido pelos novos colegas de trabalho?
UB: Olha... eu quero agradecer, inclusive, o carinho de todos da Band, da portaria à diretoria, mesmo. Eu fui muito bem recebido por todo mundo mesmo. Não tenho nem o que falar. Não existe rusga com ninguém. Pelo contrário, mesmo. Todo mundo ta me ajudando... até porque esse programa, ele vai ajudar muito a Band Bahia, porque com a quantidade de informação é tão grande pra gente, obviamente a gente também vai passar conteúdo para outros produtos da casa e os outros produtos da casa também vão aumentar em conteúdo, quantidade e também vão aumentar audiência. O nosso projeto é aumentar a audiência em toda a grade da Bandeirantes, não só o Brasil Urgente. O Boa Tarde Bahia, com Rita Batista, o Band Cidade, até o Jogo Aberto, que é esporte, a gente também tá tentando alavancar a audiência.
Agora, frisando que esse é um projeto nacional, não é um projeto apenas local. Esse é um projeto que saiu da cabeça de Johnny Saad, presidente da Bandeirantes. Eu fui convidado a fazer esse projeto, por Claudio Nogueira, que é o diretor geral aqui da Band e também pelo próprio Johnny Saad. É um projeto nacional, que vai ser simultaneamente em cinco estados. A Band Bahia pega na Bahia e Sergipe, atinge esses dois estados, simultaneamente, mas é um projeto nacional mesmo. Por isso é importante esse investimento alto.
CH: Mas o mal estar entre os colegas...
UB: Não existe! Não existiu mesmo. Até porque a gente tá pra ajudar e aí é uma coisa que muda também. A Band Bahia sai na frente porque, nas outras emissoras, programas como esse, populares, eles são alijados a uma sala. Não só na Record é assim, mas no Sbt é assim, até na Tv Bahia, projetos mais populares são alijados. Lá, não. É tudo integrado ao jornalismo, tudo. É uma redação só pra tudo. Então, todos os programas, as informações que vão chegar pra gente, serão compartilhadas com todos os programas. É algo novo, realmente, aqui na Bahia. E eu espero que seja copiado pelas outras emissoras.
O jornalismo popular, assim como o esporte era, até como a própria editoria de polícia era... era tudo alijado. Então, vamos trazer algo novo, mesmo. É um jornalismo mais popular, visando o povo, o bem-estar da comunidade, cobrando das autoridades públicas. E o Grupo Bandeirantes já tem essa identidade de ser independente, de ter uma credibilidade muito alta, muito grande, de apuração dos fatos, mesmo...
CH: Você começou como repórter de Tv?
UB: Comecei como repórter, justamente.
CH: Como foi que você chegou ao jornalismo popular? Foi meio que de pára-quedas? Você escolheu o jornalismo popular ou o jornalismo popular te escolheu?
UB: É isso... Eu fiz um projeto de programa popular policial aqui pra Bahia, o que nunca existiu na televisão. E aí eu coloquei na diretoria da emissora que eu trabalhei e eles disseram assim: “Uziel, isso ninguém absorve não, isso não dá certo.” Porque existia uma cultura na Bahia de que só meter o pau na polícia é que dava audiência. É o que era feito. E eu sempre disse que não. Eu achava que mostrar o policial, mostrar o lado humano da polícia, o trabalho ostensivo deles... eu achava que isso também não só dava audiência, mas era o que a população gostaria de ver e também os anunciantes iriam respeitar e anunciar. Eu sempre tive essa visão. Isso eu to falando de uns dez anos atrás... Mas ninguém apostava, ainda. Eu coloquei na diretoria e ficou engavetado alguns anos.
CH: Você era repórter local, nessa época?
UB: Eu era repórter do Sbt na Bahia. Repórter de rede do Sbt. Todo engravatado e tal.. era um outro esquema. Mas eu já fazia matérias policiais. Inclusive eu, na televisão, fui o primeiro repórter a fazer essas incursões policiais.. e aí, quando eu usava colete, porque eu fui o primeiro mesmo, a usar colete a prova de bala, rapaz... era uma gozação. Na Bahia, era uma gozação. Quando os repórteres me viam com colete a prova de balas, começavam com gozação: “Que é isso? Não precisa disso e tal...” mas a gente ia e fazia. Hoje virou febre e todo mundo usa colete, né? E eu acho que é importante, inclusive... eu usava porque eu queria me proteger e eu acho que é o que todo mundo deveria fazer. Inclusive, eu acho que tem que usar até capacete balístico, viu? Aí é outra história (risos)... Mas, voltando ao assunto, ficou engavetado muito tempo, esse negócio de jornalismo popular, nesse sentido policial, né?
E aí, na antiga emissora, quando um apresentador saiu, aí eles disseram: “Tá na hora.” Ficaram meio que perdidos. Aí, antes disso, perguntaram se eu queria fazer polícia mesmo e mandaram pra ser repórter de programa popular. “Vá lá sentir como é mesmo, veja se pega isso mesmo”, falavam meio desacreditados mesmo. Quando eu entrei, deu certo. A audiência triplicou quando entravam essas matérias policiais... triplicava mesmo. Aí eles começaram a observar que a coisa dava certo. E aí quando o apresentador saiu, resolveram colocar meu programa no ar, mas ainda com receio. É tanto, que quando eu ganhei o programa, era de manhã, apenas 20 minutos e eu fazendo sozinho, praticamente. Eu ia pra rua, era uma loucura. Aí em 20 minutos a gente subiu de 0,8 da audiência , para 14 pontos. Isso de manhã. Deu um estouro... e no Jornal da Manhã, da Tv Bahia. Aí foi uma loucura na emissora. “Vamos colocar pra meio dia, pro bolo de meio dia, uma da tarde” .. e essa foi a aposta pra bater a concorrência. Justamente a concorrência do apresentador que estava na emissora. Aí foi um sucesso também e a gente bateu não só o concorrente, como também a própria Tv Bahia. E aí foi um sucesso danado e começaram a copiar o programa. O que é natural, também... não é nada de ruim não. E aí, como eu disse, todos esses fatos que acontecem no jornalismo popular da Bahia, eles são importantes, porém, agora a gente quer fazer um outro jornalismo popular. Não é só pedra, a gente também tem que mostrar o caminho, entendeu? Aí dizem assim: “mas jornalismo popular não pode, nunca, ser parceiro de autoridade pública, tem que ser sempre contra. Não... a gente pode ser também parceiro das autoridades, contanto que eles sejam parceiros do povo. Se eles fizeram alguma coisa, vamos mostrar. Por que não? Não como bônus, mas sim como um caminho a ser seguido. Eu acho que é por aí. Eu acho que a visão do jornalismo popular, na Bahia, vai mudar. E eu espero que os outros copiem para o bem de nossa Bahia.
CH: Você acha que o jornalismo popular da Bahia é ultrapassado?
UB: Sem dúvidas. Todo esse jornalismo que ta sendo feito aí, já passou, é obsoleto. Tem que mudar, porque se não mudar, o sistema vai ficar bruto pra eles.
CH: Dentro da faculdade de comunicação da UFBA, onde você estudou, existem muitas críticas relacionadas a programas populares. Como é que você enxerga essas críticas?
UB: Olha, realmente eu sou formado pela Universidade Federal da Bahia, sou jornalista diplomado, o que eu acho que é muito importante, inclusive. Mas, respondendo, críticas eu acho que sempre vou receber na minha vida e já to até acostumado. O meu objetivo é fazer com que o jornalismo seja a serviço do povo. Se o cara que olha o jornalismo que eu to fazendo e fica criticando: “ah, porque isso é errado”, ou alguma coisa desse tipo, eu acho que ele tem que rever os conceitos dele, entendeu?
Agora, é o seguinte... tem uma coisa na Ufba, que eu acho interessante... vou dá até uma sugestão aos professores de lá. Eles deveriam criar uma disciplina ‘jornalismo popular’. Se eles estudam até novela, por que não estudar jornalismo popular? E outra coisa... muita gente que hoje critica o jornalismo popular na Bahia, deveria contribuir com esse jornalismo. Inclusive, não é à toa que eu recebo vários currículos de gente que ta saindo da Ufba. Então, assim, critica e quer trabalhar num programa como esse? Eu acho que é meio incoerente. Nas rodas de bares, nas rodas de amigos, até na cantina da Facom ou no grupinho de professores, eles criticam, falam mal, porque acham “Cult” falar mal. Tá na moda falar mal de programa popular, mas tem que falar com embasamento. E, se fala mal, não pode pedir ajuda e nem pode pedir emprego. Não queira trabalhar em programa popular, se não gosta. E também não peça pra divulgar produto que você assessora. Porque muitos deles são assessores e ficam pedindo apoio pra serem divulgados na grande audiência do jornalismo popular. Não sejam incoerentes. Meu discurso não é incoerente. Então, quem critica não pode ser incoerente com seu discurso.
CH: O que é que você achava desse tipo de programa, a exemplo de Ratinho, na sua época de estudante?
UB: Rapaz... eu achava massa. Ratinho é massa (risos). Tem os exageros? Tem, mas Ratinho saiu do jornalismo policial, por exemplo. Ele tem uma frase que ele diz que não agüenta mais e que nunca mais vai fazer jornalismo policial, porque realmente dá muita inimizade. Você é ameaçado, mesmo. É difícil.
CH: Já que você tocou nesse assunto, você já sofreu muitas ameaças? Teve algum tipo de retaliação? Como é que você lidava com isso?
UB: Claro! Até porque quem leva o murro nunca esquece, né? Eu já devo ter batido em muito ‘pombo sujo’ por aí.
CH: Sofreu algum tipo de ameaça séria?
UB: Sempre... por telefone, cartinha, até aquele negócio de filme tem: cartinha com letrinha de revista... eu já recebi. Mas não tem isso não. O sistema é bruto mesmo e vai continuar sendo bruto. Não tem isso. Quem tem medo dessas coisas, não pode fazer jornalismo popular. É igual ao filme Tropa de Elite: ‘se não agüenta, peça pra sair.’ (risos)
CH: Falando em Tropa de Elite, você foi colega de faculdade de Wagner Moura e Jean Wyllys. Como era sua relação com eles?
UB: É verdade. Olha... eles são bem mais velhos que eu. Eu sou um menino na frente deles (risos). Eu vou completar, ainda, 34 anos.
Jean Wyllys era bem mais velho que eu, na faculdade. O Wagner Moura, também. Assim... Wagner Moura era da turma ali da escadinha da Facom.
CH: Explica o que é ‘turma da escadinha da Facom’ , pra quem não é de lá, entender.
UB: É a turma ali (risos)... que ficava com a galera de teatro também... (risos)
Jean Wyllys, eu lembro bem, já era uma cara bem politizado, porém ele se contradiz em algumas coisas que ele fala hoje...
CH: Tipo...
UB: Algumas coisas (risos). Ele pegou essa bandeira aí de defensor dos homossexuais, e tal... ele não era assim na Facom não, entendeu? Ele mudou um pouquinho... mas as pessoas mudam também, né? Não tem problema. Mas eles são excelentes pessoas. Inclusive, eu tenho amigos em comum com eles e falam muito bem dos dois.
Por exemplo, eu acho que os dois defendem a descriminalização da maconha. E eu acho pertinente. Se eles acham que é isso mesmo, eu acho que têm que ir até o fim. Se eles tçêm essa bandeira, é por aí. Se eles já defendiam na Facom, né, por que não defender agora? (risos).
CH: Você quase se elegeu deputado estadual. Gostou da experiência? Ainda tem alguma pretensão política?
UB: Assim... a campanha é excelente. Essa coisa de contato com o povo, isso é maravilhoso. Só quem participa, sabe. É muito louco aquilo, uma loucura danada. Imagine fazer uma campanha sem dinheiro. Aí você corre pra um lado, corre pro outro... A experiência foi ótima. Hoje eu sou suplente de deputado e tal... não sei nem se eu vou assumir. Se surgir uma vaga aí, eu não sei nem se eu assumo.
CH: Então você não tem mais pretensão política?
UB: Não sei. Tudo é possível, mas eu não sei. Eu to naquela indecisão... to focado muito em comunicação, entendeu? No rádio, no site e na Televisão. Tô muito focado. Eu acho que a televisão é que é o meu caminho mesmo. Essa questão de política aí eu já vi que você não pode ser apenas uma pessoa que tem uma bandeira, um foco. Você tem que se aliar a pessoas que, muitas vezes, você não quer. Eu não me aliei e eu acho que foi um dos motivos pelos quais eu não ganhei, também. Por que eu tenho muito objetivo ali, entendeu? Eu sou muito focado. Na política você, ás vezes, tem que recuar e eu não to pra isso não. Eu acho que eu to mais na de defender o povo, a qualquer preço. Muitas vezes na política tem que recuar, fazer o jogo do partido e eu não sei se é isso que eu quero pra minha vida não, entendeu?
CH: Pra finalizar, deixa o convite pros seus telespectadores, leitores da Holofote.
UB: Com certeza. A partir das 5 da tarde, segunda-feira, o sistema vai ser bruto na Band... é o novo jornalismo popular da Bahia. Tudo que você ta vendo aí é obsoleto. Vamos partir para algo novo. O Grupo Bandeirantes, comandado pelo Johnny Saad e aqui na Bahia pelo Claudio Nogueira, a gente quer fazer algo novo, mesmo. Não tenham dúvida: é a serviço do povo e para o povo... e quem estiver contra isso, o sistema continua bruto.
Coluna Holofote: Alguns sites divulgaram que a Band estaria investindo cerca de R$ 1 milhão nesse seu novo programa, que terá duração de uma hora. Esse é um número de investimento relativamente alto, se comparado aos programas, desta modalidade, já existentes aqui na Bahia. Tem como fugir do estilo dos programas daqui?
Uziel Bueno: Tem, tem. E é justamente essa proposta. É fazer, na realidade, um novo jornalismo popular na Bahia. Porque é o seguinte: o que tem acontecido na Bahia, agora, é que os programas populares são de apontar. Apontam mesmo os problemas, porém não mostram o caminho da solução... e é isso que a gente vai fazer a partir de agora. Vai apontar? Vai. Vai denunciar? Vai. Mas como é que pode se resolver esse problema? Como é que pode se chegar a uma resolução desse problema? Vamos dar uma resposta mesmo, para a população. É isso que a gente vai fazer, a partir de agora, na Band, a partir das 5 da tarde de segunda-feira.
CH: A Band almeja, agora com você, atingir a vice-liderança no horário. É um programa nos moldes do Brasil urgente, apresentado por Datena?
UB: É isso mesmo. Porém, o Brasil Urgente local, da Bahia, é o seguinte: É policial? É, também. Mas também será social, também vai mostrar outras coisas, além de apenas matérias policiais. Ele também vai mostrar o buraco na rua da pessoa, vai mostrar o que as autoridades não estão fazendo por aquela escola ou um posto de saúde que não ta merecendo a atenção devida, ou um hospital.... então, será um programa popular, não só policial.
CH: Datena é referência pra você?
UB: Ele é referência pra todo mundo que faz programa popular no Brasil. Datena é uma referência nacional, mesmo.
CH: O bordão “O sistema é bruto” é ouvido, hoje em dia, quase que em todas as esquinas. Como é que você encara isso?
UB: É legal (risos). Muito legal mesmo! Até porque, é quando cai um copo até quando uma pessoa morre. Aí, “o sistema é bruto!” pra qualquer um mesmo, até pra mim (risos). Eu não escapo disso não.
CH: Aproveitando essa deixa... Você aparenta ser um cara durão. Até pelo perfil de programa que você faz, tanto na Tv, quanto da rádio Tudo Fm, que são programas populares mesmo. Acontece que você é casado com uma policial militar.
UB: Isso!
CH: Então, em casa, o sistema é bruto?
UB: (risos) Em casa o sistema é bruto pra mim, não tenha nem dúvida disso. O sistema é bruto pra mim, em casa. Eu sou mansinho, mansinho. Se eu falar um pouquinho mais alto, o couro come. (risos)
CH: É ela quem fala mais alto?
UB: É ela. A minha filha também fala mais alto que eu, e tem 4 anos. Imagine!
CH: O “Acorda pra Vida”, seu programa na Tudo Fm, também é um programa popular. Existe, pra você, uma preferência entre Tv e rádio?
UB: Hoje em dia meu coração tá dividido. Porque é muito bom fazer rádio. Eu me apaixonei por rádio. Na realidade, eu acho que é assim: um eu sou casado e outro eu sou amante, entendeu? Eu não consegui definir ainda, de quem eu sou amante e com quem eu sou casado, mas ainda vou decidir nos próximos anos. Mas os dois são ótimos. Os dois têm seus problemas, mas os dois são excelentes de fazer. O rádio é aquela coisa de mais contato com o povo, mas, na televisão agora, a gente vai tentar se aproximar um pouco mais disso: que o povo fale mais na TV. O povo tem que falar mais. Não só falar por falar, entendeu? Acho que o que ta sendo feito aí, na Bahia.... assim... o que foi feito tem sua importância. Até hoje, tudo tem sua importância. Inclusive o policial, que eu instituí na Bahia e que os outros copiaram e tal. Mas eu acho que é uma nova etapa do jornalismo popular na Bahia, que é mostrar os problemas mesmo, apontar as respostas, porém de outra forma. E essa forma eu não posso dizer porque senão vão tentar copiar antes da estreia. Aí eu não posso dizer. Tem que assistir.
CH: Surgiram alguns boatos de que sua ida pra Band teria gerado um certo mal estar entre seus novos colegas, já que a emissora estaria investindo muito em você, liberando tudo pra Uziel Bueno. Existiu isso mesmo? Como é que você foi recebido pelos novos colegas de trabalho?
UB: Olha... eu quero agradecer, inclusive, o carinho de todos da Band, da portaria à diretoria, mesmo. Eu fui muito bem recebido por todo mundo mesmo. Não tenho nem o que falar. Não existe rusga com ninguém. Pelo contrário, mesmo. Todo mundo ta me ajudando... até porque esse programa, ele vai ajudar muito a Band Bahia, porque com a quantidade de informação é tão grande pra gente, obviamente a gente também vai passar conteúdo para outros produtos da casa e os outros produtos da casa também vão aumentar em conteúdo, quantidade e também vão aumentar audiência. O nosso projeto é aumentar a audiência em toda a grade da Bandeirantes, não só o Brasil Urgente. O Boa Tarde Bahia, com Rita Batista, o Band Cidade, até o Jogo Aberto, que é esporte, a gente também tá tentando alavancar a audiência.
Agora, frisando que esse é um projeto nacional, não é um projeto apenas local. Esse é um projeto que saiu da cabeça de Johnny Saad, presidente da Bandeirantes. Eu fui convidado a fazer esse projeto, por Claudio Nogueira, que é o diretor geral aqui da Band e também pelo próprio Johnny Saad. É um projeto nacional, que vai ser simultaneamente em cinco estados. A Band Bahia pega na Bahia e Sergipe, atinge esses dois estados, simultaneamente, mas é um projeto nacional mesmo. Por isso é importante esse investimento alto.
CH: Mas o mal estar entre os colegas...
UB: Não existe! Não existiu mesmo. Até porque a gente tá pra ajudar e aí é uma coisa que muda também. A Band Bahia sai na frente porque, nas outras emissoras, programas como esse, populares, eles são alijados a uma sala. Não só na Record é assim, mas no Sbt é assim, até na Tv Bahia, projetos mais populares são alijados. Lá, não. É tudo integrado ao jornalismo, tudo. É uma redação só pra tudo. Então, todos os programas, as informações que vão chegar pra gente, serão compartilhadas com todos os programas. É algo novo, realmente, aqui na Bahia. E eu espero que seja copiado pelas outras emissoras.
O jornalismo popular, assim como o esporte era, até como a própria editoria de polícia era... era tudo alijado. Então, vamos trazer algo novo, mesmo. É um jornalismo mais popular, visando o povo, o bem-estar da comunidade, cobrando das autoridades públicas. E o Grupo Bandeirantes já tem essa identidade de ser independente, de ter uma credibilidade muito alta, muito grande, de apuração dos fatos, mesmo...
CH: Você começou como repórter de Tv?
UB: Comecei como repórter, justamente.
CH: Como foi que você chegou ao jornalismo popular? Foi meio que de pára-quedas? Você escolheu o jornalismo popular ou o jornalismo popular te escolheu?
UB: É isso... Eu fiz um projeto de programa popular policial aqui pra Bahia, o que nunca existiu na televisão. E aí eu coloquei na diretoria da emissora que eu trabalhei e eles disseram assim: “Uziel, isso ninguém absorve não, isso não dá certo.” Porque existia uma cultura na Bahia de que só meter o pau na polícia é que dava audiência. É o que era feito. E eu sempre disse que não. Eu achava que mostrar o policial, mostrar o lado humano da polícia, o trabalho ostensivo deles... eu achava que isso também não só dava audiência, mas era o que a população gostaria de ver e também os anunciantes iriam respeitar e anunciar. Eu sempre tive essa visão. Isso eu to falando de uns dez anos atrás... Mas ninguém apostava, ainda. Eu coloquei na diretoria e ficou engavetado alguns anos.
CH: Você era repórter local, nessa época?
UB: Eu era repórter do Sbt na Bahia. Repórter de rede do Sbt. Todo engravatado e tal.. era um outro esquema. Mas eu já fazia matérias policiais. Inclusive eu, na televisão, fui o primeiro repórter a fazer essas incursões policiais.. e aí, quando eu usava colete, porque eu fui o primeiro mesmo, a usar colete a prova de bala, rapaz... era uma gozação. Na Bahia, era uma gozação. Quando os repórteres me viam com colete a prova de balas, começavam com gozação: “Que é isso? Não precisa disso e tal...” mas a gente ia e fazia. Hoje virou febre e todo mundo usa colete, né? E eu acho que é importante, inclusive... eu usava porque eu queria me proteger e eu acho que é o que todo mundo deveria fazer. Inclusive, eu acho que tem que usar até capacete balístico, viu? Aí é outra história (risos)... Mas, voltando ao assunto, ficou engavetado muito tempo, esse negócio de jornalismo popular, nesse sentido policial, né?
E aí, na antiga emissora, quando um apresentador saiu, aí eles disseram: “Tá na hora.” Ficaram meio que perdidos. Aí, antes disso, perguntaram se eu queria fazer polícia mesmo e mandaram pra ser repórter de programa popular. “Vá lá sentir como é mesmo, veja se pega isso mesmo”, falavam meio desacreditados mesmo. Quando eu entrei, deu certo. A audiência triplicou quando entravam essas matérias policiais... triplicava mesmo. Aí eles começaram a observar que a coisa dava certo. E aí quando o apresentador saiu, resolveram colocar meu programa no ar, mas ainda com receio. É tanto, que quando eu ganhei o programa, era de manhã, apenas 20 minutos e eu fazendo sozinho, praticamente. Eu ia pra rua, era uma loucura. Aí em 20 minutos a gente subiu de 0,8 da audiência , para 14 pontos. Isso de manhã. Deu um estouro... e no Jornal da Manhã, da Tv Bahia. Aí foi uma loucura na emissora. “Vamos colocar pra meio dia, pro bolo de meio dia, uma da tarde” .. e essa foi a aposta pra bater a concorrência. Justamente a concorrência do apresentador que estava na emissora. Aí foi um sucesso também e a gente bateu não só o concorrente, como também a própria Tv Bahia. E aí foi um sucesso danado e começaram a copiar o programa. O que é natural, também... não é nada de ruim não. E aí, como eu disse, todos esses fatos que acontecem no jornalismo popular da Bahia, eles são importantes, porém, agora a gente quer fazer um outro jornalismo popular. Não é só pedra, a gente também tem que mostrar o caminho, entendeu? Aí dizem assim: “mas jornalismo popular não pode, nunca, ser parceiro de autoridade pública, tem que ser sempre contra. Não... a gente pode ser também parceiro das autoridades, contanto que eles sejam parceiros do povo. Se eles fizeram alguma coisa, vamos mostrar. Por que não? Não como bônus, mas sim como um caminho a ser seguido. Eu acho que é por aí. Eu acho que a visão do jornalismo popular, na Bahia, vai mudar. E eu espero que os outros copiem para o bem de nossa Bahia.
CH: Você acha que o jornalismo popular da Bahia é ultrapassado?
UB: Sem dúvidas. Todo esse jornalismo que ta sendo feito aí, já passou, é obsoleto. Tem que mudar, porque se não mudar, o sistema vai ficar bruto pra eles.
CH: Dentro da faculdade de comunicação da UFBA, onde você estudou, existem muitas críticas relacionadas a programas populares. Como é que você enxerga essas críticas?
UB: Olha, realmente eu sou formado pela Universidade Federal da Bahia, sou jornalista diplomado, o que eu acho que é muito importante, inclusive. Mas, respondendo, críticas eu acho que sempre vou receber na minha vida e já to até acostumado. O meu objetivo é fazer com que o jornalismo seja a serviço do povo. Se o cara que olha o jornalismo que eu to fazendo e fica criticando: “ah, porque isso é errado”, ou alguma coisa desse tipo, eu acho que ele tem que rever os conceitos dele, entendeu?
Agora, é o seguinte... tem uma coisa na Ufba, que eu acho interessante... vou dá até uma sugestão aos professores de lá. Eles deveriam criar uma disciplina ‘jornalismo popular’. Se eles estudam até novela, por que não estudar jornalismo popular? E outra coisa... muita gente que hoje critica o jornalismo popular na Bahia, deveria contribuir com esse jornalismo. Inclusive, não é à toa que eu recebo vários currículos de gente que ta saindo da Ufba. Então, assim, critica e quer trabalhar num programa como esse? Eu acho que é meio incoerente. Nas rodas de bares, nas rodas de amigos, até na cantina da Facom ou no grupinho de professores, eles criticam, falam mal, porque acham “Cult” falar mal. Tá na moda falar mal de programa popular, mas tem que falar com embasamento. E, se fala mal, não pode pedir ajuda e nem pode pedir emprego. Não queira trabalhar em programa popular, se não gosta. E também não peça pra divulgar produto que você assessora. Porque muitos deles são assessores e ficam pedindo apoio pra serem divulgados na grande audiência do jornalismo popular. Não sejam incoerentes. Meu discurso não é incoerente. Então, quem critica não pode ser incoerente com seu discurso.
CH: O que é que você achava desse tipo de programa, a exemplo de Ratinho, na sua época de estudante?
UB: Rapaz... eu achava massa. Ratinho é massa (risos). Tem os exageros? Tem, mas Ratinho saiu do jornalismo policial, por exemplo. Ele tem uma frase que ele diz que não agüenta mais e que nunca mais vai fazer jornalismo policial, porque realmente dá muita inimizade. Você é ameaçado, mesmo. É difícil.
CH: Já que você tocou nesse assunto, você já sofreu muitas ameaças? Teve algum tipo de retaliação? Como é que você lidava com isso?
UB: Claro! Até porque quem leva o murro nunca esquece, né? Eu já devo ter batido em muito ‘pombo sujo’ por aí.
CH: Sofreu algum tipo de ameaça séria?
UB: Sempre... por telefone, cartinha, até aquele negócio de filme tem: cartinha com letrinha de revista... eu já recebi. Mas não tem isso não. O sistema é bruto mesmo e vai continuar sendo bruto. Não tem isso. Quem tem medo dessas coisas, não pode fazer jornalismo popular. É igual ao filme Tropa de Elite: ‘se não agüenta, peça pra sair.’ (risos)
CH: Falando em Tropa de Elite, você foi colega de faculdade de Wagner Moura e Jean Wyllys. Como era sua relação com eles?
UB: É verdade. Olha... eles são bem mais velhos que eu. Eu sou um menino na frente deles (risos). Eu vou completar, ainda, 34 anos.
Jean Wyllys era bem mais velho que eu, na faculdade. O Wagner Moura, também. Assim... Wagner Moura era da turma ali da escadinha da Facom.
CH: Explica o que é ‘turma da escadinha da Facom’ , pra quem não é de lá, entender.
UB: É a turma ali (risos)... que ficava com a galera de teatro também... (risos)
Jean Wyllys, eu lembro bem, já era uma cara bem politizado, porém ele se contradiz em algumas coisas que ele fala hoje...
CH: Tipo...
UB: Algumas coisas (risos). Ele pegou essa bandeira aí de defensor dos homossexuais, e tal... ele não era assim na Facom não, entendeu? Ele mudou um pouquinho... mas as pessoas mudam também, né? Não tem problema. Mas eles são excelentes pessoas. Inclusive, eu tenho amigos em comum com eles e falam muito bem dos dois.
Por exemplo, eu acho que os dois defendem a descriminalização da maconha. E eu acho pertinente. Se eles acham que é isso mesmo, eu acho que têm que ir até o fim. Se eles tçêm essa bandeira, é por aí. Se eles já defendiam na Facom, né, por que não defender agora? (risos).
CH: Você quase se elegeu deputado estadual. Gostou da experiência? Ainda tem alguma pretensão política?
UB: Assim... a campanha é excelente. Essa coisa de contato com o povo, isso é maravilhoso. Só quem participa, sabe. É muito louco aquilo, uma loucura danada. Imagine fazer uma campanha sem dinheiro. Aí você corre pra um lado, corre pro outro... A experiência foi ótima. Hoje eu sou suplente de deputado e tal... não sei nem se eu vou assumir. Se surgir uma vaga aí, eu não sei nem se eu assumo.
CH: Então você não tem mais pretensão política?
UB: Não sei. Tudo é possível, mas eu não sei. Eu to naquela indecisão... to focado muito em comunicação, entendeu? No rádio, no site e na Televisão. Tô muito focado. Eu acho que a televisão é que é o meu caminho mesmo. Essa questão de política aí eu já vi que você não pode ser apenas uma pessoa que tem uma bandeira, um foco. Você tem que se aliar a pessoas que, muitas vezes, você não quer. Eu não me aliei e eu acho que foi um dos motivos pelos quais eu não ganhei, também. Por que eu tenho muito objetivo ali, entendeu? Eu sou muito focado. Na política você, ás vezes, tem que recuar e eu não to pra isso não. Eu acho que eu to mais na de defender o povo, a qualquer preço. Muitas vezes na política tem que recuar, fazer o jogo do partido e eu não sei se é isso que eu quero pra minha vida não, entendeu?
CH: Pra finalizar, deixa o convite pros seus telespectadores, leitores da Holofote.
UB: Com certeza. A partir das 5 da tarde, segunda-feira, o sistema vai ser bruto na Band... é o novo jornalismo popular da Bahia. Tudo que você ta vendo aí é obsoleto. Vamos partir para algo novo. O Grupo Bandeirantes, comandado pelo Johnny Saad e aqui na Bahia pelo Claudio Nogueira, a gente quer fazer algo novo, mesmo. Não tenham dúvida: é a serviço do povo e para o povo... e quem estiver contra isso, o sistema continua bruto.
