Agora na Tudo FM, Uziel Bueno afirma: 'Me transformo no povo indignado'
"No programa que eu faço, tudo tem um significado, inclusive a roupa preta"
Coluna Holofote: Você tem formação em Jornalismo?
Uziel Bueno: Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sou jornalista mesmo, e estou tentando me graduar em Direito, mas é complicado por causa da falta de tempo.
CH: Como é que você foi parar na televisão?
UB: Eu já tenho 17 anos de carreira. Já fiz sites, eu trabalhei no ibahia, por exemplo. Aliás, eu fui um dos fundadores do ibahia, quando ainda estava engatinhando aqui na Bahia essa coisa de jornalismo online. Passei por jornais impressos como o Correio da Bahia, passei por rádio também, na Nova Salvador e outras rádios também e televisão. Sempre televisão esteve na minha vida, sempre. Desde o primeiro semestre da faculdade, para você ter uma ideia. Porque eu gosto muito, sendo que eu também me identifico muito com o rádio. Até porque, o jornalista, se ele ficar sempre só num segmento, ele se atrasa, fica arcaico, não pode ficar só nisso, tem que ser multifacetário mesmo.
CH: Mas quando você se tornou conhecido mesmo foi no Se Liga Bocão. Como você foi parar lá?
UB: Eu era repórter do SBT, de rede, na época e aí, o Se Liga Bocão precisava de um repórter que fosse para a rua e tivesse coragem. Então, eu saí da rede do SBT e caí direto no Se Liga Bocão.
CH: E aí? Como foi essa experiência?
UB: Foi uma experiência ótima, porque, até então, não existiam repórteres que fizessem incursão policial junto com a polícia. Não existia isso. Essa coisa de o repórter seguir numa operação junto com a polícia, de colocar colete mesmo, começou comigo e aí foi um sucesso danado e a gente começou a incrementar isso. Como não existia nada anterior, a gente foi começando a ter experiência disso e aí fomos colocando mais incursões policiais no Se Liga Bocão e aí foi que acabou, na TV Aratu.
CH: Agora, já perto do Se Liga Bocão deixar a TV Aratu, você estava fazendo mais estúdio e Zé Eduardo mais rua. Por que isso?
UB: Rapaz, foi uma decisão dele mesmo, na época, de inverter um pouco essa história. E aí, eu já tinha um projeto na TV Aratu engavetado – na época do Se Liga Bocão mesmo – de um programa policial na Bahia. Porque não existia programa policial na Bahia e em outros estados, sim. Porém, trazer um programa formatado de outro estado para a Bahia é muito difícil. Você tem que dar a cara da Bahia, seja ele policial, seja de qualquer coisa, na Bahia, você tem que dar a cara baiana. Tem que ter o axé da Bahia, senão não vai dar certo. Então, a gente já tinha esse projeto engavetado, já estava na mão da diretoria e passou uns quatro anos na gaveta. Isso quando eu era repórter do jornalismo, ainda.
CH: Você idealizou um programa policial antes mesmo de trabalhar no Se Liga Bocão?
UB: Já pensava. Por isso, inclusive, que eu acho que, como eles já sabiam da minha vontade de trabalhar com essa coisa policial, eles me colocaram no Se Liga Bocão. “Ah, a gente vai colocar você lá, que é um programa popular, mais ou menos sua linha” e eu me identifico muito com essa coisa de popular.
CH: O jeito com que você fala na TV, os gestos, tudo faz parte de um personagem para chocar ou faz parte do jeito Uziel Bueno de ser?
UB: Também faz parte de Uziel. Porque não é possível uma pessoa fazer um programa por quase dois anos e meio e ser personagem apenas. É impossível! Ali é Uziel indignado, que se transforma no povo indignado, o grito que eu dou é o grito do povo, tudo tem um significado. No programa que eu faço, tudo tem um significado, inclusive a roupa preta.
CH: O que significa a roupa preta?
UB: Roupa preta é o luto que as famílias baianas sentem ou passam todos os dias. A roupa preta é isso, o preto é isso que significa. “O sistema é bruto”, que é uma expressão que eu uso em meu programa tem um significado, porque tudo o sistema é bruto aqui na Bahia hoje. “ Aqui não é TV da Xuxa, não é Disneylândia”, porque a vida é como ela é e não é um parque de diversões, então tudo tem um significado e isso vem muito da minha formação de jornalista, da UFBA, que aprendeu semiótica, que veio da faculdade mesmo.
CH: Quando Zé Eduardo deixou o Se Liga Bocão, você assumiu o Que Venha o Povo com Zé Bim por três meses. De quem foi a decisão de tirar você do programa e criar o Na Mira?
UB: Entenda. Eu já tinha o Na Mira engavetado. Quando Casemiro veio assumir o Que Venha o Povo, eu cobrei “ó, está na hora da gente tirar da gaveta aquele meu programa” . E foi uma resistência muito grande por parte da TV Aratu, pelo preconceito mesmo, preconceito do formato policial. Porque na Bahia não tinha, então, eles se questionavam “o que é isso? Vai mostrar o quê?”. Então, ninguém acreditava. Mas a gente teve um poder de convencimento muito grande, não só na ideologia de um programa policial - da importância disso para a Bahia, de ter um programa policial para mostrar a verdade, ideologicamente – como também financeiramente, a gente provou que era viável. O que pesou mais, na minha opinião, para a TV Aratu aceitar um programa policial, eu não sei. Eu só sei que o lado financeiro valeu bastante, porque o lado comercial da história foi importantíssimo para viabilizar esse projeto. Porém, para mim, foi um projeto ideológico, como é até hoje em tudo o que eu faço. Tudo, na minha vida, é ideologia mesmo. É para ajudar o povo, para mudar a vida do baiano, é pra que, a pessoa que sofre alguma doença ou sofre com a fome, ou sofre de alguma forma com as autoridades omissas, elas tenham uma ajuda.
CH: O Na Mira era um programa bastante pesado, que gerava tristeza mesmo, angústia. E você, como era sua reação diante desses fatos que mostrava no programa?
UB: É impossível uma pessoa ser um personagem 100% todo dia, não dá. Ali estava Uziel. Não tinha como eu ver um pedófilo e achar o cara lindo, né? Não tem condições, eu tenho uma filha de três anos. Eu me emociono também, e falo exatamente o que o povo pensa. Eu não falo aquilo que o povo já sabe, eu falo o que ele está pensando. Por isso que o programa, por isso que “ o sistema é bruto”, por isso que Uziel, por isso o Na Mira deu muito certo. Porque fala a linguagem do povo e como o povo pensa, mas, às vezes, não tem coragem de falar.
CH: Como estava a audiência do Na Mira antes da sua saída?
UB: Excelente e a gente brigava realmente com o líder de audiência.
CH: Como tem sido essa sua experiência no rádio?
UB: Tem sido uma experiência muito rica. No rádio o povo é muito mais próximo [que na TV]... Todo dia ali, pegando a informação na hora que elas coisas acontecem; e sabendo o que as pessoas querem e o que elas acham do seu trabalho, através do telefone. É muito interessante e gratificante essa experiência e garanto que tenho gostado bastante.
Por Fernanda Figueiredo e Rafael Albuquerque
