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Transexual, estudante questiona 'relevância' de órgão reprodutivo: 'Sou uma mulher lésbica'

Por Juliana Almirante

Fotos: Reprodução
Estudante de música da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a transexual Beatriz Calore, de 22 anos, fez cirurgia facial para afeminar os próprios traços e toma hormônios femininos há um ano. Em conversa com o Bahia Notícias, ela explicou que as mudanças para aproximar o próprio corpo ao do sexo oposto querem atender à sua identidade e orientação sexuais. “Sou transexual, mas a parte reprodutiva é irrelevante. Sou uma mulher lésbica”, classificou Beatriz, que prefere ter o nome masculino omitido. Ela acrescenta que tem vontade de fazer cirurgia de mudança de sexo em breve, mas não no Brasil, e sim na Tailândia, onde poderia fazer o procedimento com menos perda do tecido nervoso. A universitária conta que encontrou, de maneira geral, aceitação dos seus amigos e da maioria das pessoas da própria família. “Alguns entenderam melhor e outros têm dificuldade de lidar. Tem alguns que tratam como se não tivesse acontecido nada: para bem ou para o mal”, definiu. Beatriz acredita que o preconceito existe também dentro da comunidade LGBT. “As pessoas acham que as transexuais estão denegrindo a imagem de gays, que deveriam se comportar de maneira contida para ser respeitadas. Acho que não existe isso, cada um tem que ter liberdade para ser o que é”, comparou. Ela avalia que as denominações “transexual” e “travesti” são carregados de distinções socialmente ligadas a desigualdades econômicas.  “O termo travesti está mais carregado de preconceito. De acordo com o que as pessoas pensam, travesti seria um transexual de classe mais baixa que não teria melhor opção no mercado de trabalho do que se prostituir. Acho que a diferença é mais social do que de identidade”, afirma.

O antropólogo baiano e pesquisador de sexualidade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Ailton Santos explica que as duas categorias, assim como outras criadas no âmbito científico, social ou político, distinguem da seguinte maneira: transexuais seriam pessoas que, independente da anatomia, veem a si mesmo como o sexo oposto; já as travestis, aquelas que gostariam de viver e ser vistos pelos outros como mulheres. Porém, segundo ele, as classificações de identidade não dão conta da multiplicidade existente. “A ciência dispõe de pouca tecnologia nesse sentido. A identidade de gênero, como penso, independe totalmente da anatomia. Quando se tenta entender a transexualidade, fica arraigada com as questões da heterossexualidade normativas”, compara. O pesquisador acredita que a aceitação da diversidade sexual na Bahia, estado com altos índices de homofobia, com balanço de até 15 mortes provocadas em 2012, ainda tem muito a desejar. “Um sujeito que não vive com a sexualidade dominante enfrenta muito preconceito. Sem falar no custo social. Eles tem que ser os melhores em diversos setores na vida para poder serem aceitos”, avaliou.