Pulverização aérea de inseticida é criticada: 'Vai fazer da população um grande experimento'
Sancionada nesta semana pelo presidente interino Michel Temer, a lei que autoriza o uso de aviões para pulverizar substâncias químicas contra o Aedes aegypti foi duramente criticada por organizações de saúde e combate a agrotóxicos. Ela prevê a "incorporação de mecanismos de controle vetorial por meio de dispersão por aeronaves mediante aprovação das autoridades sanitárias e da comprovação científica da eficácia da medida" para combate ao mosquito. Segundo a Agência Brasil, o Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (FNDCIA) afirmou, por meio de nota, que reprova a sanção presidencial. O procurador regional do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Pernambuco, Pedro Serafim, coordenador nacional da entidade, afirmou que a lei tem potencial para causar doenças nos seres humanos e outras espécies, além de perdas econômicas. "Alguns países da comunidade europeia, e também o Canadá e os Estados Unidos, vem restringindo a pulverização aérea. Nós vemos um retrocesso muito grave para a saúde pública. O fumacê não resolveu, tem tornado o mosquito resistente, e não vai ser com essa pulverização desordenada, que pouco alcança o alvo, que vai resolver", criticou. O coordenador do Grupo de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Marcelo Firpo, classificou a autorização prevista na lei como um "retrocesso civilizatório". Segundo ele, as áreas afetadas vão ser usadas como laboratórios. "Vai fazer da população em geral um grande espaço de experimentação humana com substâncias perigosas, cujos efeitos só vão aparecer anos depois". A lei não delimita quais substâncias serão permitidas ou proibidas nas pulverizações. A Abrasco critica o uso de qualquer produto, mas cita com maior preocupação o risco o perigo do Malation, químico usado em carros de fumacê pelo país. "Muitos princípios ativos que combatem, por exemplo, o ciclo reprodutivo dos insetos, também têm potencial de afetar o organismo humano. Esse é o caso da substância Malation. Foi classificado pelo IARC [sigla em inglês para Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer], ligado à OMS [Organização Mundial de Saúde], como um produto provavelmente cancerígeno". As organizações atribuem a sanção da lei por Temer a interesses do mercado.