Amamentação exige informação, apoio e assistência qualificada, diz especialista
A amamentação é um dos momentos primordiais e essenciais para o começo da vida de bebês. Mais do que uma forma de alimentar, o ato envolve proteção, vínculo, contato e cuidado, trazendo benefícios importantes para a saúde da criança e também da mulher. No entanto, apesar de ser cercada por expectativas e recomendações, a realidade da amamentação não é simples
Dor, dificuldades na pega, insegurança, cansaço, privação de sono, retorno ao trabalho e a pressão de opiniões externas são alguns dos desafios que podem marcar esse período. Para tratar sobre a importância de amamentar, o Bahia Notícias conversou com a coordenadora do banco de leite da Maternidade de Referência Prof. José Maria de Magalhães Netto (MPJMMN), Irís Beatriz.
A enfermeira chamou a atenção para os benefícios do leite materno, as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres, a importância do apoio durante o pós-parto e o papel da consultoria em amamentação. Além disso, a especialista também reforçou sobre a doação de leite humano. Mulheres interessadas em realizar a doação podem entrar em contato com o telefone (71) 99628-0855 da maternidade.
"Cada doação importa. Cada frasco representa cuidado, proteção, nutrição e esperança para quem mais precisa. Por isso, disponibilizo o contato do nosso Banco de Leite Humano para as mães que possuem leite excedente e desejam contribuir com essa causa tão humanitária", afirmou.
Confira a entrevista completa:
Quais são os principais benefícios do leite materno para o bebê?
O leite materno oferece os nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento do bebê nos primeiros meses de vida e contém fatores de proteção, como anticorpos, que ajudam na defesa contra infecções. A amamentação está associada à redução de doenças como diarreia e infecções respiratórias e também traz benefícios que podem se estender para outras fases da vida. A recomendação é de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses e continuidade da amamentação até os dois anos ou mais, junto à alimentação complementar adequada. E existe algo que considero muito especial: o leite materno não é apenas alimento. Ele também é proteção, vínculo, contato, acolhimento e cuidado.
E quais são os benefícios da amamentação para a mãe?
A amamentação também cuida da mulher. Ela contribui para a redução do sangramento no pós-parto e está associada à redução do risco de alguns tipos de câncer. Também favorece o vínculo entre mãe e bebê. Além dos benefícios físicos, existe toda uma dimensão emocional e afetiva. Mas é importante dizer que não devemos romantizar a amamentação. Ela pode ser muito bonita, mas também pode ser cansativa, dolorosa e desafiadora. A mulher precisa ser cuidada enquanto cuida.
Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres durante a amamentação?
São muitas. Podemos falar de dificuldades com a pega e o posicionamento, dor, fissuras, ingurgitamento, percepção de baixa produção de leite, dificuldade na ordenha, retorno ao trabalho, cansaço, privação de sono e insegurança. Também existem questões emocionais e sociais. Muitas mulheres chegam ao pós-parto cercadas de opiniões: “seu leite é fraco”, “esse bebê mama demais”, “dê um complemento”, “você precisa descansar”. Então, muitas vezes, a dificuldade não está apenas no peito ou no bebê. Está também no contexto em que essa mulher está inserida.

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil
A falta de informação e orientação ainda é um dos fatores que levam ao desmame precoce?
Com certeza. Informação de qualidade e apoio prático fazem diferença. A própria OMS reconhece a importância de oferecer às mulheres suporte para iniciar e estabelecer a amamentação e para lidar com dificuldades comuns. Há evidências de que intervenções educativas, incluindo aconselhamento e consultoria em lactação, podem contribuir para aumentar a duração da amamentação. Não podemos colocar o desmame precoce na conta da mulher por “falta de informação”. Existem fatores individuais, familiares, sociais, econômicos, profissionais e relacionados aos serviços de saúde. Por isso, falar de amamentação também é falar de políticas públicas, licença-maternidade, condições de trabalho, assistência qualificada e uma rede de apoio preparada.
Como você avalia a importância da rede de apoio para a mulher que está amamentando?
É fundamental. E rede de apoio não significa apenas alguém pegar o bebê para a mãe dormir. Às vezes, a melhor ajuda é alguém preparar uma refeição, cuidar da casa, proteger aquele momento de amamentação, ouvir sem julgar ou acompanhar a mulher em uma consulta. A mãe não precisa de mais uma pessoa dizendo o que ela está fazendo errado. Ela precisa de pessoas que perguntem: “Como posso te ajudar?” A OMS reforça justamente que famílias, amigos, empregadores, profissionais e comunidades têm papel na criação de ambientes favoráveis à amamentação.
O que pode ser feito para incentivar a amamentação sem gerar culpa ou pressão sobre as mulheres?
Precisamos mudar a forma como falamos sobre amamentação desde o pré-natal, isso realmente muda todo o cenário da amamentação e pós-parto. É necessário mostrar os benefícios do aleitamento, mas também falar sobre as dificuldades reais. Precisamos oferecer caminhos, profissionais preparados e uma rede de apoio, sem transformar a amamentação em uma prova de que aquela mulher é uma “boa mãe”. A mulher merece informação para tomar decisões conscientes, mas também merece acolhimento quando a realidade não acontece como ela imaginou.

Foto: Acervo Pessoal