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Entrevista

Pioneira no teste para zika, Bahiafarma busca fundar polo farmoquímico no estado

Por Júlia Vigné / Renata Farias

Foto: Luiz Fernando Teixeira / Bahia Notícias
Com um projeto 100% baiano, a Bahiafarma - Fundação Baiana de Pesquisa Científica e Desenvolvimento Tecnológico, Fornecimento e Distribuição de Medicamentos – saiu na frente de renomados laboratórios brasileiros com a criação do primeiro teste rápido para o zika vírus. Ronaldo Dias, presidente da Bahiafarma, afirma que com investimentos e expansão do portfólio, a Bahiafarma poderá ser independente do Estado e vir a trazer lucros futuros. “O que a Bahiafarma precisa de imediato é o mercado. Se a gente tiver o mercado, a gente registra o produto, a Sesab ou o Ministério passa a adquirir da Bahiafarma e, obviamente, a gente passa a ficar com essa renda para o estado da Bahia. Estamos identificando essas oportunidades para ver as melhores, identificamos o teste da zika, identificamos próteses, e estamos vendo agora a questão dos remédios para anemia falciforme, então a tendência é que a gente amplie isso”, afirmou. Buscando tornar a Bahia um polo farmoquímico do Brasil, a Bahiafarma realiza parcerias para buscar novas tecnologias e desenvolver o mercado baiano, tornando o Sistema Único de Saúde (SUS) cada vez mais independente. 
 
A nova diretoria da Bahiafarma vem sido construída desde o ano passado. Quais são as novas diretrizes/metas para essa gestão? Quais são os principais desafios a serem enfrentados?
A diretoria foi empossada em abril de 2015. Essa reestruturação começou pelo governador Rui Costa, eu assumi em abril de 2015 junto com o diretor financeiro. O diretor de operações foi nomeado em novembro, a diretora de desenvolvimento em dezembro e o diretor de qualidade em janeiro. Então, na verdade, a gente está em um processo de construção em virtude de um novo encaminhamento que o governador desejava. Fundamentalmente o que a gente está fazendo é, à medida que necessário, buscar quadros que tenham uma formação técnica necessária e que possam realmente se transformar e se adequar para essa nova estrutura que o governador deseja que a Bahiafarma possua. Então o que temos é uma diretoria eminentemente técnica, eu sou farmacêutico, o diretor de qualidade é farmacêutico, o diretor de desenvolvimento é farmacêutico, e estamos fazendo tudo necessário para que se construa esse novo encaminhamento. Eu acho que as metas da nova gestão são em primeiro lugar, obviamente, fazer com que a Bahiafarma ocupe o papel dela no complexo do Ministério da Saúde do Brasil. A gente tem o Instituto Butantan ativo em São Paulo, temos o Laboratório Vital Brazil ativo no Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo cruz, vários institutos regionais como o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), e a Bahiafarma que ainda não estava participando tão ativamente nisso, então acho que a primeira meta que a gente pode colocar é essa expansão. E a segunda realmente é ampliar esse leque. A Bahia hoje é um complexo do Brasil, não fazemos apenas medicamentos. Medicamento é uma parte, mas fazemos diagnóstico, prótese, tudo necessário para que o Sistema Único de Saúde seja atendido com plenitude, que é o objetivo da Bahiafarma neste momento.

Recentemente mais nove municípios baianos firmaram convênio para implantação da "Farmácia da Bahia". Quais são os próximos passos para a expansão do programa no estado?
O programa é um desejo do secretário do governador, uma vez que a assistência farmacêutica não é apenas fazer medicamento, é fazer com que o medicamento chegue na população que mais precisa. A Farmácia da Bahia é um programa exitoso que acreditamos que a segunda etapa dele seja colocada em vigência ainda neste ano, no máximo até o início do ano que vem. A tendência é que imediatamente se consiga consolidar uma nova etapa. Até agora 47 municípios já foram conveniados, várias farmácias foram entregues, e acreditamos que uma nova etapa será feita brevemente.

A Bahiafarma se configura como uma empresa estratégica para a atração e fixação de laboratórios e indústrias farmacêuticas na Bahia para futura criação de uma indústria farmoquímica no estado. Quais são os próximos passos para que a Bahia realmente se torne um polo farmoquímico?
A gente só ganhou o direito de trabalhar, só que agora tem que trabalhar, tem que trabalhar pesadamente. Fazer um produto para saúde tem uma dinâmica muito complexa, um arcabouço regulatório muito grande, é um setor altamente regulado. Então agora nós temos que realmente colocar isso em operação de maneira até mais rápida, porque a responsabilidade que a gente ganhou é muito maior do que a gente imaginava. Então para esse ano nós temos que consolidar a Bahiafarma não só como um polo emanador mas sim como um polo produtor efetivamente. 
 
Além do teste para o Zika, a Bahiafarma desenvolve testes para sífilis, dengue, chikungunya, HIV e hepatite B e C. Esses testes estão sendo realizados em parceria com uma empresa sul-coreana. Como essas parcerias auxiliam o desenvolvimento da Bahiafarma?
Todos os produtos que hoje estão “em prateleiras”, como a gente fala, são produtos que são frutos de transferência de tecnologia. A Bahiafarma está entrando agora, mas esse é um processo que está no Brasil mais ou menos há uns dez anos. O primeiro teste de HIV foi transferido em 2004 para a Fiocruz, então assim, a gente está participando de uma coisa que já está dando certo em outros lugares. A transferência de tecnologia é importante e interessante porque ela poupa tempo, economiza recurso e traz o mesmo resultado. Você consegue formatar o parque, dominar a tecnologia, ter o complexo industrial de saúde no estado porém você minimiza os erros e aumenta suas chances de êxito. Existem dados que se você pegar todas as vacinas que têm no Brasil hoje, todas elas foram feitas por transferência de tecnologia. Então hoje isso nos dá a maior cobertura vacinal do planeta, por exemplo. A Bahia está copiando um modelo que deu certo em outros lugares. Então o que a gente está fazendo é participar de uma forma ativa. Isso só tem vantagens, tanto para a Bahiafarma quanto para o Estado da Bahia.
 
Fábio Vilas-Boas recentemente afirmou que a Bahiafarma deve fechar 2017 com o faturamento de 1 bilhão de reais. Ele afirmou, ainda, que o laboratório se tornou "autossuficiente" e que passará a ser fonte de receita para o governo estadual. Qual é a importância dessa "independência" para a Bahiafarma?
Olha, eu acho que é fundamental. Para falar em números a gente sempre tem que tomar muito cuidado. Somos de um setor que na verdade somos apenas o meio, a gente só fabrica mas nós dependemos de quem compra, que no caso são as entes como a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e o Ministério. Eu acho que são possibilidades factíveis, porém analiso que a gente tem que, na verdade, pensar nessa alternativa de sustentabilidade a longo prazo. A Bahiafarma tem que ser independente do orçamento em longo prazo. É claro que isso não se dá em um, dois, três anos, isso é um processo. Outros laboratórios oficiais levaram 20, 30 anos para chegar. Claro que hoje você pode aprender com os erros e errar menos, porém isso não é imediato. Felizmente agora a tendência é que isso se transforme em uma realidade. A Bahiafarma se transformará em um polo que poderá gerar desenvolvimento e ampliação da indústria farmoquimica. Além de ter o ganho direto para a fundação, tem ganho indireto para o estado, que é muito importante. 
 
 Vocês firmaram parcerias com o laboratório italiano Bioimpati e com o laboratório sul-coreano Genbody INC para a produção de órteses e próteses. Qual é o impacto dessa produção da Bahiafarma para o SUS?
No mesmo dia que saiu o teste do zika, saiu as boas práticas de fabricação de próteses e órteses, o que permite que a gente comece a registrar esses produtos no Brasil. Nós começamos com o diagnóstico, e temos que fazer o mesmo caminho que estamos fazendo com próteses e órteses. Tivemos a autorização de funcionamento, realizamos o “boas práticas de fabricação” e, posteriormente, tem o registro do produto e, desta forma, eles vão sendo registrados e comercializados. A tendência é que a partir do mês que vem a gente comece a peticionar os grupos mediante as prioridades da Sesab. Próteses para quadril e joelho, por exemplo, estão elencados como prioridades absolutas, então serão feitas e aí a gente distribui. Eu acredito que teremos um efeito muito parecido com o que tivemos com as vacinas, os preços das vacinas, se você pensar 20 anos atrás, eram estratosféricos, hoje o preço é muito menor pela escala de compra que o SUS tem. Eu acho que a tendência é que a gente consiga diminuir o custo para o sistema, ampliando a qualidade, que é um problema hoje, diminuindo realmente a dificuldade de aquisição desses insumos. 
 
Qual é o atual cenário da Bahiafarma? Como a Bahiafarma impacta no estado da Bahia?
Hoje ela é uma fundação ligada ao orçamento, no caso da Sesab. É desejo do governador que isso seja impulsionado pela Sesab, para que isso ocorra. A gente precisa que haja investimento para que depois, à medida em que a gente tenha os registros, que possamos colher os frutos desse investimento. A Sesab ainda tem papel fundamental nessa estruturação da Bahiafarma, ainda contamos muito com a Sesab e acreditamos que a gente possa fazer essa parceria para atender à Secretaria mais rapidamente possível. O que a Bahiafarma precisa de imediato é o mercado. Se a gente tiver o mercado, a gente registra o produto, a Sesab ou o Ministério passa a adquirir da Bahiafarma e, obviamente, a gente passa a ficar com essa renda para o estado da Bahia. Estamos identificando essas oportunidades para ver as melhores, identificamos o teste da zika, identificamos próteses, e estamos vendo agora a questão dos remédios para anemia falciforme, então a tendência é que a gente amplie isso. Tendo portfólio completo, isso é natural do processo. É complementar. Obviamente que a partir do momento que você passa a faturar, você deixa de ser dependente, mas no momento a gente precisa que a Sesab invista para que possamos ampliar o portfólio de produtos da Bahiafarma. 

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