Médica de áreas extremas, Karina Oliani fala sobre crescimento da especialidade no Brasil
Elemento mais importante para sobrevivência dos seres vivos, o oxigênio foi tema de exposição feita pela médica e alpinista Karina Oliani durante evento sobre hipertensão pulmonar realizado na última terça-feira (12), em São Paulo (veja aqui). De acordo com a profissional, há relatos de pessoas que permaneceram 30 dias sem comida e até quatro dias sem água, mas apenas quatro minutos sem oxigênio já são suficientes para que o cérebro humano comece a sofrer efeitos negativos. Karina é a única médica brasileira especializada em medicina de emergência e resgate, além de terceira mulher brasileira a escalar o Monte Everest, apesar de apresentar um quadro de asma que se agrava com o frio. Após especialização na Universidade de Utah, nos Estados Unidos, a também apresentadora de programas de aventuras voltou ao Brasil e fundou, em 2012, a Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura (Abmar). "Uma pessoa decide fazer uma corrida de montanha, e a gente vai lá e faz toda a parte médica. Desde maratona na selva, expedições científicas...", explicou em entrevista ao Bahia Notícias. Karina contou ainda que, nos últimos anos, houve um crescimento expressivo da especialidade no Brasil. "A gente começou com cinco médicos e hoje está com 60. Além disso, a gente está com um módulo de medicina de emergência e resgate em áreas remotas dentro das duas principais residências médicas do país".
Inicialmente, gostaria de falar um pouco sobre o tema de sua palestra. Qual é a importância de respirar para o ser vivo?
O ser vivo tem uma prioridade e a prioridade de qualquer ser vivo é o ar, é respirar. Água, comida, todas essas coisas também são importantes para viver, mas, se tirarem tudo da gente, a primeira coisa que a gente precisa é o ar. Eu tenho asma e escalei o Everest, que é a montanha mais alta do mundo, onde você sente muita falta de ar por causa do ar super rarefeito. Então eu já senti na pele essa falta de ar e o quanto isso é importante para uma pessoa. A doença que mais mata escaladores de montanhas de altitudes extremas é o edema pulmonar. Os pulmões acabam encharcando, e a pessoa sente uma falta de ar tão súbita e absurda que acaba tendo que descer.
Pouco oxigênio também pode causar danos ao cérebro, correto? A senhora uma vez contou que, na subida de uma montanha, um câmera que lhe acompanhava teve um problema desse tipo e precisou descer. Como foi isso?
Por conta do pouco oxigênio, e ele não tinha se aclimatado o suficiente, teve um edema cerebral. Ele começou a ficar muito confuso, depois não conseguia falar nada com nada, depois não conseguia andar. No edema cerebral, a pessoa também evolui para confusão e coma muito rápido. Isso também tem a ver com a falta de oxigênio e a hipóxia a que o cérebro está sendo submetido.
A senhora está falando que tem asma e gosta de esportes radicais desde criança. Os esportes ajudaram no controle da asma ou a asma dificultou a prática dos esportes?
Eu tenho uma asma muito controlada, com crises raríssimas. Mas elas acontecem principalmente com ar muito frio, quando eu estou então em uma montanha, que é o que eu gosto de fazer. Eu levo bombinha, me previno e, graças a Deus, são raras as crises. Que fique assim. Eu não quero mais de jeito nenhum.
Como surgiu o interesse por se especializar em medicina em áreas remotas?
Desde pequena, eu já gosto desses esportes ao ar livre que me desafiam e alguns outros esportes radicais também. Quando me formei em medicina, em 2007, eu falei “e agora, eu me especializo em quê?”. Eu não queria ficar dentro de um consultório fechada, às vezes 15 ou 18 horas por dia, que é o que os médicos geralmente trabalham. Então eu me perguntei como poderia unir a minha paixão e minha profissão. A minha profissão é médica e minha paixão é estar em contato com a natureza, com esses ambientes outdoor. Eu descobri que na Universidade de Utah, nos Estados Unidos, tinha a WMS – Wilderness Medical Society – e um fellowship, que eu demoraria entre dois e três anos para completar, de Wilderness Medicine (medicina selvagem, em tradução livre). Eu fui para lá fazer e eram todas as especialidades ao ar livre: medicina de montanha, medicina aeroespacial, medicina de guerra, de selva, polar. Foi muito interessante e acabou me permitindo ter hoje a Medicina da Aventura, que é uma empresa que presta serviços médicos, consultoria médica para todos esses eventos em locais remotos do planeta. Por exemplo, eu já fui escalar o Monte Elbrus, que é a montanha mais alta da Europa e fica na Rússia, como médica, contratada por uma equipe de escaladores. Ou então uma corrida de aventura no Jalapão (TO), que cruzou todas as dunas. Aí eu vou lá e faço toda a coordenação médica. Eu consigo exercer a medicina que eu amo tanto e ir nos lugares que gosto de estar, com esse contato direto com a natureza.
Sim, precisa. Hoje em dia inclusive a gente tem a Abmar (Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura), da qual sou membro. A gente participa de diversos eventos. Uma pessoa decide fazer uma corrida de montanha, e a gente vai lá e faz toda a parte médica. Desde maratona na selva, expedições científicas... Um outro membro da Abmar acabou de voltar de uma expedição de 40 dias na Amazônia, onde estavam muitos cientistas. Ele fez toda a parte médica para a equipe.
Então geralmente o médico é chamado previamente, não em uma situação de emergência, como um resgate?
Existem as situações de emergência também, mas a gente tem equipes especializadas, como o GRAU (Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências) por exemplo, que faz um resgate aéreo junto ao helicóptero Águia. No caso da Abmar ou Medicina da Aventura, a gente é contratado previamente para uma prova e as emergências acontecem no local. Você não sabe o que vai acontecer com o atleta. A gente trabalha com medicina de emergência, mas previamente a gente fecha com os organizadores do evento.
É possível observar um crescimento da especialidade no Brasil?
Bastante. Eu fui a primeira presidente da Abmar, nos primeiros quatro anos. A associação já está no seu quinto ano e está sendo presidida por um outro colega meu. A gente aumentou. Estamos com mais de 60 médicos associados e o crescimento é nítido. A gente começou com cinco e está com 60. Além disso, a gente está com um módulo de medicina de emergência e resgate em áreas remotas dentro das duas principais residências médicas do país, no Hospital das Clínicas de São Paulo e na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A gente também vai ter esse ano o primeiro Congresso de Medicina de Extremos, em Ilhabela (SP). Já tivemos simpósios antes.
Nessas situações é sempre necessário manter a calma para conseguir resolver os problemas da melhor forma possível. Ainda assim, imagino que o medo está presente. Houve alguma situação que marcou por esse motivo?
O medo é uma coisa que a gente sempre sente, mas a gente aprende a controlar. Eu me coloco em situações de risco constantemente. Claro que não de maneira irresponsável, mas de maneira muito planejada. Mesmo assim, os imprevistos acontecem e são situações de risco, mas eu sempre estive preparada para lidar com isso porque eu me preparei e planejei muito. Teve uma situação que meu olho acabou grudando porque congelou. Eu fiquei sem enxergar já no caminho para o cume do Everest. Eu fiquei com muito medo de perder o olho. Como médica, eu me dei conta que eu tinha uma possibilidade real de perder a visão e fiquei muito preocupada, mas a gente conseguiu resolver.
Quanto à carreira de apresentadora, quais são as novidades agora?
Eu estou no ar, no canal Off, com Águas Selvagens, que deve permanecer até a metade do ano. Depois estreio uma nova série que fui convidada pra fazer no Discovery Channel, no segundo semestre.
Inicialmente, gostaria de falar um pouco sobre o tema de sua palestra. Qual é a importância de respirar para o ser vivo?
O ser vivo tem uma prioridade e a prioridade de qualquer ser vivo é o ar, é respirar. Água, comida, todas essas coisas também são importantes para viver, mas, se tirarem tudo da gente, a primeira coisa que a gente precisa é o ar. Eu tenho asma e escalei o Everest, que é a montanha mais alta do mundo, onde você sente muita falta de ar por causa do ar super rarefeito. Então eu já senti na pele essa falta de ar e o quanto isso é importante para uma pessoa. A doença que mais mata escaladores de montanhas de altitudes extremas é o edema pulmonar. Os pulmões acabam encharcando, e a pessoa sente uma falta de ar tão súbita e absurda que acaba tendo que descer.
Pouco oxigênio também pode causar danos ao cérebro, correto? A senhora uma vez contou que, na subida de uma montanha, um câmera que lhe acompanhava teve um problema desse tipo e precisou descer. Como foi isso?
Por conta do pouco oxigênio, e ele não tinha se aclimatado o suficiente, teve um edema cerebral. Ele começou a ficar muito confuso, depois não conseguia falar nada com nada, depois não conseguia andar. No edema cerebral, a pessoa também evolui para confusão e coma muito rápido. Isso também tem a ver com a falta de oxigênio e a hipóxia a que o cérebro está sendo submetido.
A senhora está falando que tem asma e gosta de esportes radicais desde criança. Os esportes ajudaram no controle da asma ou a asma dificultou a prática dos esportes?
Eu tenho uma asma muito controlada, com crises raríssimas. Mas elas acontecem principalmente com ar muito frio, quando eu estou então em uma montanha, que é o que eu gosto de fazer. Eu levo bombinha, me previno e, graças a Deus, são raras as crises. Que fique assim. Eu não quero mais de jeito nenhum.
Como surgiu o interesse por se especializar em medicina em áreas remotas?
Desde pequena, eu já gosto desses esportes ao ar livre que me desafiam e alguns outros esportes radicais também. Quando me formei em medicina, em 2007, eu falei “e agora, eu me especializo em quê?”. Eu não queria ficar dentro de um consultório fechada, às vezes 15 ou 18 horas por dia, que é o que os médicos geralmente trabalham. Então eu me perguntei como poderia unir a minha paixão e minha profissão. A minha profissão é médica e minha paixão é estar em contato com a natureza, com esses ambientes outdoor. Eu descobri que na Universidade de Utah, nos Estados Unidos, tinha a WMS – Wilderness Medical Society – e um fellowship, que eu demoraria entre dois e três anos para completar, de Wilderness Medicine (medicina selvagem, em tradução livre). Eu fui para lá fazer e eram todas as especialidades ao ar livre: medicina de montanha, medicina aeroespacial, medicina de guerra, de selva, polar. Foi muito interessante e acabou me permitindo ter hoje a Medicina da Aventura, que é uma empresa que presta serviços médicos, consultoria médica para todos esses eventos em locais remotos do planeta. Por exemplo, eu já fui escalar o Monte Elbrus, que é a montanha mais alta da Europa e fica na Rússia, como médica, contratada por uma equipe de escaladores. Ou então uma corrida de aventura no Jalapão (TO), que cruzou todas as dunas. Aí eu vou lá e faço toda a coordenação médica. Eu consigo exercer a medicina que eu amo tanto e ir nos lugares que gosto de estar, com esse contato direto com a natureza.
Foto: Reprodução/ Instagram
Sim, precisa. Hoje em dia inclusive a gente tem a Abmar (Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura), da qual sou membro. A gente participa de diversos eventos. Uma pessoa decide fazer uma corrida de montanha, e a gente vai lá e faz toda a parte médica. Desde maratona na selva, expedições científicas... Um outro membro da Abmar acabou de voltar de uma expedição de 40 dias na Amazônia, onde estavam muitos cientistas. Ele fez toda a parte médica para a equipe.
Então geralmente o médico é chamado previamente, não em uma situação de emergência, como um resgate?
Existem as situações de emergência também, mas a gente tem equipes especializadas, como o GRAU (Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências) por exemplo, que faz um resgate aéreo junto ao helicóptero Águia. No caso da Abmar ou Medicina da Aventura, a gente é contratado previamente para uma prova e as emergências acontecem no local. Você não sabe o que vai acontecer com o atleta. A gente trabalha com medicina de emergência, mas previamente a gente fecha com os organizadores do evento.
É possível observar um crescimento da especialidade no Brasil?
Bastante. Eu fui a primeira presidente da Abmar, nos primeiros quatro anos. A associação já está no seu quinto ano e está sendo presidida por um outro colega meu. A gente aumentou. Estamos com mais de 60 médicos associados e o crescimento é nítido. A gente começou com cinco e está com 60. Além disso, a gente está com um módulo de medicina de emergência e resgate em áreas remotas dentro das duas principais residências médicas do país, no Hospital das Clínicas de São Paulo e na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A gente também vai ter esse ano o primeiro Congresso de Medicina de Extremos, em Ilhabela (SP). Já tivemos simpósios antes.
Nessas situações é sempre necessário manter a calma para conseguir resolver os problemas da melhor forma possível. Ainda assim, imagino que o medo está presente. Houve alguma situação que marcou por esse motivo?
O medo é uma coisa que a gente sempre sente, mas a gente aprende a controlar. Eu me coloco em situações de risco constantemente. Claro que não de maneira irresponsável, mas de maneira muito planejada. Mesmo assim, os imprevistos acontecem e são situações de risco, mas eu sempre estive preparada para lidar com isso porque eu me preparei e planejei muito. Teve uma situação que meu olho acabou grudando porque congelou. Eu fiquei sem enxergar já no caminho para o cume do Everest. Eu fiquei com muito medo de perder o olho. Como médica, eu me dei conta que eu tinha uma possibilidade real de perder a visão e fiquei muito preocupada, mas a gente conseguiu resolver.
Quanto à carreira de apresentadora, quais são as novidades agora?
Eu estou no ar, no canal Off, com Águas Selvagens, que deve permanecer até a metade do ano. Depois estreio uma nova série que fui convidada pra fazer no Discovery Channel, no segundo semestre.