No mês da visibilidade trans, otorrinolaringologista explica como é feita a transição de voz
A conexão entre a voz e a identidade de gênero é uma etapa significativa no processo de reconhecimento social para pessoas trans, que se identificam com um gênero diferente daquele designado ao nascimento. Em janeiro, quando se comemora o Mês da Visibilidade Trans, é importante reforçar a importância da readequação vocal para a autoestima e a qualidade de vida dessas pessoas.
A transição vocal é muito mais do que uma mudança na voz: envolve sonhos, expectativas e, muitas vezes, o medo do que os outros vão pensar; é algo que está diretamente ligado à socialização. Não é raro, no consultório, o relato de pessoas transgênero com disforia vocal, que evitam falar em público para não chamar a atenção pelo timbre.
A cirurgia de “feminização da voz”, também conhecida como glotoplastia, é feita por dentro da boca, sem deixar cicatriz, e dura cerca de duas horas. Após o procedimento, a paciente deve permanecer de 7 a 10 dias em silêncio absoluto. A voz só vai estar no formato definitivo depois de 6 a 8 meses, e nem sempre essa espera é fácil. Por isso, estar em equilíbrio e buscar acompanhamento especializado é fundamental para garantir um pós-operatório mais tranquilo e uma recuperação melhor.
A adaptação vocal após a glotoplastia envolve um processo de reeducação com acompanhamento fonoaudiológico e psicológico, além de cuidados necessários para que a paciente compreenda novamente o funcionamento da musculatura da laringe e atinja uma voz confortável e natural. Essa espera é sempre desafiadora para pacientes que buscam fazer a transição vocal, por isso, é importante que as expectativas estejam bem alinhadas desde o início.
Além disso, a glotoplastia evoluiu ao longo do tempo e, diante do avanço tecnológico, como o uso de lasers e técnicas minimamente invasivas, pode ser realizada com maior segurança, precisão e resultados menos inflamatórios. Após a cirurgia, é necessário o acompanhamento médico regular, com laringoscopias, para monitorar o desenvolvimento da voz e alcançar os resultados desejados.
A glotoplastia desempenha um papel fundamental no pertencimento durante o processo de transição de gênero, que envolve mudanças que afetam a saúde física e mental. Também atendo pacientes cis que sofrem com disforia vocal, ou seja, que se sentem intimidadas em falar em público devido à voz, seja pelo uso de anabolizantes ou outras questões. Já os homens trans costumam ficar satisfeitos com as mudanças proporcionadas pela terapia hormonal. Como a testosterona tem um papel virilizante na voz, o uso do hormônio, na maioria das vezes, é suficiente.
Outro procedimento que pode ser realizado em conjunto com a glotoplastia é a condroplastia, cirurgia para redução do pomo de Adão. A retirada do pomo de Adão é uma questão estética que não interfere na voz, mas que pode ser fundamental para construção da autoestima e para trazer um sentimento de pertencimento às mulheres trans.
*Érica Campos é referência em transição vocal. Ela possui Fellowship em Laringologia e Otorrinolaringologia Pediátrica Avançada (UNICAMP), é Mestre em Neurolaringologia (UNICAMP) e tem formação complementar no Mount Sinai Hospital, em Nova York (EUA), e no Massachusetts General Hospital & Harvard Medical School, em Massachusetts (EUA). É Membro Titular da ABORL-CCF (Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial) e Full Member da IATVS (International Association of TransVoice Surgeons). Também atua como preceptora no Serviço de Laringologia do Hospital Universitário Prof. Edgard Santos (UFBA) e no Hospital Otorrinos.
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