Janeiro Branco: desvendando a conexão entre saúde mental e digestiva
A complexa relação entre a saúde digestiva e a saúde mental envolve a interação entre o sistema nervoso central, o sistema nervoso entérico (composto por milhões de neurônios na parede intestinal) e a microbiota intestinal, esta que é formada por microrganismos que colonizam o trato gastrointestinal humano. A função do cérebro influencia diretamente a função intestinal e vice-versa, em um eixo bidirecional. A microbiota intestinal é um componente central desse eixo, interferindo no bem-estar psicológico através da produção de alguns neurotransmissores, como por exemplo, a serotonina, a dopamina e a GABA, além dos ácidos graxos de cadeia curta.
Há muito tempo, a medicina tradicional reconheceu o impacto do intestino na saúde geral e a ciência contemporânea comprova essa associação por meio de investigações da microbiota intestinal. Esses agentes microscópicos participam dos processos digestivos, como absorção de nutrientes e influenciam a função imunológica e a defesa contra patógenos. Dessa forma, uma variedade de distúrbios gastrointestinais e extra-intestinais pode resultar da disbiose, que é um desequilíbrio na composição dessa microbiota.
Com a urbanização acelerada, as demandas crescentes da vida moderna e a sobrecarga de informações, o nível de estresse vem aumentando nos últimos anos. Como consequência, podemos observar a crescente incidência de transtornos psiquiátricos e distúrbios funcionais do trato gastro-intestinal. Evidências pré-clínicas e clínicas mostraram como a exposição ao estresse pode alterar a microbiota intestinal e seus metabólitos, contribuindo para distúrbios mentais e psiquiátricos.
Nesse contexto, com o aumento da permeabilidade intestinal, bactérias e produtos bacterianos podem translocar do intestino para a corrente sanguínea, linfonodos e outros órgãos, ativando respostas inflamatórias sistêmicas. A inflamação circulante aumentada pode ser um fator etiológico em transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse, incluindo alguns casos de depressão.
A fronteira da saúde mental do século XXI não se limita mais apenas ao cérebro, mas se estende ao vasto ecossistema microbiano que habita nosso trato digestivo. Esta mudança de paradigma não apenas promete novas abordagens para o tratamento de transtornos mentais, mas também redefine nossa compreensão do que significa ser "mentalmente saudável". Esta nova fronteira nos convida a repensar a dicotomia mente-corpo, oferecendo uma visão unificada da saúde humana.
*Vanessa Teixeira é especialista em gastroenterologia na CliaGEN, pertencente ao Grupo CITA.
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