Não deixe a culpa pesar na balança
É fato que toda ação tem uma reação. Mas, em se tratando de obesidade, a seara é bem mais complexa que o raciocínio trazido das exatas, mais especificamente da física. Aqui ele confronta com um sem-número de fatores implicados no ganho de peso, que vão muito além de comer muito e ser sedentário.
O senso comum desde sempre entende que o indivíduo portador de obesidade é absolutamente responsável pelo peso que porta, sem contabilizar as incontáveis nuances que permeiam a obesidade enquanto doença que é, crônica e progressiva, diga-se, porém passível de controle e, eventualmente, remissão sustentada.
Você está curios@ para saber de que nuances estou falando? Então vamos lá:
- a GENÉTICA pode falar alto: há mais de 340 genes implicados na origem da obesidade
- a EPIGENÉTICA (a maneira como o DNA de cada um de nós se expressa, a partir de interações com o meio-ambiente) pode ser favorável à instalação da obesidade
- muitos DISTÚRBIOS HORMONAIS estão implicados (e aqui não falo da bendita tireoide, sempre alvo do ganho de peso como hipótese causal e, na prática, “inocente” na maioria dos casos); tratam-se de hormônios dosados apenas em laboratórios de pesquisa, tais como GIP, GLP1, leptina, grelina, insulina, glucagon, miocinas, irisina
- complexos FATORES INFLAMATÓRIOS estão num contexto de “pano de fundo” da obesidade, que é uma doença de natureza pró-inflamatória. Substâncias ditas citocinas, as adipocinas (produzidas pelo tecido gorduroso) estão em níveis elevados neste contexto
- FATORES NEUROQUÍMICOS complementam o enredo e são parte importante dele, através dos sistemas neuronais de recompensa cerebral onde circula a dopamina (“molécula do prazer”)
Logo vê-se, portanto, o quão complexa é a obesidade enquanto patologia médica, tanto na sua origem quanto na sua perpetuação e tendência à piora (lembre-se, doença crônica e de tendência progressiva).
Os mecanismos fisiopatológicos da obesidade e a sua perspectiva enquanto doença (genética/epigenética/hormonal/metabólica/inflamatória/neuroquímica) não eximem qualquer paciente de sua parcela de responsabilidade, sobretudo naqueles casos em que o estilo adotado de vida é inadequado, contudo, apontam para o fato de que a obesidade não se trata de desvio de conduta ou caráter, mas de uma trama complexa entre fatores que estão ou não ao alcance do indivíduo.
Assim sendo, hábitos de vida saudáveis como alimentação equilibrada prescrita por nutricionista e atividade física regular (idealmente 250 minutos na soma da semana de atividade moderada à intensa, combinando aeróbicos com exercícios de resistência) continuam tendo importância relevante no tratamento da obesidade, mas é necessário entender que auxílio medicamentoso muitas vezes é de suma importância para resgatar o indivíduo da condição em que ele se encontra e mantê-lo num peso que lhe permita ser classificado como “obeso controlado” (termo este recente e cada vez mais amplamente utilizado no meio médico para se referir a uma perda de peso suficiente para reduzir significativamente o risco de mortalidade e doenças associadas).
Por fim, vamos ajudar mais e culpabilizar menos. Sem romantizar a obesidade no que eu chamaria de obesofolia, nem tampouco vestí-la de preconceito e obesofobia.
*Nathale Prates é Médica Endocrinologista e Metabologista (CRM-BA 19759 RQE 11857)
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