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Saúde mental das crianças: como pais e professores influenciam no seu desenvolvimento

Por Jamile Tupinambá

Foto: Divulgação

Temos visto crescer o número de crianças e jovens em sofrimento emocional, com depressão e até mesmo chegando a atitudes extremas. Na pandemia, isso se agravou ainda mais. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), apontou que uma a cada quatro crianças tem depressão ou ansiedade. Muitos de nós, adultos, não conseguimos entender esse fenômeno que se dá, muitas vezes, não só por alterações bioquímicas no cérebro, mas também através da herança de uma educação arcaica, que diminui a forma como enxergamos e ainda tratamos as crianças, adoecendo-as.

 

Sob a perspectiva da Neurociência, na infância, a criança ainda não tem desenvolvida a região do cérebro chamada córtex pré-frontal, que é responsável pela análise, criticidade e razão. Sendo assim, a criança acredita em que tudo o que dizem sobre ela, como verdade absoluta e inquestionável, principalmente quando essas palavras saem da boca das pessoas com que ela mais ama e convive: seus cuidadores. Nessa fase, os pais e os professores são os principais responsáveis por ajudar, a desenvolver ou a destruir, a autoconfiança e autoestima daquele indivíduo em formação.

 

O problema é que na forma de educar tradicional, passada de geração em geração, a gente acaba reproduzindo padrões, sem a devida reflexão. O famoso jargão “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. E assim vamos conduzindo a criança de forma inconsciente. Repetindo as mesmas formas de educar, sem intencionalidade e sem propósito. Quando a criança tem um mau comportamento, utilizamos palavras ofensivas sem saber do real impacto que elas vão gerar no futuro.

 

Os cuidadores (pais, responsáveis e professores) são as pessoas de maior referência, para a criança. Quando a gente diz algo como “você é teimosa”, “você é muito agitada” ou “você é devagar”, ela não é capaz de ponderar se o que está sendo dito é verdade. Quando os pais falam isso, a criança não vai pensar “eu estou agressiva” ou “eu tive um comportamento agressivo”, ela vai entender como “eu sou agressiva” e o cérebro, de forma inconsciente, vai fazer de tudo para provar esse comportamento para os pais. Ao invés de entender um comportamento temporário, ela pega esse rótulo e assimila como parte da sua identidade. Por isso, a importância de separar o comportamento da identidade da criança.

 

Quando os pais usam palavras rudes e agressivas as crianças não deixam de amá-los, nunca. Elas vão deixar de amar a si mesmas. As palavras mexem na autoconfiança, na autoestima e na formação da própria identidade. A criança vai se afastando da sua essência para criar uma máscara naquele rótulo que ela recebeu.

 

Esse é um grande problema na educação atualmente, mas que pode ser resolvido de forma consciente, simples e rápida se os pais, os professores, os cuidadores, refletirem sobre suas palavras, pensarem o que está havendo por trás do mau comportamento. É importante também, os educadores perceberem a si próprios no momento de educar, pois é impossível educar ao outro, sem educar a sim mesmo. Pois, se eles estão educando com o sentimento de raiva, obviamente vão ser agressivos, mas se estão educando com o pensamento de ajudar a criança em seu desenvolvimento, isso vai gerar um sentimento de empatia e o adulto vai usar palavras mais doces, mais afetivas.

 

A neurociência prova hoje que a afetividade deve andar de mãos dadas com a educação porque, cientificamente falando, se a criança se sente segura e amada, ela vai liberar dopamina e endorfina no cérebro, que são hormônios do bem-estar, e ela vai aprender com muito mais facilidade. Já se a criança tem medo, ela vai liberar cortisol, que é o hormônio do medo. Ninguém aprende nada com medo, se sentindo julgado, se sentindo ameaçado. A boa intenção dos pais ou dos educadores em educar, não vai garantir uma boa educação se eles não estiverem conscientes e atualizados. Para isso, é fundamental entender sobre desenvolvimento infantil e nosso papel como cuidadores, seja em casa, seja na escola, visando garantir a saúde emocional das crianças, com a educação fazendo sua parte.

 

*Jamile Tupinambá é educadora humanizada, neurocientista da aprendizagem, fundadora da Escola Pampédia - Espaço Livre de Educação e idealizadora da Pedagogia Humanizada.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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