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Parar de fumar após o diagnóstico de câncer pode aumentar a sobrevida

Por Juliane Penalva

Foto: Divulgação

Receber um diagnóstico de câncer é um momento que transforma profundamente a vida de qualquer pessoa. A partir daí, as atenções se voltam para o estágio da doença, as possibilidades de tratamento e as perspectivas de recuperação. Em meio a tantas preocupações, uma questão fundamental nem sempre recebe a atenção necessária: a importância de abandonar o cigarro, mesmo depois da confirmação do diagnóstico.

 

Durante muito tempo, a cessação do tabagismo foi abordada principalmente como uma estratégia de prevenção do câncer. Entretanto, evidências científicas cada vez mais consistentes demonstram que parar de fumar também pode modificar favoravelmente a evolução da doença, contribuindo para melhores resultados clínicos e maior sobrevida.

 

Um estudo prospectivo publicado na revista científica JAMA Oncology, em 2024, acompanhou 4.526 pacientes com câncer que fumavam. Entre aqueles que iniciaram um tratamento estruturado para cessação do tabagismo nos primeiros seis meses após o diagnóstico, a sobrevida no percentil 75 foi de 3,9 anos entre os que abandonaram o cigarro, contra 2,1 anos entre os que continuaram fumando. Os resultados apontam uma associação importante entre a interrupção do tabagismo e o aumento da sobrevida, reforçando a necessidade de incorporar esse cuidado ao tratamento oncológico.

 

Em setembro de 2026, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), também publicou uma síntese de evidências sobre o tema, destacando a relevância da cessação do tabagismo após o diagnóstico de câncer.

 

É importante compreender que os prejuízos provocados pelo cigarro não desaparecem quando a doença é diagnosticada. Pelo contrário, continuar fumando pode aumentar o risco de complicações cirúrgicas, prejudicar a recuperação pulmonar e contribuir para complicações relacionadas aos tratamentos. Por isso, abandonar o tabagismo deve ser considerado parte integrante do cuidado oncológico, independentemente do estágio da doença.

 

No entanto, sabemos que essa decisão nem sempre é simples. A dependência da nicotina envolve mecanismos físicos, psicológicos e comportamentais que tornam o processo de cessação desafiador. Quando esse desafio surge em um momento de grande vulnerabilidade emocional, como o diagnóstico de câncer, as dificuldades podem ser ainda maiores.

 

Para muitos pacientes, o cigarro está associado à tentativa de aliviar a ansiedade, o medo e o sofrimento. Nesse contexto, uma abordagem baseada na culpa ou no julgamento pode afastar a pessoa da equipe de saúde e dificultar o abandono do tabagismo. É fundamental substituir a cobrança pelo acolhimento, oferecendo orientação, escuta e acompanhamento individualizado.

 

A boa notícia é que a dependência do tabaco tem tratamento. O acompanhamento pode envolver suporte comportamental e medicamentos que auxiliam no controle da dependência, sempre de acordo com as necessidades e condições clínicas de cada paciente. Também é importante compreender que eventuais recaídas podem fazer parte desse processo e não devem ser interpretadas como fracasso, mas como situações que exigem reavaliação e continuidade do cuidado.

 

Um dos principais equívocos que precisamos combater é a ideia de que, depois do diagnóstico de câncer, não adianta mais parar de fumar. Essa percepção pode fazer com que o paciente perca uma oportunidade importante de melhorar sua evolução clínica. Independentemente do tempo de exposição ao tabaco, interromper o consumo continua sendo uma medida relevante para a saúde.

 

O enfrentamento do câncer exige uma abordagem ampla, que considere não apenas o tratamento do tumor, mas também os fatores que podem interferir na recuperação e na qualidade de vida. Nesse cenário, a cessação do tabagismo precisa ocupar um espaço de destaque, com a participação de diferentes profissionais de saúde e o envolvimento da rede de apoio do paciente.

 

Parar de fumar não muda o diagnóstico que já foi feito, mas pode influenciar positivamente o caminho que será percorrido a partir daquele momento. Mais do que uma mudança de hábito, abandonar o cigarro representa uma oportunidade de ampliar os cuidados com a saúde e melhorar as perspectivas de tratamento.

 

Nunca é tarde para parar de fumar. Mesmo diante de um diagnóstico de câncer, essa decisão pode fazer diferença na qualidade de vida, na resposta ao tratamento e na sobrevida. E, acima de tudo, ninguém precisa enfrentar esse desafio sozinho.

 

*Juliane Penalva é Pneumologista do Centro Integrado do Tórax  / CRM-BA 26317

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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