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Esclerose múltipla: quando normalizar sintomas pode custar tempo de tratamento

Por Eduardo Cardoso

Foto: Divulgação

Há sintomas com que aprendemos a conviver sem questionar. O cansaço depois de uma rotina intensa parece consequência natural dos dias corridos. Um formigamento pode ser atribuído à postura. Uma alteração visual, ao excesso de telas. Quando esses sinais aparecem em pessoas jovens, previamente saudáveis, é ainda mais comum procurar uma explicação simples para aquilo que o corpo está comunicando.

 

O problema começa quando essa normalização faz com que sintomas neurológicos persistentes ou recorrentes deixem de ser investigados.

 

A esclerose múltipla é um exemplo importante. A doença é diagnosticada principalmente em adultos jovens, frequentemente entre 20 e 40 anos, e pode se manifestar de diferentes formas. Alterações na visão, dormência, formigamentos, perda de força, desequilíbrio, dificuldades para caminhar e alterações urinárias estão entre os possíveis sinais. A fadiga também merece atenção especial: em alguns pacientes, não se trata apenas de cansaço, mas de uma exaustão desproporcional à atividade realizada, capaz de interferir no trabalho, nos estudos e na rotina.

 

Isso não significa que qualquer formigamento ou alteração visual seja esclerose múltipla. Na realidade, esses sintomas podem ter diversas causas. O que deve despertar atenção é o padrão: uma manifestação neurológica nova, sem explicação evidente, que persiste, interfere na função ou volta a acontecer. Quando diferentes sintomas aparecem em momentos distintos, também é importante investigar.

 

É justamente nesse ponto que precisamos rever a maneira como lidamos com o estresse e a ansiedade. Ambos podem produzir ou intensificar sintomas físicos e não devem ser desconsiderados. O problema está em transformá-los automaticamente na explicação para qualquer manifestação recorrente.

 

Na prática, um jovem que apresenta formigamento pode pensar que ficou muito tempo em determinada posição. Uma pessoa exausta pode atribuir a fadiga ao trabalho. Uma alteração visual pode ser colocada na conta do excesso de telas. Quando esses episódios passam e retornam semanas ou meses depois, a impressão de que não há nada importante acontecendo pode se fortalecer.

 

Esse comportamento pode atrasar uma avaliação especializada e, consequentemente, o diagnóstico.

 

Hoje sabemos que existe uma janela de oportunidade terapêutica nos primeiros anos da esclerose múltipla. Mesmo quando um paciente se recupera aparentemente bem de um surto, pode haver atividade inflamatória e dano neurológico acontecendo de maneira silenciosa. O tratamento iniciado precocemente pode reduzir novos surtos, novas lesões na ressonância magnética e o risco de acúmulo de incapacidade ao longo do tempo.

 

A boa notícia é que também avançamos muito na capacidade de diagnosticar e tratar a doença. A investigação combina história clínica, exame neurológico e exames complementares, como ressonância magnética e, em determinadas situações, análise do líquor e outros testes  específicos. Os critérios internacionais de diagnóstico passaram por atualizações recentes, incorporando novos conhecimentos que podem contribuir para diagnósticos mais precoces e precisos.

 

Também mudou a perspectiva de quem recebe o diagnóstico. Esclerose múltipla não deve ser encarada como uma sentença de incapacidade. Existem pacientes que continuam trabalhando, estudando, praticando atividade física, viajando e mantendo uma vida ativa por muitos anos. O acompanhamento regular e as terapias modificadoras da doença transformaram as perspectivas de longo prazo.

 

Por isso, falar sobre esclerose múltipla também é falar sobre tempo. Tempo para reconhecer um sinal, buscar avaliação ou chegar ao diagnóstico. E tempo para iniciar o tratamento adequado.

 

No Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, em 30 de agosto, precisamos ir além de falar sobre a doença e discutir  a importância de escutar o próprio corpo. Nem todo sintoma deve ser transformado em motivo de preocupação, mas é preciso compreender que aquilo que insiste em voltar merece ser investigado.

 

Não normalize um sintoma neurológico que permanece sem explicação ou insiste em voltar. Nem todo formigamento, alteração visual ou episódio de tontura será esclerose múltipla. Mas sintomas neurológicos recorrentes devem ser avaliados. Em neurologia, reconhecer a doença mais cedo pode significar preservar função e qualidade de vida.

 

*Eduardo Cardoso é neurologista da Clínica IBIS

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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