A vida é um aluguel. Então por que vivemos como se fôssemos donos de tudo?
Sempre que compartilho nas redes sociais uma reflexão que me acompanha há muitos anos: “A vida é um aluguel”, recebo dezenas de mensagens de leitores desconfortáveis com essa ideia. Curiosamente, ela produz em mim o efeito contrário. Quanto mais penso nisso, mais leve me sinto.
Pode parecer estranho começar um artigo sobre felicidade, minha especialidade, falando de impermanência, mas é justamente aí que mora uma das maiores libertações que conheço.
Nada do que hoje chamamos de “meu” realmente nos pertence. A casa onde moramos, a empresa que construímos, o cargo que ocupamos, o dinheiro que acumulamos, o carro que dirigimos e até este corpo que agora nos permite viver tantas histórias, tudo isso apenas passa pelas nossas mãos durante um determinado tempo.
Ainda assim, passamos boa parte da vida apegados àquilo que nunca foi, nem nunca será, nosso.
Vivemos numa sociedade que nos ensinou a acumular de patrimônio a títulos, de seguidores, a compromissos. Quanto mais temos, mais acreditamos que precisamos ter. O curioso é que, ao mesmo tempo em que o mundo nunca ofereceu tantas possibilidades, também nunca registrou índices tão altos de ansiedade, esgotamento e adoecimento emocional.
Sempre proponho aos meus alunos um exercício que costuma reorganizar prioridades. Imagine o mundo daqui a cento e cinquenta anos.
É muito provável que nenhum de nós esteja aqui. Nossa casa, se ainda existir, terá outros moradores. Nossa empresa terá outros gestores. As roupas que hoje guardamos com tanto cuidado já terão desaparecido. As fotografias digitais poderão nem existir mais. A maioria das pessoas sequer saberá que passamos por este mundo.
Não escrevo isso para diminuir a importância da vida. Escrevo exatamente pelo motivo oposto: quando percebemos que o tempo é limitado, cada escolha passa a ter muito mais valor.
Longe de ser uma ideia triste, essa talvez seja uma das mais bonitas, porque, quando entendemos que somos passageiros, deixamos de perguntar apenas “o que ainda preciso conquistar?” e começamos a perguntar “o que vale a pena deixar?”.
E é interessante perceber como a própria ciência começou a caminhar nessa direção. Aliás, existe uma curiosidade que ilustra perfeitamente essa mudança de perspectiva.
Um bom exemplo é a famosa Pirâmide de Maslow. Lembra? Pois é… Abraham Maslow nunca desenhou aquela pirâmide. Ela foi criada posteriormente para representar sua teoria e acabou ficando mais famosa do que o próprio autor imaginaria. O curioso é que a maior descoberta de Maslow veio depois.
Nos últimos anos de vida, ao estudar pessoas que considerava verdadeiramente realizadas, ele percebeu que todas tinham algo em comum: deixavam de colocar o próprio ego no centro da existência. Daí nasceu o conceito de autotranscendência, publicado posteriormente em seus escritos póstumos e aprofundado, décadas depois, no livro Transcend. Em outras palavras, depois de desenvolver quem somos, passamos a perguntar como nossos talentos podem servir a algo maior do que nós.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas alcancem o que imaginavam ser sucesso e, ainda assim, continuem sentindo um vazio difícil de explicar. A pergunta deixa de ser apenas “quem eu posso me tornar?” e passa a ser muito mais profunda: “para quem eu posso me tornar essa pessoa?”.
Quando começamos a gerar valor para outras pessoas, acontece algo curioso. A lógica muda. Em vez de medir o tamanho do patrimônio, começamos a medir o tamanho do impacto. Desapego, então, deixa de significar abrir mão. Passa a significar compreender que somos guardiões, e não proprietários.
Continuamos trabalhando, empreendendo e realizando sonhos. A diferença é que deixamos de medir nossa vida pelo que acumulamos e passamos a medi-la pelas pessoas que desenvolvemos, pelos ambientes que tornamos mais humanos e pelas oportunidades que criamos.
É justamente por a vida ser um aluguel que ela tem tanto valor. Continuamos cuidando do patrimônio, da carreira e dos sonhos, mas sabendo que bens mudam de dono. O bem que geramos, esse sim, continua viajando pelas gerações.
Foi dessa inquietação, muito mais do que da vontade de escrever outro livro, que nasceu Humanamente, minha sexta obra na área de Felicidade, escrita em parceria com especialistas em felicidade formados pelo Instituto Happiness do Brasil e com lançamento previsto para outubro, durante o Book Tour Bahia. Um livro que nasceu da mesma pergunta que inspirou este artigo: se estamos apenas de passagem, o que realmente merece ocupar o centro da nossa existência?
*Sandra Teschner é baiana e uma das principais especialistas brasileiras em Ciência da Felicidade. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, idealizadora do Happiness Brasil Summit, certificadora internacional em parceria com a MUST University, atua no Brasil, nos Estados Unidos e na Alemanha formando líderes, educadores e especialistas em felicidade. É autora de seis obras dedicadas ao bem-estar, à felicidade e ao desenvolvimento humano.
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