Chikungunya não termina quando a febre passa
O aumento de 92% nos casos de chikungunya na Bahia em 2026, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), acende um alerta importante sobre os impactos da doença para além da fase aguda da infecção. Entre janeiro e meados de junho deste ano, foram registrados 3.191 casos prováveis no estado, com notificações em 141 municípios.
Quando pensamos em chikungunya, geralmente associamos a doença aos dias de febre, mal-estar e dores intensas que acompanham a fase aguda da infecção. No entanto, essa visão é incompleta e pode fazer com que muitas pessoas deixem de receber o acompanhamento adequado no momento certo.
Para uma parcela significativa dos pacientes, a chikungunya não termina quando a infecção acaba. Ao contrário do que muitos imaginam, as dores articulares provocadas pelo vírus podem persistir por meses e, em alguns casos, por anos após o desaparecimento dos sintomas iniciais.
Não se trata apenas de um desconforto residual. Estamos falando de um quadro que pode comprometer a mobilidade, a capacidade de trabalhar, a prática de atividades físicas e até tarefas simples do dia a dia. A experiência clínica e os estudos de acompanhamento mostram que entre 30% e 60% dos pacientes podem apresentar sintomas articulares persistentes após a fase aguda da doença.
Em alguns casos, essas manifestações assumem características semelhantes às observadas em doenças reumatológicas inflamatórias, exigindo avaliação especializada e tratamento específico. E é aí que está um dos principais desafios relacionados à chikungunya. Muitas pessoas acreditam que sentir dor por semanas ou meses faz parte do processo natural de recuperação. Como consequência, convivem com sintomas incapacitantes sem buscar ajuda médica ou chegam tardiamente ao especialista.
É importante compreender que a persistência da dor não deve ser encarada como algo normal. Quando os sintomas não apresentam melhora progressiva, quando existe inchaço nas articulações, rigidez pela manhã ou dificuldade para realizar atividades habituais, é fundamental investigar se existe um processo inflamatório em curso.
A atenção deve ser ainda maior entre pacientes que apresentaram quadros mais intensos da doença, com acometimento de múltiplas articulações e presença de inchaço durante a fase aguda. Mulheres, pessoas acima dos 40 anos e indivíduos com doenças reumatológicas prévias também parecem apresentar maior risco de desenvolver complicações articulares prolongadas.
Outro aspecto que merece destaque é a necessidade de diferenciar a chikungunya de outras arboviroses, como dengue e zika. Embora compartilhem diversos sintomas, a chikungunya costuma se destacar pela intensidade da dor articular e pelo potencial de evolução para um quadro inflamatório persistente. Essa característica faz com que a doença tenha impacto muito além do período da infecção viral.
Felizmente, existem formas de tratamento capazes de controlar a inflamação, reduzir a dor e preservar a funcionalidade das articulações. O acompanhamento especializado permite identificar quais pacientes necessitam apenas de medidas de suporte e quais demandam terapias mais específicas para evitar a cronificação dos sintomas.
Em um cenário de crescimento dos casos da doença, precisamos olhar para a chikungunya além das estatísticas epidemiológicas. A febre passa, o vírus desaparece, mas, para muitos pacientes, a doença pode continuar presente nas articulações. E quanto mais cedo essa realidade for reconhecida, maiores serão as chances de preservar qualidade de vida, autonomia e bem-estar. Por isso, o acompanhamento com um reumatologista é fundamental para identificar precocemente processos inflamatórios persistentes, indicar o tratamento mais adequado e evitar que as sequelas comprometam a rotina e a funcionalidade do paciente a longo prazo.
*Viviane Machicado é reumatologista da Clínica IBIS
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias