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Infertilidade: quando o sonho de engravidar impacta também a vida emocional e sexual do casal

Por Wendy Delmondes

Foto: Divulgação

Quando falamos sobre infertilidade, é comum que a atenção esteja voltada para exames, diagnósticos e tratamentos. No entanto, existe uma dimensão dessa condição que ainda recebe pouca visibilidade: os impactos emocionais e sexuais vivenciados pelos casais ao longo da jornada em busca da gravidez.

 

Em junho, mês dedicado à conscientização sobre a infertilidade, somos convidados a ampliar esse olhar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,5% da população adulta mundial enfrenta dificuldades para engravidar, o que equivale a uma em cada seis pessoas. Trata-se, portanto, de uma condição bastante frequente, mas que ainda é cercada por desinformação, estigmas e silêncios.

 

Historicamente, a fertilidade foi associada principalmente à mulher. Ainda hoje, é comum que a investigação clínica se inicie por ela, enquanto o parceiro demora mais tempo para realizar avaliações básicas. No entanto, sabemos que essa visão não corresponde à realidade. Os fatores masculinos estão presentes em aproximadamente metade dos casos de infertilidade, seja de forma isolada ou combinados com fatores femininos.

 

Por isso, é fundamental compreender que a infertilidade é uma condição do casal e que seu diagnóstico deve ser conduzido de forma conjunta. Mais do que uma questão biológica, ela afeta relacionamentos, expectativas e projetos de vida.

 

Ao longo dos anos acompanhando pacientes na área de reprodução humana, percebo que uma das consequências mais marcantes da infertilidade é a transformação da vida íntima. O que antes acontecia de forma espontânea passa a ser organizado em função do calendário, dos exames e do período fértil. A sexualidade, que deveria ser um espaço de prazer e conexão, muitas vezes se torna uma atividade associada à obrigação e à cobrança.

 

Esse processo pode gerar um desgaste significativo. A ansiedade diante da espera, o medo de novas frustrações e a pressão por resultados acabam interferindo diretamente na autoestima e na qualidade das relações. Não raro, casais relatam perda do desejo sexual, diminuição da intimidade e dificuldades de comunicação.

 

Homens e mulheres costumam vivenciar esse cenário de maneiras diferentes. Entre as mulheres, doenças frequentemente associadas à infertilidade, como a síndrome dos ovários policísticos e a endometriose, podem provocar sintomas físicos, desconfortos e alterações que impactam também a sexualidade e o bem-estar emocional.

 

Já entre os homens, o diagnóstico de um fator masculino frequentemente desperta sentimentos de culpa, insegurança e medo. Ainda existe uma associação equivocada entre fertilidade e masculinidade, o que pode fazer com que muitos homens enfrentem sofrimento emocional silencioso ao receberem esse tipo de diagnóstico.

 

Além disso, fatores relacionados ao estilo de vida têm papel importante na saúde reprodutiva masculina. Obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, uso de anabolizantes e algumas doenças crônicas podem comprometer a fertilidade, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento especializado.

 

Apesar dos desafios, é importante destacar que a infertilidade não precisa ser enfrentada apenas como uma experiência de sofrimento. Quando existe diálogo aberto, acolhimento e apoio mútuo, muitos casais conseguem fortalecer seus vínculos durante essa trajetória. Compartilhar medos, expectativas e frustrações permite construir uma relação mais sólida e uma parceria mais consciente diante das dificuldades.

 

A infertilidade vai muito além da capacidade de engravidar. Ela envolve sonhos, emoções, identidade, autoestima e relações afetivas. Por isso, o cuidado com esses pacientes deve ser integral, contemplando não apenas os aspectos médicos, mas também a saúde emocional e a qualidade de vida.

 

Falar sobre infertilidade é, acima de tudo, falar sobre pessoas. E quanto mais ampliarmos esse debate, mais preparados estaremos para oferecer informação, acolhimento e suporte a quem vive essa realidade.


*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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