Menstruação saudável começa com informação de qualidade
A menstruação faz parte da vida de cerca de 1,8 bilhão de pessoas todos os meses no mundo, segundo dados do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Ainda assim, o assunto segue cercado por tabus, constrangimentos e desinformação: uma pesquisa do UNICEF e do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) mostrou que mais de 60% das jovens já deixaram de frequentar a escola ou espaços públicos por estarem menstruadas. Esse cenário revela que, apesar dos avanços no debate sobre saúde feminina, ainda há um longo caminho para transformar informação em acolhimento, autonomia e cuidado.
Por um lado, temos as redes sociais e os ambientes digitais, ampliando as fontes de informação sobre saúde, especialmente entre mulheres mais novas; do outro, conteúdos sem embasamento científico que também ganham espaço e aumentam o risco de normalizarmos sintomas que merecem atenção médica ou perpetuarmos crenças ultrapassadas sobre o corpo feminino.
No consultório, ainda é comum ouvir relatos de mulheres que convivem há anos com dores intensas, sangramentos excessivos ou alterações menstruais sem procurar ajuda, porque aprenderam que “é normal sofrer” durante o período menstrual – o que não é verdade.
Cólicas leves podem acontecer, mas dores incapacitantes, que impedem atividades cotidianas, precisam ser investigadas. Sangramentos muito intensos, prolongados ou que afetam a qualidade de vida também são sinais de alerta para condições como endometriose e sangramento uterino anormal. Nessas situações, o diagnóstico precoce faz diferença no tratamento e na qualidade de vida das pacientes, que têm o cotidiano impactado pelo mal-estar físico, emocional e, muitas vezes, social.
Outro ponto importante é entender que histórico familiar não deve servir como justificativa para naturalizar sintomas. Muitas mulheres acreditam que, se a mãe ou outros familiares sempre tiveram fluxo intenso ou dor, isso faz parte da genética e deve ser aceito, mas alterações menstruais merecem avaliação individualizada. Hoje, existem diversas opções terapêuticas seguras e eficazes, como pílulas hormonais e dispositivos intrauterinos (DIUs) hormonais, que ajudam no controle do fluxo, alívio dos sintomas e melhora do bem-estar, sempre com orientação médica.
Também é fundamental conversamos sobre esses temas para combatermos mitos antigos que ainda persistem, como as histórias de que lavar o cabelo durante a menstruação faz mal e de usar absorventes internos, coletores menstruais ou DIUs podem afetar a “virgindade” (um conceito social complexo que não pode ser reduzido à presença ou ausência do hímen). Da mesma forma, embora a ausência de menstruação seja um dos principais sinais de gravidez, é importante que as mulheres saibam que sangramentos podem ocorrer durante a gestação e que conhecer o próprio fluxo é o primeiro passo para buscar acompanhamento médico diante de qualquer alteração.
Por outro lado, existem hábitos e ferramentas que devem ser incentivados: alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e atenção à saúde emocional podem aliviar sintomas e melhorar o bem-estar ao longo do ciclo. Além disso, aplicativos de monitoramento menstrual podem auxiliar na identificação de padrões e alterações importantes, contribuindo para diagnósticos mais precoces.
Com hábitos como esses e conversas abertas, caminhamos para abandonar a ideia de que sofrimento menstrual é algo que deve ser suportado em silêncio.
O ciclo menstrual é uma realidade enfrentada por todas e não deve ser tratado com estigmas. E quanto mais cedo entendermos isso, mais cedo poderemos garantir dignidade, cuidado, acolhimento e acesso a diagnósticos e tratamentos corretos para milhões de pessoas.
*Mariana Viza é ginecologista fundadora da Casa Irene
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