Dor crônica e saúde mental: as dificuldades de romper um ciclo
A dor crônica vai muito além de um sintoma físico persistente. Cada vez mais, a ciência tem demonstrado que ela está conectada à saúde mental, formando um ciclo de retroalimentação que impacta a qualidade de vida e a autoestima dos pacientes. Um estudo global publicado em 2025 na JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores da Johns Hopkins Medicine, aponta que cerca de 40% dos adultos com dor crônica apresentam sintomas clinicamente relevantes de depressão ou ansiedade.
Os dados apontaram que 37% dos pacientes convivem com transtorno depressivo maior e 17% com transtorno de ansiedade generalizada, No Brasil, a dor crônica afeta aproximadamente 37% da população com mais de 50 anos, segundo o Ministério da Saúde.
Na prática clínica, é evidente que a dor persistente tende a gerar frustração, isolamento social e sentimentos de desesperança, o que aumenta o risco de adoecimento psíquico. Por outro lado, ansiedade, estresse e depressão amplificam a percepção da dor, tornando-a mais difícil de controlar e deixando o organismo em um estado inflamatório constante.
É comum que o paciente chegue ao consultório focado exclusivamente no alívio imediato da dor local, e isso é compreensível dado imensa estafa gerada pela própria condição. A experiência clínica, no entanto, mostra que abordagens integradas, que incluem acompanhamento psicológico e, por vezes, psiquiátrico, aumentam a adesão do paciente ao tratamento e melhoram os resultados.
Um estudo publicado em 2024 no Journal of Clinical Psychology aprontou que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode reduzir sintomas de depressão em cerca de 25% e diminuir a intensidade da dor em até 15% em pacientes com dor crônica. Os médicos e psicólogos trabalham para combater o fenômeno da “catastrofização da dor”, estado em que o paciente passa a acreditar que seu sofrimento é permanente e sem solução. É um trabalho conjunto para que os pacientes possam reestruturar padrões de pensamento e abrir espaço para estratégias mais saudáveis de convivência com as próprias adversidades físicas.
A escuta ativa é fundamental nesse processo, sobretudo diante da dificuldade de identificação da dor crônica em exames. Uma avaliação abrangente, que considere o histórico clínico, familiar e emocional, permite um cuidado mais assertivo e individualizado. Sem esse olhar ampliado, cresce o risco de uso prolongado de medicamentos, pois na falta de suporte adequado, a automedicação se torna uma dependência do paciente para aliviar o próprio sofrimento emocional.
Romper o ciclo entre dor e sofrimento mental depende de uma relação de confiança entre paciente e os profissionais de saúde, pois, para um bom resultado, o paciente permanece no tratamento para além das horas marcadas na clínica. Ele deve ser estimulado a implementar estratégias de regulação do sono, buscar atividades de lazer e ajustar a rotina. Dessa forma, tratamento deixa de ser episódico e passa a produzir efeitos mais consistentes para a vida inteira.
*Lúcio Gusmão é Sócio fundador do Centro Avançado da Dor e Especialidade (Rede CADE) é médico ortopedista especialista em dor crônica e em Medicina Regenerativa. Dr. Lúcio foi o presidente do primeiro congresso do comitê de dor da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e atualmente faz parte da diretoria. (CRM: 16363 / RQE: 8673)
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