A dor invisível que ganhou visibilidade após relato de Lívia Andrade
Nos últimos dias, o relato da apresentadora Lívia Andrade sobre o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo trouxe visibilidade a uma condição ainda pouco compreendida pelo público, mas que pode ser profundamente incapacitante. Conhecida por provocar uma das dores mais intensas da medicina, a doença impacta diretamente a qualidade de vida de quem convive com ela.
A neuralgia do trigêmeo é uma condição neurológica que afeta o nervo responsável pela sensibilidade da face. Na prática, o que observamos é que esse nervo pode sofrer uma compressão, levando a uma lesão. A partir daí, ele passa a responder de forma exagerada a estímulos, desencadeando crises de dor intensa, muitas vezes descritas pelos pacientes como choques elétricos.
Essas dores costumam surgir de forma súbita, com duração de segundos ou minutos, podendo se repetir várias vezes ao longo do dia. É comum que o quadro seja confundido com dor de dente, sinusite ou até enxaqueca, o que pode atrasar o diagnóstico. No entanto, há características importantes que ajudam a diferenciar: a dor da neuralgia do trigêmeo é rápida, intensa, não costuma responder a analgésicos comuns e pode ser desencadeada por estímulos simples, como falar, mastigar ou até um toque leve no rosto.
Embora possa acometer diferentes perfis de pacientes, a condição é mais frequente em mulheres acima dos 50 anos. Ainda assim, é importante reforçar que homens e pessoas mais jovens também podem ser afetados.
Em alguns casos, a neuralgia do trigêmeo pode estar associada a outras condições neurológicas. A Esclerose múltipla, por exemplo, é uma doença autoimune que pode estar relacionada ao surgimento desse tipo de dor. Além disso, processos inflamatórios que atingem os nervos, como algumas infecções virais, também podem desencadear o quadro.
Apesar da intensidade dos sintomas, é importante destacar que existem tratamentos eficazes. O manejo da doença pode incluir o uso de medicamentos específicos para estabilizar a atividade do nervo e reduzir os impulsos de dor, como a carbamazepina. Em situações selecionadas, também lançamos mão de procedimentos minimamente invasivos, como a compressão do gânglio por balão e a aplicação de toxina botulínica. Já nos casos mais complexos, a cirurgia de descompressão microvascular pode ser indicada para aliviar a pressão sobre o nervo.
Para além do tratamento da dor, o grande desafio é devolver qualidade de vida ao paciente. A neuralgia do trigêmeo afeta a rotina, o emocional e até a autonomia de quem convive com crises recorrentes.
Por isso, nosso principal alerta é que dores intensas e recorrentes na face não devem ser ignoradas nem tratadas apenas com automedicação. O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado fazem toda a diferença no controle da doença e na recuperação do bem-estar. Trazer esse tema à tona, como fez recentemente Lívia Andrade, é um passo importante para ampliar o conhecimento sobre a condição e incentivar mais pessoas a buscarem ajuda médica adequada.
*Priscila Rosa, neurologista da Clínica IBIS (CRM 19055 | RQE 9565)
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