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Mulheres devem suspender medicamentos emagrecedores injetáveis antes de tentar engravidar

Por Wendy Delmondes

A obesidade atinge cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva, segundo dados epidemiológicos recentes. Nesse contexto, a busca por um peso saudável antes da gestação é não apenas recomendada, mas estratégica: a redução do excesso de peso está diretamente associada à diminuição de riscos como diabetes gestacional, hipertensão e pré-eclâmpsia.

 

Nos últimos anos, uma nova geração de medicamentos tem ganhado protagonismo no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2: os agonistas do receptor GLP-1. Popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, esses fármacos — que incluem substâncias como semaglutida e tirzepatida — demonstram alta eficácia, especialmente nos primeiros meses de uso, promovendo perda de peso significativa e melhora de parâmetros metabólicos.

 

Com a ampliação do acesso a essas medicações, impulsionada inclusive pela quebra de patentes em alguns mercados internacionais, cresce também o número de mulheres em idade fértil que fazem uso desses tratamentos. Esse cenário torna ainda mais essencial o acesso à informação qualificada e ao acompanhamento médico criterioso, sobretudo para aquelas que desejam engravidar.

 

Embora estudos pré-clínicos em animais tenham apontado possíveis riscos gestacionais, incluindo efeitos teratogênicos, os dados em humanos ainda são limitados e inconclusivos. Até o momento, não há evidências consistentes de aumento de malformações graves após exposição inadvertida no início da gestação. Ainda assim, a ausência de dados robustos de segurança impede a recomendação do uso dessas medicações durante a gravidez. Por esse motivo, sua utilização é formalmente contraindicada no período gestacional, sendo também indicada a adoção de métodos contraceptivos eficazes durante o tratamento.

 

Diante disso, o planejamento reprodutivo torna-se peça central. Mulheres que utilizam essas medicações e desejam engravidar devem, necessariamente, conversar previamente com seu médico. Cada substância possui um tempo específico de eliminação do organismo, e, de forma geral, recomenda-se a suspensão entre quatro e oito semanas antes da tentativa de concepção, reduzindo potenciais riscos ao desenvolvimento embrionário.

 

Outro ponto de atenção, frequentemente negligenciado, é o impacto desse processo no tempo reprodutivo. A fase de maior perda de peso costuma ocorrer nos primeiros seis meses de uso, somada ao período necessário de “washout” (eliminação da medicação do organismo). Esse intervalo pode adiar a tentativa de gravidez — uma questão particularmente sensível para mulheres acima dos 35 anos, quando o declínio natural da fertilidade se torna mais acentuado.

 

Além disso, a interrupção do uso dessas medicações exige acompanhamento próximo e individualizado. Existe risco de reganho de peso, piora de parâmetros cardiometabólicos e até ganho excessivo durante a gestação, fatores que elevam os riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. Soma-se a isso o fato de que, durante o uso, pode haver redução do apetite e da variedade alimentar, o que, em alguns casos, leva a deficiências nutricionais — um aspecto crítico no preparo para uma gestação saudável.

 

O período pré-concepcional é, por natureza, uma fase de grande vulnerabilidade e exige vigilância integral. Planejamento é fundamental — e, na reprodução, o tempo é um fator biológico que não pode ser ignorado. Segurança e agilidade não são conceitos opostos; ao contrário, devem caminhar juntos.

 

É plenamente possível estruturar estratégias de redução de peso com responsabilidade, alinhando saúde metabólica e planejamento reprodutivo. Para isso, é indispensável uma abordagem individualizada, que considere não apenas o peso corporal, mas também a fertilidade como um recurso biológico dependente do tempo.

 

Planejar com estratégia é, portanto, a forma mais segura de equilibrar cuidado, saúde e o desejo de engravidar.

 

*Wendy Delmondes é médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959).

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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